segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Educação . A seduçao das Letras!


A sedução das Letras


Quem fala das letras , fala dos números, fala do Conhecimento.
Criança, numa aldeia, há sessenta anos, não tinha creche, nem jardim - escola.
Eu ia para casa da minha madrinha, que esteve 14 anos acamada com reumatismo gotoso. Não havia os meios de hoje, na saúde...
Deitada junto a ela, vezes sem conta, nos meus sonhos de criança, interrogava-me. Perguntava:
- Madrinha, quando é que eu vou para a Escola?
Coitada, ela cansada de me ouvir, sofrida e isolada, sem paciência, não me lembro o que me respondia.
Lembro-me sim, a insistência que eu punha nesta pergunta. A ânsia que tinha de aprender. De ir para a Escola!
Não tinha livros para ler.
Brincava com feijões, sozinha, na varanda. Escolhia-os segundo a cor. Fazia casinhas com eles. Inventava amiguinhos. Conversávamos muito…
Um prima de Lisboa, nas férias, trazia o “Diabrete”, um jornal em banda desenhada, para crianças.
Caçávamos borboletas (que nunca apanhávamos…).
Ela era mais velha. Contava-me a história do Tim Tim, do Capitão Rosa e do Rom Rom.
Eram mágicos esses momentos.
Até virem as férias da Luisa, parecia-me uma eternidade.
Não havia rádio, nem televisão, nem net…
Houve mais tarde , uma galena que me deliciava.
Mas o que eu queria mesmo era aprender.
Ir para a Escola!
Tive a sorte de um Professor do Liceu Passos Manuel em Lisboa, ir passar férias perto da minha casa.
Apercebendo-se da minha sede de saber coisas novas, de aprender, um dia chamou-me.
Foi a “luz brilhante” que começou a iluminar - me, na Cartilha de João de Deus.
Esse livrinho pelo qual tenho muito amor, abriu-me para um mundo novo: as primeiras Letras pelas quais me apaixonei, até hoje!
Com umas noções e rapidamente, comecei a ler!
Lembro-me do fascínio, da sensação daquela aventura e descoberta : ler!
Elogiavam-me. Dava -me uma pequena moeda, todos os dias, porque sabia sempre a lição…
O Senhor Frazoa - era assim que se chamava o meu “professor”- além de alimentar o meu sonho de aprender, reforçou essa ânsia de Conhecimento., que ainda hoje não me abandonou!
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Quando entrei na Escola Primária – a mesma onde andava Jaime Soares (…), parece que tudo o que a professora me ensinava , estava apenas a reavivar, a rever, a recordar.
Parecia que já sabia aquilo.
Dos trabalhos de casa, nunca conseguia comer ou deitar-me, sem saber tudo , o que a senhora professora mandara fazer e estudar.
Não havia luz eléctrica.
Estudava com um candeeiro de petróleo . Meu Pai, ás vezes, apagava a luz. Sorrateira ia acender uma vela para estudar.
Felizmente nunca houve incêndio , mas…, Li os livros todos ( eram poucos, sentia eu no momento…) que havia num armário muito cheio de pó, à entrada da Escola.
Ninguém pedia para ler, mas eu queria ler. A professora emprestava-me.
A senhora professora tinha quatro classes.
Os rapazes tinham um professor.
As raparigas tinham uma professora. Tudo separado , com muito rigor. Respeito. Educação.
O professor, o médico e o padre eram endeusados .
Estavam tão longe do pessoal, da “arraia miúda”, do povo, como do céu à terra.
As professoras não gostavam que os pais as fossem aborrecer. Elas é que sabiam tudo…
Batiam com uma régua de madeira vermelha, um sarrafo, nas mãos até ficarem quase em sangue.
- Tens dez erros no ditado, levas dez reguadas!
-Não fizeste o trabalho de casa, levas cinco reguadas…
Também podias levar com a vara. Puxarem-te as orelhas. Não ires ao intervalo.
As crianças tinham muito medo da professora, que às vezes, na confusão de tanta gente e de tanto trabalho, também ralhava alto e batia, logo de seguida.
As melhores alunas, que faziam os trabalhos em primeiro lugar, iam ver a conta das outras meninas e ensiná-las. Quem sabia mais ensinava quem sabia menos, ordenava a professora.
Enquanto a 1.ª classe fazia a cópia, a 2.ª classe fazia o ditado por uma colega. A 3.ªclasse fazia uma conta no quadro. As meninas da 4.ª classe estavam à volta da secretária a dar a lição de História.
Havia sempre uma das mais velhas que já tinha completado os trabalhos, que ia tomar conta de quem falava.
Afianço-vos que éramos bem educados Quem falasse, ia “à senhora”, que mesmo sem dizer nada, lhe aplicava uma boa reguada na mão .
Algumas crianças iam para o lugar a chorar, mas caladinhas…
Ninguém passava de classe, sem estar preparado. Sabendo as matérias mínimas.
Tudo se pautava pelo trabalho, pela boa educação e pelo respeito.
E ai de quem saisse “fora dos eixos”.
Era uma vergonha!

1 comentário:

  1. Aos meus amigos que visitanm no meu blog, è só para dar a conhecer aos mais jovens e para se poder comparar com o mundo de hoje...

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