sexta-feira, 30 de outubro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

África , meu amor...







Nunca vivi em Àfrica, no entanto sinto um grande fascínio por aquela Terra.






Estudei Literatura Africana de que muiro gostei e quando estive nas Caraíbas, pelas circunstâncias do meu trabalho ( fazia conferências num Barco Grego para Belgas e Franceses ), tive que aprofundar Etnologia.






Verifica-se então que desde o século 16 até ao século 18, 6 milhões de negros , vêm de África, vendidos muitas vezes, pelos seus irmãos de raça (...) para servirem como escravos , nas plantações de açúcar , ao serviço de europeus , nas Caraíbas.






Daí que, actualmente, o fundo da população, são pessoas de cor , já que este Povo se multiplica muito mais do que os brancos.



É verdade que eles estão ressentidos contra os brancos e...os indianos, que depois da escravatura abolida , apareceram já como atraídos e convidados pelos brancos, que lhes davam terras e outros benefícios ,que não deram aos negros, porque estes não quiseram aceitar.






Bom , mas a verdade é que adorei conviver e apreciar a generosidade de grandes famílias e o papel do matriarcado , bem vivo entre os caraíbes.



A mulher caríbe é emancipada, governa ilhas ( Ste Lucie , por exemplo ) e dá lições a muitos homens.



A música e as suas vivências artísticas, foram outra oportunidade que me deu muito prazer conhecer.






Apresentei, suponho que em 1998, na Universidade de Compostela, em Espanha, um comunicação que se intitulava, "África , um amor antigo."



Agora, há uns tempos, deu.-me vontade de escrever um conto , que lhes ofereço hoje, n0 meu blog.



Intitula-se ÁFRICA, MEU AMOR :



É o texto que se segue.



Oxalá gostem




África , meu amor!




Baixo o sol, chegámos finalmente ao cair da noite, quente e barulhenta. Logo à entrada era a sala de dança…
O hotel era imenso na massa apertada de tantos outros ali coladinhos, pendurados na montanha, tocando o céu.
A seus pés, estava o manto rendado das águas de um azul esverdeado, Mediterrâneo calmo, morno. Acolhedor. Faltava ainda e apenas, o azulão do alto mar e os golfinhos brincando, saudando-nos alegres ao passarmos. O branco das ondas sob as estrelas, tentava lavar e dissolver o escuro feio das areias, protegidas pelos cogumelos de colmo.


Diferente encanto do que estávamos habituados a ver nas nossas praias extensas e largas a perder de vista... À noite, o passeio marítimo enchia-se de falares diversos.
Durante o dia os mais velhos, vindos de longe… da terra fria e a húmida, consolavam - se com a fogueira ardente sob os pés, na praia apinhada... A noite morna trazia - lhes paz e um doce silêncio entrecortado por risadas leves, bem – dispostas, dos formigueiros humanos crescendo lentos ao longo do paredão lambido pelo mar que não parava de mexer…


Ao som da rumba e dos alegres”biguine” e “zouk”, executados por negros da Jamaica, nascido no escuro fundo dos bares apinhados
ao longo do passeio público, havia quem bailasse descontraidamente na rua. Em ambiente de festa, tudo se desprende. Todos se soltam. Até as estrelas brincam gaiatas no céu límpido, calmo, ao pressentirem a boa disposição descontraída dos turistas. ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, No Hotel, ficara a água que chorava dolente e meiga…Perdida no verde das plantas exóticas semeadas no lago artificial da entrada. Vindos de longe, cansados e cheios de malas, mirávamos-nos descuidados, mortos de cansaço, no complicado jogo de espelhos, convite ao vaguear da imaginação entre luzes e reflexos. Alguns dirigiram- se rapidamente para a piscina de águas quentes, azuis, azuis.


Outros descansaram nos quartos harmoniosos na decoração, amplos, virados para o mar. Outros correram para o telefone. Júlia, uma das nossas companheiras de viagem, elegante nos cinquenta e tantos anos, discreta, atenta, parecia que estava fora da realidade… Por mais que recordasse Leonardo Da Vinci e não fizesse como a maioria dos mortais que “olha sem ver, escuta sem ouvir, toca sem sentir, come sem saborear, movimenta - se sem ter consciência física, inala sem se a perceber do odor ou da fragrância e fala sem pensar” por mais que tentasse agarrar a realidade, não conseguia. O homem de fato e chapéu branco, vestido à colonizador africano, intrigara-a demais… Sentara - se sozinho no banco da frente.


Júlia pregou os olhos nos movimentos do homem do fato branco.Fez milhas de retrocesso no tempo, até chegar ao Colégio das Madres de S. José de Cluny, em Luanda. Num dia em que as acácias estavam mais vermelhas e floridas do que nunca, Roberto queimou- lhe a boca como um lume que nunca mais se lhe apagara da alma. Os dedos enganchados nas suas mãos frágeis, tímidas de menina inexperiente, ingénua, causaram-lhe um tal choque que ainda o sente ali igualzinho, naquele lugar perdido no tempo e no espaço. Passados alguns encontros, Roberto desapareceu sem dizer uma palavra. Mais tarde, justificara- se através de uma amiga comum, dizendo que seus pais o enviaram de repente sem contar, para Santo Tirso para um colégio interno, por recearem que se perdesse de amores tão cedo, por uma rapariga sem grande fortuna. Daí fora para a aviação, soube Júlia mais tarde. Em Luanda, correra depois o boato que Roberto tinha morrido num a acidente, quando pilotava.

Nunca, nunca mais ouvira falar dele. No coração de Júlia também nunca mais entrara ninguém, porque o lugar, preenchido por Roberto, continuava ocupado.
O tempo passou. Com a descolonização maldita para muitos, que matou com requintes de crueldade uma grande fatia de gentes, desgraçou tanta família, obrigando a dormir todos a molho, dias e dias no aeroporto, desprovidos de todos os seus haveres, fruto de tanta canseira, horas de sacrifício de muito português despojado de todos os seus bens em Portugal para recomeçar novas vidas em África, tudo acabou. Ficara apenas aquele sonho de amor misturado com o sabor da terra virgem em manhãs em que esta transpira e o cheiro entra pela alma, impondo-se para sempre com uma volúpia e uma insistência misturado no sangue, ampliado pela cor púrpura das acácias em flor… A recordação de uma África cheia de sortilégios vários, era tudo o que trouxera consigo na mala vazia de seus pais fugidos a correr para não perderem a vida. Quanta humilhação e necessidades passou Júlia, não o quer ela recordar mais. Agora com mais de metade da vida já passada, quer distrair-se um pouco, conviver. Viajar sempre que tiver possibilidades.


No meio de toda a sua pacatez, aquele homem de branco veio perturbá-la demais. Muito mesmo. Ressuscitar recordações adormecidas consentidamente. Quadros que revia muitas vezes, para ter a certeza de que ainda estava viva. Pareciam as feições de Roberto… Aquelas mesmas que ela um dia acariciara com olhos e alma de um modo singular, único, em que nunca mais se podem esquecer o cheiro, o sabor e as formas…


A agitação de Júlia, crescia interiormente por mais que ela tentasse dominar aquela força teimosa nascida nas entranhas, traindo-a completamente.
A vida é como um rio. Ninguém se banha duas vezes na mesma água. A saudade é uma força estranha, indomável, cruel que tortura em silêncio como um carrasco doce que nos acorrenta por amor, mas sem dó nem piedade. Sadicamente quase...Constantemente. Na solidão e na multidão. Sem descanso. Oxalá nunca sejamos visitados pela saudade!
Agora Júlia tremia. Não conseguia levantar- se do banco. E se fosse mesmo ele, o Roberto, o bem-amado, que iria acontecer? Ela não queria que ele a visse, porque se fosse ele e não a reconhecesse ou, pior ainda, se a ignorasse, ela sufocaria. Júlia pensou ir à recepção do hotel perguntar o nome daquele senhor do fato branco, mas enquanto estava na dúvida, ainda havia alguma possibilidade de ser verdade e ser ele mesmo…


Passou uma semana, evitando sempre cruzarem- se ou verem- se de frente, na

quela angústia feita de sentimentos diversos: sonho. Angústia. Tortura e dúvida. No último dia, na confusão das malas, o senhor do fato branco um pouco mais velho do que ela, caíra batendo com a cabeça. Passou muito mal. Levaram- no ao Hospital. O caso parecia inspirar algum cuidado. O conflito interior de Júlia duplicara. Que fazer agora? O grupo em alvoroço tecia comentários vários. Entre esses, Júlia escutara algumas inconfidências e…ouvira falar no Sr.Roberto!
- Coitado, é meu vizinho, mas não tem família. Vive só. Perdeu a família em África. Casou lá no Porto, mas a mulher morreu há tempos. Parece que ele até era uma pessoa de bastantes posses em África, mas perderam tudo, contou ele ao meu Zé, uma vez. -Então era ele?! Mas ele não tinha falecido num acidente, ainda jovem?! Afinal tinha casado… Teria família? Mas como pôde o destino pôlos no caminho um do outro, depois de tantas peripécias?

Anunciara agora a guia que o estado daquele passageiro inspirava algum cuidado e num curto espaço de lucidez, o Sr. Roberto pedira para regressar ao seu país. Voltou a cair em coma.
Júlia num repente, oferecera - se para o acompanhar, alegando ser enfermeira e estar ligada a esta família por laços de parentesco ainda que um pouco afastados. Para Júlia e Roberto o passeio terminara ali, mas não sabemos se a vida os presenteou com aquele encontro feito de magia e recordações que dá vida aos mortos. È bem provável que aquele encontro fosse mágico. E se nada acontece por acaso, e ‘o casamento e a mortalha no céu se talha’, como diz o Povo, o encontro aí se deu.


