sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Cigano Triste


Embora o assunto das participações anteriores ainda não esteja completo, hoje interrompo, depois de ter vivido o episódioa real de um amigo que partiu e que ficou lá no cemitério debaixo da terra
E a propósito, na Missa de corpo presente, o Senhor Padre referiu quer normalmente julgamos o morto e dizemos : era uma boa opessoa ou...não era...pensam isso.
Mas de facto , aquela situação devia servir para nos pormos em causa e nos julgarmos tb a nós e nos preparamos para a grande viagem
Os Pensamentos, palavras e actos ficarão registados no grande filme em que nada escapa e que se apresenta naquele momento de partida.
Mas bem, hoje conto um episódio que me aconteceu que também nos faz pensar..
Aí fica com a estima de sempre pelos meus amigos que me lêem ou seguem
...

O Cigano Triste

Há muitos meses que o vejo sempre só e triste.
Passa devagarinho. Atravessa a rua. Sobe a encosta e…entra no cemitério. Fica aí bastante tempo. Depois todo vestido de negro, barba longa e chapéu de abas largas, volta para trás e segue sempre o mesmo caminho.
Hoje, vi-o sentado sozinho, triste, no banco da rua.
Fui sentar me do seu lado e comecei a conversar com ele.
- Há sete meses que a sua Glória partira.
Estavam na cama e pelas quatro da manhã, ela fora à casa de banho. De manhã, já tinha partido.
Era boa demais. Só pensava nos outros, mais do que nela – continuava contando-me, com as lágrimas correndo, o meu novo amigo Senhor António.
Disse-me que tinha dois filhos e um neto, mas que raramente os via.
A filha estava na Figueira e o filho “vivia aí com uma rapariga”...
Pareceu me muito isolado e por isso a única coisa que enchia o seu coração era aquela saudade e recordação que animava todos os dias, na sua visita fiel e sempre à mesma hora.
Com cinquenta anos , de barba longa e um pouca branca, estava sem propósito para viver, mais do que fosse recordar. A sua Glória partira com quarenta e sete anos…
Perguntei-lhe se ele acreditava que nós não morremos, apenas mudamos de roupa, como o actor.

Um dia, ele vai encontrar a sua Glória, formosa, feliz e ainda mais bela e acolhedora…
Disse-me que sim com convicção, embora triste.
Estivemos por ali um bocado.

As pessoas passavam e olhavam para nós, porque todos viam o homem do fato preto m, na sua dor, passar todas as tardes à mesma hora, mas nunca ninguém falara com ele, nem da sua dor…
Tudo isto me fez sentir muito leve , como se voasse.
Depois fiquei a pensar, como o amor vive nos corações dos humanos e como há homens que estimam tão mal suas esposas e como este senhor ainda depois de morta, continua fiel a um amor que vivera com verdade e intensamente, acredito.


Que beleza o amor no coração humano!
Como eu daria a vida por um amor intenso e verdadeiro como este…
E como este senhor me fez também gostar da sua Glória.


No final, várias vezes, cheio de emoção, agradeceu-me pela minha companhia e pelas minhas palavras, como se quem tivesse ficado a ganhar não fosse eu própria, cheia de compaixão, por poder escutar um irmão isolado e triste cheio de mágoa e saudade.
Um coração amante e fiel enternece vivamente quem o escuta com atenção.
Quando cheguei a casa, ainda a sua imagem me acompanhava.
Foram os meus gatos que me acolheram com amor e me esperavam com a alegria de sempre, também eles fiéis e cheios de amor para trocarmos.