domingo, 25 de outubro de 2009

Mar Alto


Vivi 8 meses no mar Caraíbe, mar que rodeava a Guiana Francesa e Amazónia, fazendo conferências para Belgas e Franceses, num Barco Grego , ao serviço da França.

Confesso que foi uma experiência enriquecedora,mas de uma grande solidão e dureza.

Aí , houve necessidade de apelar às minhas forças mais profundas , para me ver por dentro e por fora , só, no meio de tanta gente...Natal e Ano Novo foi o mais duro!

Escrevi um pequeno texto, intitulado MAR ALTO que hoje partilho convosco.

MAR ALTO


Depois de algumas peripécias, atravessava a passerelle.

Entrava, por entre luzes e bandeirinhas de todos os países do mundo, ao serviço da França, no grande Barco Grego, a casa flutuante do sonho.

Seriam oito meses entre o céu e o mar.
Tudo aquilo era um mundo novo e particular. Especial.
Gentes de trinta e oito países faziam aquela temporada no Mar Caraibe, e nas águas que banham a Guiana Francesa e a Amazónia.
Acolhiam-se turistas de língua francesa: franceses e belgas, sobretudo.
Ao domingo à tarde, invadiam-nos a “CASA”, entrando em magotes curiosos e exigentes, os companheiros de viagem, durante oito dias.

Fascinados, curiosos, sonhadores, ávidos de aventura e novidades, começavam logo pela Martinica, ilha das Flores, que os acolhia com um colorido exótico bem diferente de tudo o que deixavam para trás, na Europa fria.

Seria para eles uma pausa morna nesta América Central, já que os cruzeiros se realizam de Novembro a Maio.

Depois são os tornados e as tempestades, naquela zona.
Alinhado, sorridente, amável, todo o staff se desfazia em gentilezas para acolher mais um novo grupo.

O Barco, repleto de Alpinias púrpuras, de Rosas Porcelana, Estrelícias e tantas outras flores locais, davam as boas vindas num tom festivo, logo à entrada.
Os cubanos, todos artistas de craveira, numa grande expectativa, com histórias terríveis de miséria, iam até ao limite de todas as exigências dos passageiros que habitualmente os procuravam…lá sabendo todos eles…os motivos (…) que nós atentos até adivinhávamos.
Os visitantes da semana anterior, partiam saudosos ao sábado à tarde, por entre o corredor branco do staff em cordão , balouçando ao som do “Beguine” e da steel Band.

Alguns turistas, já com a categoria de amigos, partiam… olhos brilhantes e um pouco do nosso coração escondido dentro deles.

A amizade verdadeira é eterna.

Nunca sabemos quando começa, mas sabemos que não termina nunca. Ali era apenas o encontro!
Nós ficávamos, cada um nos seus postos, sempre mais sós.

Aprendia-se que a VIDA É FEITA DE CHEGADAS E PARTIDAS!

A sensação de efemeridade … do valor secreto do acaso ou não acaso (…)

Há quem diga, que o acaso é quando Deus não quer assinar. Não existe acaso.
A maior parte das vezes, quando atracávamos, corríamos todos para a cabine telefónica, com uma fila interminável.

Ouviam-se falar todas as línguas…Aí se reconfortava a alma ao ouvir a voz de um filho amado ou outro familiar, tão perto e tão longe, separados por um oceano!
Solidão acompanhada é dupla solidão.

Mas também parece que só sente solidão quem não gosta de si mesmo…

A noite vestida de toilettes diversas, cheia de cor e movimento, numa agitação esperada ou consentida, contagiava o tédio de alguns passageiros que se soltavam em movimentos desengonçados uns, outros cheios de glamour…
Na festa de máscaras, a imaginação premiada era um espectáculo sempre novo.
No Grand Sallon apinhado de trajes de gala, as bailarinas frágeis, atrevidas nos reduzidos fatos cheios de cor e brilho, alternavam com os ilusionistas, contorcionistas, músicos e outros artistas que animavam as noites, no Barco.
No final, o Baile rematava sempre a noite. Alguns passageiros escorregadios…esquivavam-se pelo navio, em cantos e recantos …ou para ver o mar alto onde a lua se banha e desnuda, traçando uma estrada de luz… ou então, para contar e escutar segredos…Havia quem optasse pela bebida ou pelo jogo ou simplesmente…desaparecesse acompanhado para a cabine…
A chegada a uma nova ilha, era acolhida com curiosidade e sofreguidão.

Eram as excursões. As novidades. Os negócios. As prendas. A Música .Os grupos locais cheios de cor, movimento e alegria que saudavam os turistas, a possibilidade de mergulhar e descer ao fundo do mar e apreciando o maravilhoso dos corais…

Desportos náuticos naquele espaço eram muito vulgares.
Conversar com os habitantes, ir Igreja e conhecer a sua fé, negócios, peculiaridades, monumentos, vegetação, natureza… ficar sentada na Praça…observar…sentir o bulício, o movimento a cor, as formas, os cheiros, ou mesmo os sabores eram atractivos diferentes num espaço novo.