As condições não eram as melhores, mas como a desgraça tem o condão de aproximar os seres humanos…E como se diz que Deus escreve direito por linhas tortas, então tudo acontece no momento certo!
Afinal não são os sãos, mas os doentes que precisam de mais e mais amor…Júlia, como enfermeira, bem conhecia esse segredo da vida. Por isso vai abrir - se certamente em compaixão para com Roberto, por todos os motivos… Vamos espreitar? Deixar quem ama tranquilamente. É regra de ouro.


Além disso, ficar velho é obrigatório. Crescer é opcional, mas a experiência, a sabedoria da vida também têm muito que se lhe diga. Uma coisa é certa, nós não paramos de amar, porque ficamos velhos. Nós tornamo-nos velhos, quando paramos de amar.


Precisamos rir e encontrar humor todos os dias nas nossas vidas. Se tivermos um sonho, nunca morreremos. Crescemos sempre que encontramos oportunidade para mudar. Os mais velhos só têm remorsos pelo que queriam ter feito e não fizeram. Talvez Roberto até tenha medo da morte, porque poderá ter alguns remorsos…Por ter vivido menos bem o tempo rápido da passagem por este plano. Será que agora a vida os fez cruzar agora para darem continuidade ao seu romance interrompido, há já tantos anos? Mesmo que fosse menos tempo do que já viveram, talvez valesse a pena prosseguir um sonho que sempre se desejou. A qualidade tem muito pouco a ver com a quantidade. ……………………………………………………………………
Embora tivesse havido algum desgosto pelo grupo se ter desfeito, lá continuámos a descobrir o mundo e a nós mesmos, na relação com os outros e no mais profundo de nós mesmos, o que sempre acontece quando se viaja e ficamos naquele espaço vazio e íntimo em que tudo é sempre vestido da verdade mais nua e crua.
É engraçado observar o mundo que nos rodeia, naqueles momentos em que esquecemos as horas, os dias ou os meses, o país onde estamos. Uma verdadeira simbiose e encantamento se estabelecem entre nós e a natureza que nos envolve... Nada mais existe! Tudo se apaga para que as sensações se incendeiem e possamos fazer um todo com a paisagem.
O mais interessante é quando pensamos que o destino dos viajantes de um autocarro, vão na mão do motorista atento e interessado em chegar bem a seu termo. Naquele espaço fechado, cada pessoa carrega mundos e realidades diferentes. Não há dois seres iguais, porque além do que herdamos dos nossos antepassados e de um fundo comum a todos os seres da mesma espécie, há a educação e as nossas aquisições que fazemos com a nossa liberdade. È claro que o ambiente em que crescemos tem muita influência. É uma segunda natureza, mas no final do balanço, é bom chegar à conclusão que valeu a pena ter vivido. ‘Valeu a pena ter amado quem amei, Ter sonhado o que sonhei Ter sofrido o que sofri…diz assim a fadista.
Até se diz que não tem medo da morte quem sempre viveu bem a sua vida! Para terminar esta reflexão, enquanto fica em fundo a história interessante que nos tocou nesta viagem, ainda acrescentamos: viajar é afinal uma forma de evasão privilegiada. Espaço de descoberta e encontro connosco mesmos, com os outros e com a
paisagem…



Lucinda Ferreira















oa s

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pintura Mediúnica


Não sabia nada disto.

Há tempos , uma colega convidou-me e eu vi .Até fiz fotos ,, de um bonito jovem , que dedica a sua vida a ajudar crianças pobres num centro de acolhimento que ele construiu.


Durante duas horas, com os olhos fechados, ele pintou 22 quadros, cópias exactas de pintores célebres, ja falecidos!...

Todos os quadros eram cópias exímias de obras famosas

Van Gogh, PIcasso, Rembrant, Monet, Manet e outros diversos.

Uma maravilha!


Fiquei a pensar e cheis de curiosidade para além do que vi ali.

Fui à net e lá descobri , mais uma senhora que vinda do Sertão brasileiro, ignorante e pura , emergiu para pintar as coisas mais belas que podeis imaginar, sempre guiada pelo Espírito ,pois ela nunca tinha praticado , nem aprendido tal arte!

Pintava com as mãos . Com a boca. Com os pés!

Ela mesmo se espantava com tanta Beleza , assim como este jovem , quando abria os olhos do transe em que mergulhara, para pintar seus quadros que depois serviriam para dar pão a tanto faminto. Tudo coisas fantásticas, confesso.


Bom, mas ele partiu para a sua Terra, levando o pão para os seus famintos irmãos que tanto amava.Vimos tudo em filme.


Ontem, tive oportunidade de conhecer uma jovem senhora, que também entre nós, esta com os olhos abertos, pinta cópias do outro mundo, espiritual, etéreo e simbólico...

Duma beleza e duma profundidade comovente, que seria dificil arrancar de um ser humano, se não fosse a ajuda do Alto!

A senhora tão simples , doce e determinada, na sua jornada de mudança do mundo, nem tinha grande instrução terrena, reparei.


Deus dá a sua graça a quem se abre..e se entrga a Ele com cob nfiança..
Ele manifesta-se na medida da nossa abertura.

È a pureza que talvez sirva de canal a tanta beleza , que me deslumbrou também!


Ela pinta a energia de cada um de nós... e é importante , porque alargando o nosso auto-conhecimento, nos dá pistas para trabalharmos a nossa evolução.

Fiquei verdadeirmente deslumbrada .

Se alguém quiser saber mais , pode perguntar , porque eu dou toda as pistas.

Mas de facto , podemos concluir que o Homem não morre quando o corpo desaparece!

E também que os espíritos podem-se comunicar connosco em beleza e sobretudo em energoia.

É preciso estar atento a estas realidades, que não são patranhas!


Não nos deixarmos arrastar somente pela materialidade e pelas precoupaçõs puras e simples num redomoinho consumidor e sem sentido!


Ilusões passageiras, necessárias para a nossa evolução, pois temos que fazer esta experiência da dualidade na matéria, MAS com a consciência espiritual viva e atenta , servindo-nos de todas as dificuldades para crescer e evoluir cada minuta das nossas vidas , da nossa existÊncia precária que nos é dada por amor.

Sejamos ainda gratos, acima de tudo.

So nos ganhamos com isso em alegria . Serenidade e certezas!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Posse do novo Governo


Ouço com atenção o que se passa no meu País.

Fala-se da posse dos novos políticos .Fala-se de gripe , de vacinas , de medos e de disccordâncias sobre aplicaçao da vacina.


Pareceu-me que o Senhor Presidente da República se aplicou para dizer com sinceridade o que sente e pensa.

Que se esforça e empenha para dar o seu melhor de acordo com a sua personalidade sólida , estruturada e coerente.

Depois ouço o Senhor Primeiro Ministro, descontraido, fala de flexibilidade e modernidade. Parece-me empenhado, dentro daquilo que é como pessoa, do que é a sua personalidade.

Falou muito em energias...energias de toda a espécie.

Oxalá corra tudo bem e o melhor possível par TODOS: Políticos e cidadãos !

Tudo foi bem lindo o que se escutou.
Que todos os Portugueses compreendam também, a sua responsabilidae e que não estejam sempre à espera do Governo . Cada um tem que fazer a sua parte, naturalmente.

O gesto de cada um de nós tem a sua ressonância.


Sobre a gripe...

Parece-me que há muito alarmismo. Qualquer pessoa fragilizada, fica em perigo por uma infecção gripal.

Na verdade, a vacina , um virus vivo, é sempre um risco. Lembro-me de um engenheiro de 34 anos, que morreu pela vacina que lhe foi ministrada. Isto já há muitos anos...

Portanto, ja recebi várias mensagens especificando os efeitos secundários desta vacina.

Também se percebe que é um grande negócio, tudo isto. Mas acho que cada pessoa deve decidir.

EU NAO VOU TOMAR!

E pergunto-me se se está fragilizado, se a vacina não será também perigosa.

domingo, 25 de outubro de 2009

Mar Alto


Vivi 8 meses no mar Caraíbe, mar que rodeava a Guiana Francesa e Amazónia, fazendo conferências para Belgas e Franceses, num Barco Grego , ao serviço da França.

Confesso que foi uma experiência enriquecedora,mas de uma grande solidão e dureza.

Aí , houve necessidade de apelar às minhas forças mais profundas , para me ver por dentro e por fora , só, no meio de tanta gente...Natal e Ano Novo foi o mais duro!

Escrevi um pequeno texto, intitulado MAR ALTO que hoje partilho convosco.

MAR ALTO


Depois de algumas peripécias, atravessava a passerelle.

Entrava, por entre luzes e bandeirinhas de todos os países do mundo, ao serviço da França, no grande Barco Grego, a casa flutuante do sonho.

Seriam oito meses entre o céu e o mar.
Tudo aquilo era um mundo novo e particular. Especial.
Gentes de trinta e oito países faziam aquela temporada no Mar Caraibe, e nas águas que banham a Guiana Francesa e a Amazónia.
Acolhiam-se turistas de língua francesa: franceses e belgas, sobretudo.
Ao domingo à tarde, invadiam-nos a “CASA”, entrando em magotes curiosos e exigentes, os companheiros de viagem, durante oito dias.

