sábado, 17 de julho de 2010

Crónica: O Homem grande chorou...


Fica mais um flash, antes de continuar o nosso assunto sobre a Dama dos Véus e da Foice...


Hoje é um assunto q não é muito agradável... mas a vida é feita de tudo




Crónica do homem grande

Orgulhamo-nos tolamente de convencer os outros daquilo que nós próprios não pensamos e sentimos”
Vauvenargues

Quando a escrita se torna como um tubo de respiração, uma válvula, ela está sempre presente em nós.
Onde quer que estejamos, parece que a câmara está sempre a registar, mesmo que disso não tenhamos consciência.
Depois quando estamos mais calmos, vem tudo à tona e somos pressionados a passar para a escrita, o tal registo.
Então desta vez o que se passa? O homem grande chorou.
O homem grande estava muito decepcionado, porque ela o tinha abandonado.
Ela, em quem depositara tanta confiança.
Ela, com quem dera tantos passeios.
Ela, com quem passara tão bons bocados.
Ela, que visitava todas as noites.
Ela, de quem esperava companhia.
Ela, de quem esperava todo o apoio.
Ela, a quem até dera uma casa!

Fiquei com pena do homem grande que estava tão triste e falava de abandono. Desilusão.

Mas depois, conhecendo melhor a sua história, percebi que quem com ferros mata, com ferros morre e que estão todos bem uns para os outros.
Merecem-se.
Talvez fosse importante é quebrar estas cadeias…
E porquê?
Porque nascera tudo torto.
O tal homem grande tinha um compromisso de família.
Mas como é apanágio de alguns homens com costela de árabe, querem ter mais do que uma mulher, não por amor verdadeiro ,mas para irem variando.
Como alguém um dia me “explicou”, que um homem precisa de várias mulheres na sua vida.
“ Uma mulher é a mãe dos nossos filhos.
Outra, é a nossa empregada.
Outra é a nossa amante, a do prazer”.

E para além disto tudo, ainda há a história dos patrimónios.
Dos bens, que é uma trapalhada e que têm de se preservar (…). Sobretudo, quando ela é que trás a maior fatia, isto não se pode perder nada.
Acrescentamos ainda esta coisa linda: a fachada social. Salvar as aparências de ser um chefe de família de palavra, honrado e fiel, que não abandona o lar.
Bem, e dão-se uma voltas (…) e são todos muito felizes.
Mas um dia, a coisa rompe-se.
A casa vem abaixo.
E como é que elas se sentem as duas “princesas”?
A que fica em casa, desenvolve doenças graves, porque vira contra si própria toda a raiva que não controla e não exprime para não perder o “príncipe”, o chefe de família.
Foi assim que foi educada. A mulher fica em casa. Ao homem tudo se suporta.
Tida pelo príncipe, como azeda e muito “chata”, enquanto educa os filhos sozinha, ainda vai estando mais acompanhada, porque de resto está sempre sozinha.
E propósito de azeda, ocorre-me algo que li em Vauvenargues e que diz: “Não há pessoas mais azedas do que as que são doces por interesse” (…)
Pois.
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A outra princesa vai gozando e explorando o mais que pode a situação, que sempre está muito clara na sua cabeça, como transitória e oportuna. E vai aproveitando. A certa altura, começa a ver que o homem grande fica velho, muito velho, porque sempre foi mais velho desde o princípio...
Ora muito bem: já temos um bom trabalho.
Uma boa casa.
Muito bons conhecimentos.
Segurança e outro, (uma boa mina) debaixo de olho.
E agora que as coisas do corpo já não funcionam, o que é que resta?
A parte material.
Há que pôr os olhos ao resto, porque ele abunda por toda a parte…A princesa não é cega e está dentro de todos os segredos e jogadas.
Conhece heranças e muitas outras facilidades (…).
E a certa altura, pergunta:
- Como é, vamos partilhar?
Assegurar esta coisa material, que é a única coisa que sempre contou para ambos, dado que se passou por cima do resto…
Aí, o homem grande e velho, quer controlar. Segurar a barra e meter tudo no mesmo saco.
Nem se recorda que passara por cima de tudo: roubara a rapariga ao marido …
Enganara a companheira.
Brincava aos casais.
Era tudo muito bom, mas a brincar. Ao faz de conta…

Mas se o contracto, era o do prazer que para ele mudava de face e agora necessitava de ternura e carinho, atenção?
Para ela, os interesses eram diferentes, porque estava fresca e para usar e durar e a cabecinha muito fresca.
Era só o vil metal, os bens, a segurança, a abundância que a motivavam.
A casinha já lá cantava, mas queria muito mais e mais, porque isso era o que não faltava ao homem grande…
Mas também não lhe faltava a inconsciência, ganância, o controle, o apego, burrice e fraqueza e aí…chorou.

Ela depois de esticar a corda e pôr as cartas na mesa, foi peremptória:
- Ou pões os bens no meu nome ou acaba aqui tudo!
Aqui, o homem grande chorou.
Aqui, o homem grande não aguentou tanta “generosidade”.
Usou-a naturalmente e até lhe pagara…
Ela também o usou, mas agora não estava mais para o aturar. Já não precisava mais dele. Tudo acabara.

Então o homem grande chorou…
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Esta seria uma história baseada na malandragem secreta de um homem grande com costela de árabe, se não fosse a observação que se faz do percurso seguinte do homem grande.
Ele é velho, mas aprendeu bem e refinou.
Tem um comportamento semelhante ao dela: não dá ponto sem nó.
Quando dá uma pequena chouriça, espera sempre que lhe dêem um porco.
Senão desaparece. É incapaz de doar seja o que for.
Habituado a receber unicamente.
Qualquer pequeno favor, fora sempre muito bem pago. Por que não?
Como poderia agora perceber o que é generosidade? Amor incondicional?
Na sua cabecinha isso seria ser palerma... ser usado…não ter qualquer possibilidade de ser usado…
E o mundo é apenas baseado em troca por troca.
Não cabe nas cabeças, nem nos corações destes homens grandes, serem generosos sem porquê… só porque sim.
Foram treinados para viver neste mundo, como sendo o centro do mundo, só para lucrar. Receber.
Só conhecem esta única realidade.
Um materialismo confrangedor.
É assim o testemunho que passam a seus filhos, aos netos ... que não têm qualquer referência para a mudança.
E ainda são capazes de se dizerem crentes em Deus …mas fazem deste plano terráqueo, a única realidade.
Concluímos desta análise do Homem grande, que afinal ele teve o que semeara.
Os semelhantes se atraem.
O abandono que sofreu por parte da princesa magalona que o usou, tal como ele fizera a ela, a quem até ajudara a destruir a sua família. Só põe graça e brincadeira.

Por outro lado, esquecemos facilmente que quando morremos, não se levam as casas que nos deram (…), os carros, os títulos, a importância social, mas o que somos no nosso mais íntimo e no silêncio, que ninguém senão nós mesmos e Deus conhecem.

Era bom que os homens grandes fossem também grandes homens de estatura moral e sempre iguais a si mesmos, como modelos de grandeza e real bondade generosa!
Isso afinal, é só para palermas, no entender do homem grande….