Possibilidades infinitas que se oferecem ao visitante.
A noite em terra mal chegamos, surpreende pelos ruídos doces e insistentes, misturados com o rolar das ondas que lambem os pés dos hotéis mesmo ali à beirinha da água morna.
Logo de manhã, despertar pelo sol que se levanta de repente às seis horas, olhar a árvore ali ao lado e ver de “serviço”, vigilante, uma grande iguana muito verde, espreitando todos os nossos movimentos.
Outras surpresas esperam o visitante. Por exemplo, penetrar nos Jardins de Balata, nas Grutas de Barbade, banhar-se na fonte da longevidade (…) ou apenas observar as grandes barbas que pendem das árvores, o que levou os Portugueses a baptizar e chamar Barbades, àquela Ilha. Em seguida, voltava-se ao barco.
Ambiente encantatório prendia com estranha sedução, quem chegava de novo.
As novidades sucediam-se, quer em terra, nas diferentes visitas, em que não faltavam as odorosas bebidas, misturadas com rum, fazendo esquecer desgostos, preocupações e ver a vida toda rosa.. Quer as viagens em “Catamarran” ou no Bateau Pirate ou , à noite no Navio, a casa do Sonho eram um buraco na realidade dura de cada um .
Às terças feiras, era a ceia odorosa e cheia de frutos dispostos com uma originalidade invulgar, tal como as incríveis esculturas em gelo feitas por um artista tailandês, nosso companheiro de viagem .
Depois acontecia o esperado e habitual jantar de Gala, em que o Comandante honrava, pela sua escolha e distinto convite, alguns passageiros para jantar nessa noite, à sua mesa!
Havia um dia escolhido para os disfarces e as brincadeiras “carnavalescas”. Eram muito animados e de uma grande originalidade esses serões cheios de mistério, imaginação e concursos.
A piscina de águas límpidas, salgadas e mornas, abria-se disponível, de par em par para quem optasse por se bronzear e relaxar, entre o mar e o céu cálido da América Central. Sobretudo consolavam-se aqueles de corpos muito brancos estendidos nas longue-chaises azuis...azuis. Ávidos de sol, deixaram à espera uma Europa invernosa vestida de branco pela neve fria…fria. Por ventos agressivos e c até inundações.
Vinham depois também, os dias de navegação no mar alto. O mar Caraibe, interior, um lago sereno e morno, em que não havia agitação… a não ser na alma de algum passageiro mais sensível ou apaixonado…
No Oceano Atlântico, estes dias eram agitados demais. O médico de bordo não tinha mãos a medir…já estava habituado. Para nós, era tudo rotina, até os vómitos. A Biblioteca enchia nessas alturas. A educadora de Infância ficava soterrada sob tanto menino que viajava gratuitamente.
Aconteciam sempre muitas aventuras no Barco durante a noite. Havia quem preferisse o sossego da cabine. Lia-se e descansava-se tranquilamente.
Sabia-se que Sophie, uma bailarina francesa, a mais linda de todas elas, se fixara num cubano atarracado , ciumento e belicoso e que lhe batia todas as noites. De manhã Sophie tinha mesmo negras pelo corpo…Inventavam-se parentescos no Barco e Sophie era a minha filha. Desabafava e conversava muito comigo. Nunca consegui que terminasse esse amor sádico e infeliz. Às vezes, nas ilhas mais pobres, íamos as duas levar comida aos que no cais ,esperavam a passagem dos grandes Barcos de turistas para daí usufruírem alguma coisa...
Os taxistas, classe privilegiada nas ilhas, esperam as senhoras canadianas e americanas, a quem prestam toda a espécie de assistência que elas muito bem pagam.
Entretanto no Barco, os Gregos muito animados, simpáticos e alegres, fazem as suas festas nocturnas na cabine do segundo Comandante grego.Comem .Bebem…Bebem bem…depois, quais Zorbas bem protegidos por Baco, dançam sobre as mesas. No final, partem tudo! Faz parte da festa este ritual.
No porão, alguns asiáticos, difíceis de esquecer pelo seu sacrifício, nunca vêem o sol durante três meses. São os mais mal pagos, desprezados e esmagados por tanto sacrifício.
Por entre um cheiro intenso a petróleo, barulho forte, permanente, num ambiente mal iluminado, entre canos, fios, uma grande confusão, vêem-se enfarruscados, silenciosos, isolados, sem nunca falarem com ninguém, sem verem o sol, nem respirarem ar puro, sempre naquele exíguo espaço, dias e noites, durante três meses… para todos os outros se poderem divertir… São os novos escra- vos das galés da nova civilização!
Os camaroteiros, esses sabem todos os segredos do barco. Aos montinhos, nos sítios mais escondidos, põem as novidades todas em dia...quem dormiu com quem… era a novidade de cada dia. È a sua distracção preferida: falar de tudo e de todos…Contudo, gentis, prestáveis esperam sempre o envelopezinho do passageiro que termina a viagem.
No comando, jovens oficiais tecem os seus comentários ao mundo feminino que desfila, quer o que vem de fora, quer quem está dentro.
Viver num Barco implica, para a maioria que lida mal com a solidão, perfilhar três vidas: a do antes, a do durante e a de depois.
Era por isso que quando se atravessava a passerelle pela primeira vez, os homens observavam a população feminina para acautelar o melhor possível a “vida”e ficar bem servido durante aqueles oito meses, com a sua nova companheira de viagem . Os oficiais eram os que tinham mais vantagens e assim eram os primeiros a escolher. Punham os olhos logo nas mais jovens e mais bonitas. Normalmente eram as bailarinas as escolhidas. Elas também não se importavam, porque optavam pelo poder e pelos privilégios para si e familiares que as iam visitando. O Comandante prestava-se ainda ao papelão de cumprimentar os turistas enquanto o fotógrafo, ganhando a vida enquanto viajava connosco, fixava esse momento de “triunfo” efémero que o passageiro exibiria mais tarde para si próprio e amigos no álbum de recordações.
Bem, eu… fazia conferências neste Barco…falava dos Livros, Fauna, Flora. Etnologia, História, Arte e muitos outros assuntos.
..quantas mais coisas poderia contar, não cabem neste limite de páginas …isto será apenas a introdução do livro que escreverei dentro de tempos.