Fascinados, curiosos, sonhadores, ávidos de aventura e novidades, começavam logo pela Martinica, ilha das Flores, que os acolhia com um colorido exótico bem diferente de tudo o que deixavam para trás, na Europa fria.

Seria para eles uma pausa morna nesta América Central, já que os cruzeiros se realizam de Novembro a Maio.

Depois são os tornados e as tempestades, naquela zona.
Alinhado, sorridente, amável, todo o staff se desfazia em gentilezas para acolher mais um novo grupo.

O Barco, repleto de Alpinias púrpuras, de Rosas Porcelana, Estrelícias e tantas outras flores locais, davam as boas vindas num tom festivo, logo à entrada.
Os cubanos, todos artistas de craveira, numa grande expectativa, com histórias terríveis de miséria, iam até ao limite de todas as exigências dos passageiros que habitualmente os procuravam…lá sabendo todos eles…os motivos (…) que nós atentos até adivinhávamos.
Os visitantes da semana anterior, partiam saudosos ao sábado à tarde, por entre o corredor branco do staff em cordão , balouçando ao som do “Beguine” e da steel Band.

Alguns turistas, já com a categoria de amigos, partiam… olhos brilhantes e um pouco do nosso coração escondido dentro deles.

A amizade verdadeira é eterna.

Nunca sabemos quando começa, mas sabemos que não termina nunca. Ali era apenas o encontro!
Nós ficávamos, cada um nos seus postos, sempre mais sós.

Aprendia-se que a VIDA É FEITA DE CHEGADAS E PARTIDAS!

A sensação de efemeridade … do valor secreto do acaso ou não acaso (…)

Há quem diga, que o acaso é quando Deus não quer assinar. Não existe acaso.
A maior parte das vezes, quando atracávamos, corríamos todos para a cabine telefónica, com uma fila interminável.

Ouviam-se falar todas as línguas…Aí se reconfortava a alma ao ouvir a voz de um filho amado ou outro familiar, tão perto e tão longe, separados por um oceano!
Solidão acompanhada é dupla solidão.

Mas também parece que só sente solidão quem não gosta de si mesmo…

A noite vestida de toilettes diversas, cheia de cor e movimento, numa agitação esperada ou consentida, contagiava o tédio de alguns passageiros que se soltavam em movimentos desengonçados uns, outros cheios de glamour…
Na festa de máscaras, a imaginação premiada era um espectáculo sempre novo.
No Grand Sallon apinhado de trajes de gala, as bailarinas frágeis, atrevidas nos reduzidos fatos cheios de cor e brilho, alternavam com os ilusionistas, contorcionistas, músicos e outros artistas que animavam as noites, no Barco.
No final, o Baile rematava sempre a noite. Alguns passageiros escorregadios…esquivavam-se pelo navio, em cantos e recantos …ou para ver o mar alto onde a lua se banha e desnuda, traçando uma estrada de luz… ou então, para contar e escutar segredos…Havia quem optasse pela bebida ou pelo jogo ou simplesmente…desaparecesse acompanhado para a cabine…
A chegada a uma nova ilha, era acolhida com curiosidade e sofreguidão.

Eram as excursões. As novidades. Os negócios. As prendas. A Música .Os grupos locais cheios de cor, movimento e alegria que saudavam os turistas, a possibilidade de mergulhar e descer ao fundo do mar e apreciando o maravilhoso dos corais…

Desportos náuticos naquele espaço eram muito vulgares.
Conversar com os habitantes, ir Igreja e conhecer a sua fé, negócios, peculiaridades, monumentos, vegetação, natureza… ficar sentada na Praça…observar…sentir o bulício, o movimento a cor, as formas, os cheiros, ou mesmo os sabores eram atractivos diferentes num espaço novo.

Possibilidades infinitas que se oferecem ao visitante.
A noite em terra mal chegamos, surpreende pelos ruídos doces e insistentes, misturados com o rolar das ondas que lambem os pés dos hotéis mesmo ali à beirinha da água morna.
Logo de manhã, despertar pelo sol que se levanta de repente às seis horas, olhar a árvore ali ao lado e ver de “serviço”, vigilante, uma grande iguana muito verde, espreitando todos os nossos movimentos.
Outras surpresas esperam o visitante. Por exemplo, penetrar nos Jardins de Balata, nas Grutas de Barbade, banhar-se na fonte da longevidade (…) ou apenas observar as grandes barbas que pendem das árvores, o que levou os Portugueses a baptizar e chamar Barbades, àquela Ilha. Em seguida, voltava-se ao barco.
Ambiente encantatório prendia com estranha sedução, quem chegava de novo.
As novidades sucediam-se, quer em terra, nas diferentes visitas, em que não faltavam as odorosas bebidas, misturadas com rum, fazendo esquecer desgostos, preocupações e ver a vida toda rosa.. Quer as viagens em “Catamarran” ou no Bateau Pirate ou , à noite no Navio, a casa do Sonho eram um buraco na realidade dura de cada um .
Às terças feiras, era a ceia odorosa e cheia de frutos dispostos com uma originalidade invulgar, tal como as incríveis esculturas em gelo feitas por um artista tailandês, nosso companheiro de viagem .
Depois acontecia o esperado e habitual jantar de Gala, em que o Comandante honrava, pela sua escolha e distinto convite, alguns passageiros para jantar nessa noite, à sua mesa!
Havia um dia escolhido para os disfarces e as brincadeiras “carnavalescas”. Eram muito animados e de uma grande originalidade esses serões cheios de mistério, imaginação e concursos.
A piscina de águas límpidas, salgadas e mornas, abria-se disponível, de par em par para quem optasse por se bronzear e relaxar, entre o mar e o céu cálido da América Central. Sobretudo consolavam-se aqueles de corpos muito brancos estendidos nas longue-chaises azuis...azuis. Ávidos de sol, deixaram à espera uma Europa invernosa vestida de branco pela neve fria…fria. Por ventos agressivos e c até inundações.
Vinham depois também, os dias de navegação no mar alto. O mar Caraibe, interior, um lago sereno e morno, em que não havia agitação… a não ser na alma de algum passageiro mais sensível ou apaixonado…
No Oceano Atlântico, estes dias eram agitados demais. O médico de bordo não tinha mãos a medir…já estava habituado. Para nós, era tudo rotina, até os vómitos. A Biblioteca enchia nessas alturas. A educadora de Infância ficava soterrada sob tanto menino que viajava gratuitamente.
Aconteciam sempre muitas aventuras no Barco durante a noite. Havia quem preferisse o sossego da cabine. Lia-se e descansava-se tranquilamente.
Sabia-se que Sophie, uma bailarina francesa, a mais linda de todas elas, se fixara num cubano atarracado , ciumento e belicoso e que lhe batia todas as noites. De manhã Sophie tinha mesmo negras pelo corpo…Inventavam-se parentescos no Barco e Sophie era a minha filha. Desabafava e conversava muito comigo. Nunca consegui que terminasse esse amor sádico e infeliz. Às vezes, nas ilhas mais pobres, íamos as duas levar comida aos que no cais ,esperavam a passagem dos grandes Barcos de turistas para daí usufruírem alguma coisa...
Os taxistas, classe privilegiada nas ilhas, esperam as senhoras canadianas e americanas, a quem prestam toda a espécie de assistência que elas muito bem pagam.
Entretanto no Barco, os Gregos muito animados, simpáticos e alegres, fazem as suas festas nocturnas na cabine do segundo Comandante grego.Comem .Bebem…Bebem bem…depois, quais Zorbas bem protegidos por Baco, dançam sobre as mesas. No final, partem tudo! Faz parte da festa este ritual.
No porão, alguns asiáticos, difíceis de esquecer pelo seu sacrifício, nunca vêem o sol durante três meses. São os mais mal pagos, desprezados e esmagados por tanto sacrifício.
Por entre um cheiro intenso a petróleo, barulho forte, permanente, num ambiente mal iluminado, entre canos, fios, uma grande confusão, vêem-se enfarruscados, silenciosos, isolados, sem nunca falarem com ninguém, sem verem o sol, nem respirarem ar puro, sempre naquele exíguo espaço, dias e noites, durante três meses… para todos os outros se poderem divertir… São os novos escra- vos das galés da nova civilização!
Os camaroteiros, esses sabem todos os segredos do barco. Aos montinhos, nos sítios mais escondidos, põem as novidades todas em dia...quem dormiu com quem… era a novidade de cada dia. È a sua distracção preferida: falar de tudo e de todos…Contudo, gentis, prestáveis esperam sempre o envelopezinho do passageiro que termina a viagem.
No comando, jovens oficiais tecem os seus comentários ao mundo feminino que desfila, quer o que vem de fora, quer quem está dentro.
Viver num Barco implica, para a maioria que lida mal com a solidão, perfilhar três vidas: a do antes, a do durante e a de depois.
Era por isso que quando se atravessava a passerelle pela primeira vez, os homens observavam a população feminina para acautelar o melhor possível a “vida”e ficar bem servido durante aqueles oito meses, com a sua nova companheira de viagem . Os oficiais eram os que tinham mais vantagens e assim eram os primeiros a escolher. Punham os olhos logo nas mais jovens e mais bonitas. Normalmente eram as bailarinas as escolhidas. Elas também não se importavam, porque optavam pelo poder e pelos privilégios para si e familiares que as iam visitando. O Comandante prestava-se ainda ao papelão de cumprimentar os turistas enquanto o fotógrafo, ganhando a vida enquanto viajava connosco, fixava esse momento de “triunfo” efémero que o passageiro exibiria mais tarde para si próprio e amigos no álbum de recordações.
Bem, eu… fazia conferências neste Barco…falava dos Livros, Fauna, Flora. Etnologia, História, Arte e muitos outros assuntos.
..quantas mais coisas poderia contar, não cabem neste limite de páginas …isto será apenas a introdução do livro que escreverei dentro de tempos.



sábado, 24 de outubro de 2009

Poema para minha Mãe


Quando eu nasci


O céu abriu em flor …
Vestiu de perfumes
O coração de uma mulher …
Sorri.
O sol brilhou no seu olhar!
Nos meus passos vacilantes
Semeou dia após dia
Carinho e vigor
Canções virginais
…poemas d’ amor...

Sonhou para mim estrelas
Poentes de fogo…
Auroras cristalinas.
Mar imenso!
Princesa…
Deu-me luz e saber
Mãe, bem hajas!
Ainda hoje
Passo esta chama
Aprendo a viver!

Brilhou uma estrela

Brilhou uma estrela

Conta a lenda, que muito antes do povoamento da ilha da Madeira, em 1425, Nossa Senhora atravessou numa noite de grande escuridão, o espaço onde mais tarde seria a freguesia de Santa Maria Maior.

Ao passar deixou um rasto de luz tal, que este facto serviu de demarcação àquela freguesia.

A partir daí, as estrelinhas no céu, como pérolas brilhantes, passaram a exercer um papel muito importante na vida das pessoas.

Eram tidas como bússolas das suas caminhadas.

Guia de todos os seus passos.

Cintilavam luzeiros, enchendo de fulgor e certezas os habitantes da freguesia.

De boca em boca passou a lenda.

Todos os habitantes eram conhecedores da velha história passagem de Nossa Senhora pelas suas terras.

Ainda hoje, se avista de longe um grande clarão, iluminando todo o firmamento que cobre o espaço de Santa Maria Maior.

Cedo por isso, muitos artesãos aí se fixaram e se entregaram a tarefas diversas, atraídos pela claridade que lhes permitia trabalhar até tarde, e madrugar com a Estrela da Manhã que sempre os acompanhava.

Quem escolhe a luz, não é indiferente a este recanto da ilha benfazeja, onde as flores crescem, balouçando na brisa suave, perfumando o ar.

A cada criança que nasce aqui, é atribuída uma estrelinha….

Qual delas a mais brilhante!

As mães e as avós, ao embalarem os seus meninos, vão cantando baixinho…

Dorme, dorme, meu menino

Tua estrelinha já vem…

Vai abrir os teus caminhos,

Segredos que o mundo tem.

Mal se apercebem desta realidade tão extraordinária, todos os meninos perguntam:

- Mãe, qual é a minha estrelinha?

As mães nas noites mais escuras, em que mais brilham os luzeiros de céu, vêm assinalando para toda a vida, a estrela do seu menino, para quem desejam a melhor sorte.

Referem sempre em primeiro lugar, a passagem de Nossa Senhora.

- Sabes, meu filho, um dia Nossa Senhora andou por aqui por Santa Maria Maior. Deixou um rasto de luz tão belo, tão brilhante, que agora cada pessoa que aqui é gerada, nascida, escolhe a estrela da sua vida, guia seguro até à eternidade.

- O Mamã, que bom! Nossa Senhora foi muito nossa amiga.

Eu quero ser cientista. Fazer um foguetão para ir a casa de Nossa Senhora agradecer-lhe. Ver as estrelas por dentro. Brincar com elas.

-Podes ser e fazer tudo o que quiseres, meu amor. Só tens que acreditar. Trabalhar. Nunca desanimar. Sempre que puderes, passar a tua luz aos outros. Dar-lhes coragem. Força.

Assim ficarás cada vez mais protegido.

A luz maior reinará assim no mundo inteiro para toda a gente!

Na casa ao lado, nascia mais uma linda madeirense.

A mãe não se descuidava. Referia o acontecimento extraordinário. Enquanto isso não era possível, ia cantando baixinho. Embalava-a. Preparava a sua alma para o sucesso. Impregnava lenta e suavemente todo o seu ser de vitórias.

...as grandes árvores crescem devagarinho.

Dorme, dorme, meu amor

Desce o sol já vem a lua

Teu destino é de luz

A vitória já é tua.

E as meninas e os meninos de Santa Maria Maior adormecem...crescem com esta certeza no seu coração. Muitas delas têm uma sede grande de conhecer mundo. De serem importantes construtores. Intervenientes no espaço que os rodeia, seja lá onde for. Mesmo nos confins do planeta!

O sucesso vai tomando formas diversas, em terras muito longínquas, por vezes. Os anos trazem sempre surpresas.

Canadá, África do Sul, U.S.A. e outros destinos tem vindo a acolher todos os dias, mais um madeirense em cuja alma brilha uma estrela cintilante.

De início, a adaptação nem sempre será fácil. A dureza da vida obriga a sonhar com a ilha acolhedora, coberta de flores, de ameno clima e odores familiares, onde as raízes são um apelo constante.

1.Vale o brilho da estrelinha pessoal cheia de promessas e segredos no mais fundo do ser de cada um…

- Não podes desanimar. Quando se fecha uma porta, abre-se sempre uma janela…

Os vencedores são sempre pessoas de fé. A perseverança e o caminho do meio – da verdade e da justiça – compensar-te-ão. Só não podes duvidar!

Se não fores tu hoje um grande homem e uma grande mulher, serão amanhã os teus filhos e netos. Confia!

Às vezes, mesmo conhecendo a lenda de Nossa Senhora, as gentes de Santa Maria Maior também desanimam por momentos, para logo repetirem para si mesmos:

Brilham estrelas no céu

Por que não brilho eu assim?

Se Santa Maria Maior quis

Tanto brilho só p’ra mim?!

E… tudo muda, como por magia … por milagre!

É este fogo que tem vindo a ser passado de geração em geração.

Ainda hoje no mar, ao acercar-se da ilha da Madeira, um brilho intenso como um cordãozinho de pérolas, indica ao visitante a singularidade da freguesia de Santa Maria Maior.

Abril… Primavera…

O odor e a beleza das flores… Festa da Flor, atraindo e seduzindo os amantes do belo! Quem sabe Nossa Senhora não terá sido embalada ela também, por este espectáculo singular, feito cor e perfume das flores que crescem selvagens, neste pedaço de terra abençoada? ...

O actual Muro da Esperança, onde Crianças colocam flores, confiantes e construtoras de um mundo melhor, não serão o testemunho vivo da lenda de Nossa Senhora Maior, escrita nos corações mais puros e feita realidade nos nossos dias? ...

Por estas e outras razões (…) …

…Quem está atento, ainda hoje ouve ao passar pela freguesia de Santa Maria Maior, um coro de Anjos deixando um cântico muito suave no ar:

…Estrelinha florida,

Quem te fez assim tão bela?

- Nossa Senhora ao passar

Quis distinguir este Povo

Por nunca se esquecer dela!

Lindamar

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A velha cabra da Universidade de Coimbra


Para quem não sabe, a cabra , é o relógio da Torre da Universidade de Coimbra, com 700 anos de idade!
Ontem, de manhã, a cabra tocou com um som triste e dolente. Anunciava a morte de alguém ligado à universidade.

Tive a sensação do quanto a Universidade tem sido importante para esta cidade , cujas emoções são muitas vezes anunciadas pelo som de uma cabra velha, saudosa, alegre ,mas sempre atenta.
Coimbra de facto, é mesmo uma cidade particular

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rosas para o meu amor ... ensaio







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ROSAS PARA O MEU AMOR
Clara Zinger sempre rodeada de papéis, mexia mais uma vez no seu arquivo de há
cinquenta anos. Conservava cadernos com as suas primeiras letras, os textos que escreveu e
foram distinguidos pela professora e outras preciosidades importantes para ela. Procurava
no meio disso tudo, uma fotografia da mãe que adorava. Queria pintar o seu retrato a
carvão. Não é que as suas feições, o jeito de pegar na sua mão quando era criança, o seu
perfume, estivessem esquecidos. Para fazer um retrato fidedigno, era necessário conseguir
uma fotografia de que se recordava especialmente.
Às vezes, por querer guardar tão bem as coisas, acabava por esquecer onde as colocava.
Acontecia isso agora... Contudo era necessário insistir. Pintar aquele retrato era uma
ocasião para sonhar. Olhar a mãe em outras fotos tão diversas, evocando diferentes épocas
da sua vida, ajudava -a a reconstruir momentos importantes de certezas afectivas. Chegava
mesmo a sonhar com a mãe quando estava mais r triste e recuparava toda a sua alegria!
Foi directa ao baúzinho de cânfora. Logo ao cimo, estava um “Um ramo de rosas de Rosas”
vermelhas.
Havia um papelinho junto: “Rosas para o meu amor”, lia-se num cartaozinho
amarelecido~. 18 rosas vermelhas oferecidas por Carlos, no dia em que completei dezoito
anos”.
Ser possível o recordar na vida de todos nós, levou Clara a rever todo aquele tempo de
sedução e sonhos mágicos.
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Clara nascera na Alemanha.Filha de um casal apaixonado pela difusão da Língua e
Cultura Portuguesa e pela Cultura Alemã, Clara de nada se lembra já que os pais, após o
nascimento da filha tão desejada, tiveram de regressar a Portugal.
Pode ser muito interessante e com condições fabulosas o país de acolhimento de um
emigrante luso, mas o coração está sempre na Terra Portuguesa. Sempre que o regresso
deixa ver alguma esperança no fundo do túnel, aí volta o Português ao seu buraquinho.
Constrói a sua casa . Monta uma vida mais desafogada do que antes da partida para longes
e desconhecidas terras e gentes...
Clara crescera então até à ida para o colégio com onze anos, numa aldeia de Trás-os-
Montes, em contacto com os avós maternos, bem integrados na comunidade rural.
Recorda como com cinco anos, dormiu com os tamancos que a avó lhe comprara na Feira
dos Santos. Eram mesmo iguaizinhos aos das pessoas crescidas. Tal como todas as crianças,
era vê-la com os tamancos da mãe, a saírem-lhe dos pézitos e a fazê-la cair de vez em
quando.
Naquela noite, os tamancos foram o objecto do seu amor; como o seriam mais tarde os
papéis, os livros sobretudo, porque pedrinhas e até as flores oferecidas por alguém que
estimasse, especialmente em datas marcantes com um significado particular, nada punha
fora. Clara lutava contra isso. Todos somos diferentes. Há pessoas desprendidas que nada
valorizam e que nada conservam. Outros guardam todas as recordações com ternura pelos
sentimentos que estas ajudam a reviver , no mais secreto do coração...Isso fá-las mais
atentas à vida. Saboreiam do passado-presente o que é belo. Repete-se o mesmo Aquelas
rosas evocavam com simplicidade, sonhos, entusiasmo e até a promessa de felicidade.
Carlos servia a Força Aérea. Era mais velho do que Clara.
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Tinha os olhos tão azuis como um pedaço de céu em dias límpidos. Tudo em harmonia com
a sua bonita farda a que os sonhos das jovens não eram indiferentes…As meninas da
aldeia desejavam a atenção daquele que ao passar na rua, lhes fazia pulsar mais forte o
coração de olhar brilhante ao assomarem janela. Carlos passava indiferente, sem sequer se
aperceber que desencadeava sentimentos tão fortes, fervendo em peitos imaculados e
redondinhos.
Havia uma miudita de dez anos, Júlia, que morava também na aldeia. Essa tinha muita
sorte. Parecia ter uma fixação no rapaz muito mais velho do que ela. Dizia que era a
namorada de Carlos. Ele achava-lhe graça. Cobria-a de atenções e até lhe pegava pela mão
levando-a a passear.Nessa altura, ninguém falava de “Pedofilia’.Seria um crime macular
aquele relacionamento. Júlia era a bem amada.
Um dia, Carlos desenhou um coração numa árvore da Praça Nova. No jardim onde se
juntavam os mais jovens, nas tardes de domingo .Apareciam dois nomes: Carlos e Clara.
Teve o efeito de uma bomba, aquele gesto simples.
Uma desilusão para as raparigas que se viam, já de mão dada com Carlos, umas; outras, a
subir os degraus do altar.
Carlos pôs os olhos em Clara Zinger. Ela não rejeitou a escolha. A emoção no peito de uma
jovem de dezoito anos, foi muito forte. O namoro, o noivado decorreram ao compasso do
tempo que se ia escoando por entre os dedos, na vida de dois seres embalados pelo
encantamento de todas as fases do enamoramento e da paixão.
………………………………………………………………………………………………..
Clara tem agora 65 anos.
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Anos 60 e 70, de um romantismo respeitador em que se morria de amor e por amor, os
namoros, as relações, as vivências naquela aldeia de Trás-os-Montes eram levados muito a
sério.
A Televisão, as migrações, as facilidades de comunicação, a internet e outros meios
evoluindo rapidamente, mudaram a face dos relacionamentos. Não serão melhores ou
piores.Terão uma expressão diferente. Os costumes dos portugueses, nesta ponta da
Europa tendo o mar como barreira, há anos atrás, eram conservadores, comedidos, com
algum bom gosto para alguns, revestidos de respeito por tudo e por todos. Existiriam
limitações, mas sabia-se com o que se contava. Tinha uma certa especificidade a alma lusa
que hoje se vai esbatendo, na era da globalização. Prezava-se a palavra dada, a honra,
respeitavam-se os idosos, as relações de vizinhança e a solidariedade eram uma realidade.
Havia em Portugal menos misturas de raças. No mundo rural todas as pessoas se
conheciam. Parentes quase todas elas, ajudavam-se nas tarefas do campo e até nas
actividades comunitárias, hoje apontadas apenas como referência históricas do
antigamente.
Clara ficava à janela à espera de ver passar Carlos.
Carlos olhava-a com ternura e respeito. O amor despontava lento. Arrumado. Sereno.
Tal como as grandes árvores que crescem lentamente, aquele amor ia-se edificando aos
poucos. As famílias também se namoravam. O amor era forte e seguro para toda a vida. Os
laços iam-se soldando no dia a dia. Suportavam-se as dificuldades com generosidade e
dedicação. No final até dava certo, entre gente simples e de bons costumes. Nos anos 60, de
um modo geral, os homens e as mulheres que faziam as suas opções afectivas era para toda
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a vida. Defenderão alguns, hoje em dia, que há menos cinismo e hipocrisia. Há também
mais solidão. A solidão é a irmã gémea da liberdade.
Mas se fôssemos dar uma espreitadela ao desenrolar das vidas dos nossos amigos Clara e
Carlos?
Clara, com sangue alemão de seu tetravô, era uma jovem sensata, sensível e dedicada ao
estudo. Levava o amor a sério. Aprendera a confiança na família e no colégio. Dezoito
anos já lhe concediam uns certos privilégios. Para namorar, cheia de recomendações dos
pais e dos avós, foi o mais difícil. A família receava que Clarinha se distraísse nos estudos,
com o namoro. Carlos era muito considerado. Como não estava sempre por ali, já que
cumpria a vida militar, até dava umas certas garantias em termos de intimidade a vigiar e
a dificultar. Mas no dia de anos, Carlos pôde entrar em casa da Clarinha.
Também ficava nervoso ao ver Clara linda, fresca e apetitosa. Na tropa, os rapazes têm as
suas liberdades… A vida desnuda-se e abre-lhes os olhos. Há experiências várias...mas com
Clarinha, Carlos era comedido.
Carlos esperou que todos saíssem da sala, puxou Clara para si e... beijou-a nos lábios!
- Carlos, por favor tem maneiras. Se os meus pais vêem, não te deixam cá entrar
mais.
- Ninguém viu, querida. Deixa-me abraçar-te só uma vez e dar-te mais um beijo.
Clara só de tocar na mão de Carlos, sentiu um choque de uma voltagem tão alta que ainda
hoje ao falar nisso, se altera um pouco . Sente um rubor disfarçado que não deixa de a
agitar.
Os netos acham graça. Pedem à Vóvó para contar a sua história. Ela inventa. Mistura de
verdades e experiências diversas. Os miúdos adoram.
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Foi nesse dia memorável do primeiro beijo, que Carlos escondendo 18 rosas vermelhas
debaixo do sobretudo, surpreendeu Clara e a encheu de alegria.
- Fecha os olhos, Clarinha! Conta até dezoito! Vá lá ... 1 ... 2 ... 3…
Enquanto ela fechava os olhos, Carlos aproveitava para lhe dar mais um beijito inocente e
carinhoso na face. Clara não cabia em si de felicidade. Ao chegar a dezoito...procurou a sua
boca e muito suavemente… tapou-a com um beijo quente, doce, inesquecível!
Depois desse dia, o namoro oficializou-se. As outras raparigas invejavam a sorte de Clara.
Carlos era cobiçado por várias... mas Clara foi a eleita. Carlos empenhara a sua palavra
com Clara, com os Pais, com a Família. Queria casar, constituir a sua família. O
testemunho tem uma força tremenda. Vale por mil palavras! Carlos pertencia a uma
família respeitável , muito conhecida, com várias gerações sempre certinhas.
Depois de 2 anos de namoro, veio o dia feliz de um casamento por amor.
A vida decorria com normalidade. Um casal que avança ligado pela descoberta e pela
beleza de uma união em que os ideais semelhantes ajudam a ultrapassar as diferençlas e as
dúvidas. Mas, num dia de Inverno, ventoso e triste dentro e fora daqueles dois jovens
apaixonados, Carlos foi obrigado a partir para a guerra colonial.
Na altura, era um buraco negro, engolindo filhos, pais. Irmãos, noivos e maridos! Um
susto, um pesadelo, um monstro de mil cabeças, aquela guerra. Ninguém percebia a razão
por que havia de morrer a nossa juventude num local longínquo, empurrados por uma
política severa, numa economia que deixava tanta gente mergulhada no medo, na dor e na
miséria.
Era assim Portugal: O susto da Polícia Interna do Departamento de Estado (PIDE) ;A
guerra arrancando e torturando filhos, pais, maridos e noivos. Alguns nunca mais
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voltavam! Muitos mesmo! Clara estremecia pelo seu Carlos. Ouvir nomes de soldados
mortos na guerra, era um sufoco. Mesmo que não fossem conhecidos, deixava uma
angústia, uma revolta e uma raiva em quem escutava listas intermináveis de mortos que se
escoavam em sangue lá lonmge…. Vidas ceifadas na flor da idade, todos os dias! Durante
anos!
Além de tudo, Clarinha já não ficara só. Dentro dela, Carlos deixara uma sementinha que
crescia para se tornar mais tarde, uma linda flor!
Carlos comunicava regularmente com a família. Um ligeiro atraso era sufocante a dobrar.
A a nascer no silêncio mais fundo da mulher amante e esposa. O pesadelo do cansaço ia-se
avolumando com o passar dos dias. Um dia, Clara recebeu um telegrama.
O coração estremeceu-lhe. Sem força para o abrir, foi a correr a casa do melhor amigo de
Carlos, Diamantino, para que ele o lesse. Ela não conseguiu!
Diamantino desdobrou lentamente aquele pequeno papel, sentença e carrasco, Empalidecia
Os seus lábios tremiam. Quase sem voz… As lágrimas teimosas saltaram-lhe dos olhos
como uma fonte incontida, antes de pronunciar uma palavra.
- Clarinha, tens que ter muita paciência . Ser muito forte. Teu marido é dado como
desaparecido numa operação. O avião em que seguia caiu no mar. Nada se sabe do pessoal
que ia a bordo. Há já dias que fazem buscas infrutíferas. Tens-nos a todos nós. Tens que ter
coragem, Clarinha. Tens uma filha para criar. Ela precisa de uma mãe serena. A vida tem
que continuar.
Clara não tinha mais lágrimas para chorar. Num sufoco que tentava esconder da sua filha,
Teresinha, a quem sempre dizia: “O Papá está quase a voltar .Vai brincar muito com a
menina”. Que havia agora de dizer, quando ela perguntasse pelo papá? Diamantino
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emocionado junto de Clara, dava-lhe palavras de conforto e de segurança,. Tentava
incutir-lhe determinação . Coragem.
Estava certo que o seu amigo Carlos faria o mesmo , em situação inversa. Depois, mudou o
discurso e ainda adiantou: - ‘Clara, quem sabe ele ainda vai aparecer? Há casos assim.
Desapareceu. Ninguém o viu morto em combate como a maioria dos militares, que depois
inteir ‘os ou não, vêm em caixões para a nossa terra’.
Tentava imprimir força às suas palavras sem grande convicção. A dor era comum a todos
os que tanto amavam Carlos. Diamantino, um médico ‘João Semana’ lá da zona, era um
homem bom.Honrado e sobretudo de grande dedicação a toda a família de Carlos , a quem
queria como a um irmão. Unidos pela mesma tristeza
tentavam vencer a saudade. Ajudavam-se
mutuamente.
Aquela ideia de que Carlos podia estar vivo não dava
sossego a Clara que amava de verdade o seu marido.
Não conformada com aquela perda, movia céus e terra
para saber novidades. A resposta era sempre a
mesma.:-Nada conseguimos apurar relativamente ao
Major Carlos Vasconcelos, desaparecido em missão,
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quando prestava serviço.’ Era a resposta habitual das
Forças Armadas.
Deprimida, era Diamantino, o amigo e o médico, que
lhe punha a mão. Escutava os seus desabafos. Passava
muitas vezes lá por casa para ver a Teresinha a quem
também já se afeiçoara como a uma filha. O tempo
decorria sem qualquer novidade sobre Carlos.
A proximidade entre Clara e Diamantino lentamente,
ia tomando contornos diferentes…
Um dia, ele olhou-a como mulher bonita, como o era
Clara. Diamantino passara a vida a cuidar dos outros,
nem dando pelo passar dos anos. Vivia com a mãe e
uma velha, a empregada que o criara. Nenhuma
mulher entrara no seu coração, a ponto de o levar ao
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casamento. Agora, Clara estava a tirar-lhe o sono. Não
lhe saía do pensamento mal acabava de fazer qualquer
coisa. Já se via lado a lado com ela. Sabiam-lhe bem os
miminhos que ela sabia preparar para ele. Depois era
uma companheira delicada. Inteligente. Com quem se
podia falar de qualquer assunto. Era culta e sensível.
Agora até o seu perfume o seduzia. O fazia sentir
qualquer coisa de diferente, como nunca se tinha
apercebido antes. Talvez na adolescência isso lhe
tivesse acontecido. Nunca chegara a tomar forma.
Esbatera-se.
Clara apercebera-se de tudo. Pensava no seu Carlos,
mas…não sabia muito bem o que fazer…Se ele já não
pertencia ao mundo dos vivos? Nunca deixaria de o
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amar em silêncio ou aquele outro amor faria o milagre
de a ajudar a esquecê-lo? Dividida, em conflito entre
aqueles dois amores, olhava Teresinha com uma
ternura imensa e…cansada, deixava correr. O tempo
ia passando. A família começou a aperceber-se. Até a
ver com bons olhos aquele segundo enlace, embora a
recordação de Carlos nunca se apagasse
completamente. Afinal não era Diamantino o melhor
amigo de Carlos? A vida não pára. O tempo cura
todas as mágoas.
As coisas foram tomando outra feição. Um dia de
Primavera deixando um perfume doce no ar, e as
flores a explodirem em cor, Clara, viúva, subia de
novo os degraus do altar para desposar Diamantino.
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Discretamente Clara entregou Clarinha aos avós.
Partiu em segunda núpcias para o Brasil, gozando a
sua lua de mel. Era fácil a relação carinhosa, segura e
com muito companheirismo.
Pouco tempo passado, nascia o fruto daquele amor.
Um rapazito tão parecido com o pai, que este se sentia
renascer, naquele ser frágil e angélico. Teresinha que
tantas vezes pedira um irmãozinho, estava radiante.
Muito feliz com a chegada do Pedrinho, seu irmão.
Agora numa linda casa, no meio de flores e de um
grande relvado, as crianças brincavam.
Cresciam embaladas pela passarada, num ambiente
agradável cheio de alegria e de amor.
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Um dia, o carteiro tocou a campainha. Entregou uma
carta dirigida a Clara. Um carta sinistra que rezava
assim:
“Clarinha, meu eterno amor:
É graças ao sentimento que sempre nos uniu, que ainda
estou vivo.
Saboreio já a emoção e o encantamento do nosso
encontro que será para breve! Conto os minutos e os
segundos que nos separam. Sei que depois teremos uma
eternidade para nos amarmos. Nunca mais nos
separaremos! E a nossa Teresinha, esse Anjo que eu
trouxe escondida no mais fundo do meu coração? Dizlhe
que dentro em breve a tomarei nos meus braços.
Deve estar uma senhorinha.
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As coisas por que passei e o quanto sofri, ficam para
depois. Agora é só a pressa de te dizer que estou vivo.
Que te adoro! Sei o que isso representa para Ti. Não
quero que sofras mais um segundo, pela incerteza da
minha vida. Dentro em breve poderei morrer, mas
enlaçado nos teus braços, amor da minha vida, por
quem e para quem sobrevivi!
Já me faltam as palavras para te falar das saudades. Do
quanto o meu amor está vivo para Ti! Estou certa de
que o Diamantino, o irmão que eu não tive mas que
sinto como tal, terá sido uma presença amiga para te
apoiar e à Teresinha. Sei e sinto o quanto lhe devemos .
Como lhe estou grato! Só quando o puder abraçar, ele o
sentirá também.
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Dos beijos e do calor amoroso que te devo, só à vista te
poderei compensar, meu amor primeiro, a quem devo a
criança mais linda com que um dia me presenteaste.
Não me alongo mais. Logo que puder, te direi quando
chego. Como poderás fazer para me ires esperar!
Teu marido que te adora, Carlos.”
Clara tremia. Tremia sem articular palavra. Entrou
no quarto. Deitou-se. Chorava e…Agradecia a Deus
que poupara a vida de Carlos. De repente, via o corpo
de Carlos com o rosto de Diamantino. Numa certa
confusão mental, sentia-se desmaiar. Sem forças
sequer para contar a Diamantino. Entretanto este
insistia telefonando para dar a feliz nova de que o
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homem da agência de viagens, acabava de entregar os
bilhetes para a viagem ao México, já há tempos
programada. Como não obtivera resposta, o que não
era habitual, dera um pulo a casa.
- Clarinha! Clarinha, onde estás, querida?
Correu a casa toda. Entrou no quarto. Viu Clara
banhada em lágrimas sem sequer poder falar. Olhou
num relance para a mesa de cabeceira e…
“Clarinha , meu eterno amor:
É graças ao sentimento
que………………………………………………………
………………..
Pegou na carta … leu-a toda de um fôlego.
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…Recordou-se da alegria com que no dia anterior,
saboreavam a bênção de mais um filho, visionado na
ecografia . Que mexia tomando forma dentro de
Clarinha...
… Revia a promessa feita a Carlos aquando da
partida para a guerra. Sentia a amizade que os unia
desde a crianças…
…Preocupava-se com o prejuízo que esta emoção
podia causar ao filho, participando já desta dor pelo
tamanho choque, dentro da mãe…Infelizmente pensou
bem como médico, pois o bebé não resistindo ao
choque , acabou por se transformar num nado -morto
,por mais que se lutasse para que isso não acontecesse.
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... O desespero e a mágoa que esta situação causaria a
Carlos, não lhe eram indiferentes…
…Depois não sabia que dizer a Clara…nem à restante
família…
Ficou especado no meio do quarto, em absoluto
silêncio.
De repente, Clara pressentiu que não estava só.
Rompeu de novo a chorar… a chorar…
- Clarinha, tem calma. Alguma solução se há-de
encontrar. A consciência não nos acusa de qualquer
traição. Isso é o mais importante, querida! Há
crianças envolvidas. Não te vou perguntar se me amas
ou se amas mais ao Carlos. Isso seria cruel. Quero
agradecer-te toda a felicidade que me deste . Sem ti,
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nunca vivera. Sei que ninguém aguenta uma vida com
outrem, por compaixão. Dois homens amam
intensamente a mesma mulher. O coração dela até
pode amar os dois…mas neste momento... ainda não
sei como vamos fazer.
Clara levantou-se cambaleando. Pôs os braços à volta
do pescoço de Diamantino. Apertou-o muito. Depois,
soluçando atirou-se para cima da cama, murmurando:
- Carlos, nunca te traí. Sempre te amei . Te procurei
até aos confins do mundo! Onde te esconderam, dizme!
Como foi isto tudo possível, diz -me! Quantas
noite, clamei e chamei por ti! Não me ouviste?.
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O Bouquet que um dia me ofereceste, foi um talismã
que me prendeu à vida. Ajudou-me, sonhando com o
teu regresso. E hoje…Carlos…
Só o silêncio respondia. Ainda ninguém na família
sabia deste drama.
Nem sequer podia transferir o peso da decisão para a
Igreja que se recusara a administrara o sacramento de
matrimónio, por não haver prova do óbito. Sabia que
nenhum casamento seria válido estando vivo o outro
cônjuge. Crente como eram todos, concluiriam que o
seu segundo filho, Pedrinho, era filho do adultério?!
Clara recordava-se do Teatro de Almeida Garrett , O
Frei Luís de Sousa Compreendia no mais fundo da sua
carne, a força daquela obra que por ironia, sentia
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agora na sua vida real. Recaía sobre ela, todo o peso
da decisão final?
“O Náufrago” e “Pearl Harbour” tratariam a mesma
temática, mas quem escreve a vida sempre a repete em
cada novo acontecimento. Revive páginas de modo
diferente. Renovado. Com um rosto particular.
Original.Sobretudo com Clara, o mais dramático, é
que ela não escreve, vive a tragédia. Joga com a vida
de todos os envolvidos. Cada um deles é um pedaço de
si mesma. Cada um ocupa um lugar especial no seu
coração.
Diamantino com alma a sangrar, sorriu e
tranquilamente e adiantou para Clara:
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-Sabes, querida Clarinha, sempre desejei trabalhar no
projecto “Médicos sem Fronteiras”. Vou partir o mais
rápido o possível, de modo a facilitar a vida a todos.
Tenho a certeza que o meu filho será tão amado por
Carlos, como o fora Teresinha, que considero como
minha filha.
Clara, muda, olhava o vago. Pedia a Deus que lhe
desse força e luz para enfrentar tudo isto. Magoada
ainda pela perda de seu segundo filho, as forças por
vezes, faltavam-lhe. Só a fé fora porto seguro.
Diamantino virou céus e terra. Rapidamente
formalizou a sua ida para o Iraque. No dia da chegada
de Carlos, acompanhou Clarinha que fora buscar
Carlos ao aeroporto militar de Figo Maduro! A
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chegada e o encontro foram tão dolorosos e
constrangedores para os três, que não nos atrevemos a
usar palavras. Pedimos ao leitor que pondo-se na
situação de cada uma destas personagens do triângulo
amoroso, imaginem o que cada um terá
sentido…Sentimentos em que se misturava a alegria, a
culpa, o constrangimento, a compaixão e uma certa
impotência perante a situação que tinha que ser
enfrentada, vivida, assumida. Se somos nós que
atraímos o nosso destino, agora na encruzilhada,
ficava difícil escolher o rumo certo, sem sofrimento.
Talvez o sofrimento seja para ser integrado. Assumido
até ao fim
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Diamantino já não teve coragem de regressar.
Desculpou-se com a partida imediata, embora esta só
tivesse lugar dentro de dias. Entretanto, Teresinha e
Pedrinho ficaram em casa com os avós. Estes
emocionados, mergulhados numa dor estranha, numa
alegria inexplicável ao mesmo tempo, tentavam
preparar as crianças para a chegada de Carlos…
O encontro entre Clarinha e Carlos teve contornos
estranhos de um sabor agridoce…
A chegada a um ambiente diferente do que deixara,
inibia a Carlos. Não conseguia ser feliz sobre a
infelicidade do amigo, mas… e a Teresinha? E o amor
da sua vida, Clara?! Aquela por quem insistiu em
estar vivo!
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Ah! Mas agora havia mais um criança, Pedrinho.
Ao conhecer toda a verdade, Carlos propôs a
Clarinha, retirar-se. Esta não consentiu. O tempo foi
decorrendo. De vez em quando, Diamantino dava
notícias. Perguntava pelos meninos.
Clara tudo fazia para ser atenciosa e amiga de Carlos
que a amava sem qualquer partilha. Com uma tal
grandeza, como se nada tivesse acontecido. Este amor
puro e dedicado ajudava Clara que também não
esquecia Diamantino e a sua renúncia. A eterna
partilha do ser humano que sofre com a dualidade.
Seu destino é estar inteiro em tudo. A sua meta, a
unidade! A vida nem sempre o permite. Ou somos nós
que atraímos as situações, para testar, escolher entre
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as trevas e a luz, sabe -se lá.Com o livre arbítrio sempré
alerta.
Os maus tratos por que passara Carlos, prisioneiro de
uma tribo inimiga, deixaram marcas muito sérias na
sua saúde. Houve momentos muito duros para todos ,
sempre partilhados com carinho.
Começaram a saltar de médico em médico. As coisas
pioravam de dia para dia. Clara redobrava de
cuidados. Extremosa. Dedicada. Sempre atenta. Cheia
de atenções para com Carlos que se sentia bem
amado…mas dia, numa Primavera linda que
despontava cheia de promessas, de cor, perfumada, o
físico de Carlos não resistiu e...adormeceu para
sempre!
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Diz-se que só morremos quando queremos. Aqui não
sei como terá sido.
Diamantino comunicava de vez em quando, com
descrição. Clara e os filhos estavam presentes e vivos
em sua vida.
Alguém se apressou a comunicar-lhe a partida de
Carlos.
Apressou-se a regressar .
Logo que pôde, chegou. Mais uma vez, apoiando
Clarinha, a mulher da sua vida, como médico, como
amigo, como…marido…como amante, na acepção
mais pura da palavra.
Quantas noites sonhara apertar Clara contra o seu
peito vazio, mas povoado de odores, leveza, ternura
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Pag. 28
partilhada. As mais doces recordações de toda a sua
existência alimentaram a solidão amarga e forçada,
truncado de tudo o que lhe era caro.
À chegada, o abraço apertado de seu filhote, Pedrinho,
e de Teresinha, fez esquecer tudo!
Vê-los crescer. Apreciar as traquinices, descobertas,
dar-lhes atenção fazia seu coração rejuvenescer.
Agradecer a Deus e à vida, tanta alegria.
Compreendeu que a vida é isto mesmo: aceitar as
dificuldades com serenidade. Enfrentá-las. Resolvêlas.
Fazer de cada dia um ocasião diferente, como se
fosse sempre o primeiro e o último dia da existência.
Aprender as lições. Agradecer. Perdoar. Amar mais e
melhor com aquele amor incondicional que torna o ser
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humano livre e eterno. Conclusões tiradas a partir do
sofrimento que não vem até nós, nunca por acaso.
Função de depuramento. Chamada. Motivo de
crescimento. Reflexões inestimáveis que o seu
afastamento lhe trouxera. Rico tesouro que mudara a
sua perspectiva existencial.
Muitas foram as leituras que deram um novo sentido à
sua passagem pela Terra.
Por vezes é preciso um grande abalo para o ser
humano acordar. Aos que buscam com avidez a Luz, a
Paz e o significado da vida , mesmo quando são felizes,
é-lhes poupado esse sofrimento apelativo para a
mudança.
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Diamantino compreende agora que o sofrimento é
uma chamada de atenção amorosa da própria vida.
Um degrau Para crescer. Estar atento aos sinais.
Querer. Aceitar. Perdoar. Descobrir continuamente o
lado belo, bom , precioso da vida são condições da
nova postura.
Masaru Tanigushi, Brian Weiss, Deepack Chopra,
Louise Hay, Lauro Trevisan, Gloria D. Karpinski,
Augusto Cury, entre muitos autores que descobriu,
mas sobretudo o apelo da eterna mensagem sempre
viva e aplicável do grande MESTRE de todos os
tempo, Jesus Cristo, fizeram o homem novo ,
renascido que era agora Diamantino!
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Um novo guerreiro da Luz, que quer passar o
testemunho à sua companheira. Não com palavras
,mas com a força do amor que é a única que muda o
imutável.
Ele sabe que o exemplo vale mais do que mil palavras.
Redobra de cuidado , carinho e o seu amor é o grande
facho que premeia e ilumina os dias desta família que
vive na abundância de tudo o que se aspira neste
plano: amor, segurança, verdade e uma generosidade
que se afina no dia a dia.
Nesta atmosfera, Clarinha é envolvida no manto fino
da bondade atenta de Diamantino, que assim
aproveita para crescer ele também, em cada dia ,
sempre como se fosse o último…Ausência de críticas,
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mas a pedagogia do amor em marcha. Diamantino que
sabe que a negatividade é prejudicial, compreendendo
um pouco as quedas, neste campo, de Clarinha pelas
dificuldades que a tinham marcado, sabiamente vai
ajudando , atento ao esforço de adaptação e
crescimento de Clara. Também essa atenção é motivo
de crescimento para ele. O ser humano em perpétuo
florescimento…. Diamantino, motor permanente de
mudança levara Clara a admirá-lo ainda mais, às
vezes quase como um guru que se ama. Criaram um
verdadeiro oásis naquele entrançado familiar.
Afinal a família é um local que se escolhe para evoluir
e crescer pelo que pede de generosidade e de atenção.
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Quando falha isso, alguém – sobretudo os mais novos -
vai ficar defraudado. Marcado. Sofrido. Magoado
para toda a vida, até deslindar o nó da sua
problemática.
No meio de acontecimentos inesperados , a vida tomou
outro rumo , apenas pela mudança interior, autêntica
de um elemento que alargou a sua consciência . O
fermento. Foi criada harmonia numa família feliz!
Para evoluir tudo precisa de atenção e amor.
Até as plantas são sensíveis às mensagens de carinho.
Nos animais, isso ainda é mais evidente.
O tempo não perdoa. Voa quando a vida é feliz.
Preenchida.
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Lado a lado, usufruindo e descobrindo a beleza do
amor no casal, a ternura de ver crescer as crianças,
foram a bênção de uma idade já madura.
Cansados, desgastados como esfinges ao vento, os
mais velhos estavam serenos e felizes, assistindo ao
sucesso dos novos. Fortes. Cheios de esperança na
vida, mesmo quando ela prega partidas e traz
surpresas…
È certo que houvera momentos duros de ultrapassar,
mas houve sempre amor rodeando as crianças.
Quando os percalços surgiam , os avós eram o abrigo ,
o ninho que protegia, acolhia e amava ainda mais as
Crianças, que assim aprenderam que às vezes as coisas
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podem ser difíceis, mas nunca intransponíveis quando
todos estão unidos.
Essa fora a lição que as suas almas carregavam hoje.
Numa tal família, laboratório seguro, mesmo com
alguns desaires, crianças e jovens equilibrados,
promessa de homens e mulheres dum amanhã sereno,
de grande sucesso. Teresinha e Pedro preparados para
lutar e vencer!
Toda essa harmonia enchia de júbilo o outono de
Diamantino e sua esposa.
Clarinha Zinger revivia novas aventuras que
acompanhava com amor, acompanhando de perto
aqueles em quem seu sangue estava vivo! Recordava
emoções fortes que a ajudaram a viver. Tentava
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esquecer as dores e as dificuldades. Só lembrava os
momentos mais lindos. E foram muitos também.
Envelhecia, segura do amor que a rodeava dos mais
velhos e dos mais novos, numa família serena. De vez
em quando, mexia nas suas gavetas. Falava sozinha
com uma ternura renovada e até uma pitadinha de
saudade. Entre as recordações já quase a desfazeremse,
lá estavam as dezoito rosas vermelhas! Elas eram
testemunhos de uma parte da sua caminhada. Do seu
primeiro amor símbolo de duas vidas. Sinal suave de
um amor vivido com entusiasmo. Certezas. Pureza
juvenil. Hoje, a propósito do Ramo de Rosas no baú,
Clarinha revive uma das fases da sua vida. Sente que o
amor é sempre o mesmo. Sabe muito bem agora que só
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o amor é estímulo para uma vida com sentido. Em
plenitude. Mesmo quando ele tem um rosto diferente.
Cada idade tem a sua forma de expressar a ternura. A
intimidade. A expressão amorosa. Clara sabe que só se
envelhece quando já não se têm sonhos. Recorda
momentos duros e intensos que a vida lhe trouxe. Sabe
muito bem que foi a consciência em paz, que sempre a
ajudou a ultrapassar os momentos mais dramáticos.
... A história de Um Ramo de Rosas…- ROSAS PARA
O MEU AMOR- foi apenas início da vida de uma
mulher sensível...Coerente. Dedicada. Cheia de amor
por tudo. Por todos!
As palavras são como as cerejas…
Vermelhas!
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Carnudas!
Docinhas…

Lucinda Ferreira em Agosto de 2008

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma estrada de luz




Estrada de Luz


A estrada ia-se alargando …
O Conhecimento abria-se , em cada dia , em cada semana, em cada mês, em cada ano.
A vida ia avançando.
Iam ficando para trás , os sábados de Educação Física, Canto Coral e Educação Cívica.
Além das aulas, todos os dias, das 9horas até às 17 horas e 30 minutos, aos sábados, cantávamos. Fazíamos Ginástica. Aprendíamos a Doutrina. Estas aulas, em conjunto com os rapazes, muitas vezes, era o Senhor Professor quem as dava .
Nessas ocasiões, as meninas, não se atreviam a mais nada, senão a olhar para os rapazes de quem gostavam mais. Ninguém ouvia a cantilena do costume:
- Minha Senhora, posso ir lá fora?
Todos perfilados e direitinhos. Que vergonha , se se apanhava um ralhete, à frente de toda a gente.
Os livros, que ainda conservo todos, traziam indicações bem precisas. Os textos eram exemplos de união da família, modelos para as meninas e para os rapazes.
Nesta Escola, havia algo particularmente importante.
Uma Senhora Castelo Branco, abastada e condoída com as crianças que passavam um dia sem comer, subsidiava uma cantina escolar .
A Professora distribuía material escolar e uma refeição a quem era mais pobre. Tudo era pago por estas senhoras alentejanas.
Uma tigelinha de sopa quente, 1 pão e uma peça de fruta, era um almoço de luxo, para quem nada comeria em todo o dia, se não fosse esta bênção.
Grandes panelões de sopa e a sala aquecida com fogareiros de serradura, tornavam aquele momento mágico, para a maioria das crianças a quem os pais pouca atenção davam, por falta de tempo com muito trabalho na lavoura.
Mal soavam as aquelas palavras:


- “Podem arrumar. Podem sair.”, era uma algazarra. Uma corrida…A escorregar pela barreira da escola, para ver quem ficava à frente. Quem era servido, em primeiro lugar. A quem chegava primeiro aquele conforto… À barriguita vazia.
Quem não tinha direito a comer na cantina, comia da sacola de pano ( ainda não havia saca de plástico…), um pedacinho de boroa com sardinha, ou línguas de bacalhau.
Raramente alguém comia fruta. Muito menos leite ou qualquer outra bebida. Talvez levassem um garrafita de água ou no recreio, bebiam da torneira, com a mão.
A minha amorosa mãe ia - me levar o almoço. Eu comia em casa de uma amiga dela, sobretudo quando estava muito frio.
Ainda eram uns 3+ 3 quilómetros que andava , de manhã e à tarde. Tudo a pé , naturalmente. Sem medo de mandar as crianças sózinhas aquela distância, estrada fora.
À Cantina , no Inverno, chegavam, grandes garrafões de óleo de fígado de bacalhau.
Os meninos e meninas, em fila , levavam a sua colher de sopa e …záz . Toca a engolir. Seguido de um gomo de laranja.
Nós, que não tínhamos direito à cantina, pagávamos e podíamos ir tomar o óleo de fígado de bacalhau , se quiséssemos.
No Natal, as Senhoras Castelo Branco ofereciam roupas, no final de uma récita , organizada pelos Senhores Professores e onde eu gostava de entrar e representar.
No final do ano, eram anunciados os dias das provas finais, de passagem de ano…
Levávamos uma folha de papel de 35 linhas e tudo muito limpo, lá se fazia a prova.
Não esqueçamos que a Professora tinha as quatro classes e nunca se queixava…
Para os exames da 3.ª e 4.ª classe, normalmente estreávamos uma roupa e calçado novos. Íamos, como se fôssemos para um festa. Tudo com grande solenidade.
Na 4.ªclasse, o júri era composto pela nossa Professora e Professoras de fora.
Os melhores alunos recebiam um prémio.
A Professora era também a atenta conselheira pedagógica.
Depois da 4.ªclasse, chamava alguns Pais e dizia:
- É uma pena se esta pequena , se perde e não vai estudar…
Os Pais nunca punham em causa , os Professores .


Davam uma valente soba aos filhos, se soubessem que estes se portavam mal na Escola, envergonhando a família.
As crianças que tinham que trabalhar muito cedo para ajudar a família, descalços e sabe Deus como mais em todo o resto , choravam por não poderem ir à Escola.
Os rapazes “safavam-se” indo para tropa. Cumprir a vida militar obrigatória. Alguns faziam-se “grandes homens”…
Outros iam servir para vendas de azeite, negócios de gado, peles e ferro velho.
As raparigas aspiravam casar-se rapidamente, desejando muito sair da família. Eram obrigadas “a servir” e a dar todo o dinheiro ganho, aos Pais. Essas eram as mais felizardas, porque as outras matavam-se a trabalhar no campo de manhãzinha até altas horas!
Quando se casavam, por vezes, ainda era pior.
Trabalhavam que nem escravas. Ficavam cheias de filhos e…ainda apanhavam muita pancada, dos maridos brutos e bêbedos tantas vezes, sempre caladinhas.
No final , todos acabavam a pedir, em ranchos de casa em casa.
Não havia reformas. Nem lares. Nem subsídios…
Ainda me lembro , quando era pequenita, ver ao cimo do lugar, ao sábado, o bando dos pobres, por volta do meio dia, que descia , batendo às portas , pedindo esmola.
Gritava eu a correr:
- Mãe, já lá vêm os pobrezinhos.
E toda a gente, embora não fosse abastada , era solidária com estes mendigos .
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Nota:
Uma Escola Primária há 50 anos, no campo. Comparemos com a Escola de hoje…
Retalhos da vida , há 50 anos, que alguns certamente ainda recordam.
Outros nunca conheceram!