domingo, 27 de dezembro de 2009

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS


A maçã de ouro

Como era costume todos os sábados, a mãe do Miguel e do André, foi comprar fruta ao supermercado.
Comprou laranjas, bananas, peras e também maçãs.
As maçãs eram vermelhinhas e cheirosas.
Chegou a casa e os meninos até ajudaram a arrumar as compras.
A meio da tarde, o André pediu à mãe uma maçã.
- Mãe, posso comer uma maçã?
- Claro, meu filho.Mas antes, lava-a.Descasca-a.
André tirou uma grande e linda maçã.Tentou descascá-la.
Mas…
- Ó mãe, não consigo meter a faca nesta maçã tão dura…
- Não consegues, meu filho? Já te ajudo.
Entretanto o André fazia cada vez mais força…cada vez mais força com a faca, que quase se entortava.
Quase que cortava um dedo, de tanta força fazer.
- Ó mãe, ela é mesmo dura!Nem parece uma maçã verdadeira.Parece de ferro.
-Ora dá cá, André.
A mãe tentou cortar, mas também não conseguiu.
Insistiu.Insistiu.Insistiu até que pediu ajuda ao marido.
-ò Nuno, anda cá. Vê lá se és capaz de cortar esta maçã. Eu não consigo fazer mais força.Quase já parti a faca!
- Ora essa. Dá cá a maçã que eu parto já isso.
E fez tanta, tanta força que a maçã rolou pelo chão fora. Parecia uma pedra…
- Ora esta.Nunca me aconteceu uma coisa igual. O que é que se passa aqui?
-Também não percebi bem.- disse a mãe.
E os filhos surpreendidos à volta dos pais, até achavam engraçado aquela aventura. Aquela agitação de toda a família.
- Ò pai, vamos pedir ao avô Victor para ele tentar cortar a nossa maçã.
- Pode ser. Ele tem uma serra eléctrica.
E lá foram todos, a casa do avô Victor.
Quando chegaram, contaram o que estava a passar e o avô disse:
- Olha que esta está boa. Por quê tanto problema para cortar uma maçã?
E começou a tentar cortar a maçã, como fazia habitualmente.
Os meninos e os pais olhavam com os olhos colados no avô, que fazia cada vez mais esforço para cortar a maçã e…nada conseguia.
A certa altura, o avô já irritado, foi buscar a serra eléctrica. Mas nem com ela, a conseguia cortar.
Então começaram todos a pensar, como se havia de resolver aquele enigma. Já não sabiam mais o que fazer.
- Vamos a casa do teu irmão Carlos . - disse o avô.
E lá foram todos…o André, o Miguel, o pai, a mãe, o avô…
A maçã era o centro de todas as atenções daquela família , e de toda a gente, intrigada por um fruto tão simples e que ninguém conseguia cortar.
Primeiro, olhavam a maçã e sorriam. Cada um pensava ser mais capaz do que o outro, para conseguir fazer algo que o outro não podia.
Depois experimentavam. Nada conseguiam e esperavam pela solução , sem saber como resolver. Não percebiam o que estava a acontecer.
Então o tio Carlos, lá repetiu tudo.
Fez um esforço de dragão e disse:
- Acho que vou conseguir com um machado que aqui tenho, que tudo parte!
Mas ainda assim, não conseguiu.
Então lá foram todos falar com a autoridade mais próxima, o presidente da junta de freguesia.
O André, o Miguel, o pai, a mãe, o avô, o tio…todos juntos e cada vez mais intrigados com a maçã vermelha, lá foram.
Ao chegarem, encontraram um velho rabujento que tinha tantas situações para solucionar, que achou que aquilo era simples demais. Não devia ser incomodado por semelhante coisa.
- Então, ainda tenho que resolver este problema absurdo de cortar um raio de uma maçã?
- respondeu o presidente da junta de freguesia.
Todo fanfarrão, tentou, mas nada conseguiu.
Desistiu e mandou-os ir ter com os homens de uma pedreira, para tentar cortar a maçã misteriosa.
Lá foram todos, agora também se juntou ao grupo, o presidente da junta de freguesia, cheio de curiosidade.
Quando chegaram, o canteiro começou a raspar…raspar…raspar a maçã e disse:
- Então, ainda não perceberam, que isto é um metal? Esta maçã é de metal! Não é uma maçã vegetal. Normal.
- Metal?!- repetiram todos em coro.
Então o pai disse:
- Vamos a um especialista de metais para saber que metal é este.
- Vamos! – repetiam os miúdos, encantados pela aventura de toda a família, como se fosse um jogo de crianças.
E lá foram todos, cheios de curiosidade, à procura do detector de metais.
Então ao chegarem, o senhor Magalhães abriu muito os olhos e disse espantado:
- Esta maçã é de ouro, meus amigos! Ouro do melhor quilate! Têm aqui uma verdadeira fortuna.
Todos contentes, pagaram ao avaliador de metais, tão boa notícia, e lá foram todos cada um para a sua casa.
Ao chegarem a casa, cansados mas contentes com esta feliz novidade, arrumaram o que tinham a fazer e logo agenderam uma reunião de família, para se resolver o que iam fazer com tanto dinheiro!
Os miúdos “estavam em pulgas” para também darem a sua opinião. Para saberem as novidades…
Ao outro dia ao jantar, o pai anunciou:
-Vamos vender a nossa maçã!
-E depois, pai, ficamos ricos?- perguntou ligeiro, André, o filho mais velho.
- A mãe sorriu, olhou para o pai e também esperou pela resposta…
- Como é que vocês acham que devemos gastar este dinheiro? Quero ouvir a opinião de todos vós.
- E se comprássemos uma casa melhor? Maior?- disse o André.
- Eu gostava de ter uma cama nova, pai! – disse o pequeno Miguel
- Está tudo bem. E talvez também possamos ter um carro melhor, um Audi novinho…
- Estamos muito egoistas, mas eu também tenho um sonho: fazermos uma viagem em família.Vivermos um tempo, numa ilha…- disse a mãe.
- E também temos que fazer uma Casa para os Sem Abrigo.- disse o André
- Muito bem, André. Tens razão. Temos que pensar sempre em quem não tem nada. Nós antes, também tínhamos só o necessário. Hoje temos tanto, meu Deus!
Todos agradeceram. Ficaram todos a pensar na viagem…
E se aqui havia frio, talvez houvesse um lugar , longe onde só brilhasse o sol, a tal ilha…
Arrumaram as suas vidas. Aproveitaram as férias e lá foi toda a família unida.
Chegaram finalmente à ilha das Flores. Alugaram uma linda casa à beira mar, rodeada de verde e de flores coloridas…
O mar ali à volta era verde azulado da cor dos olhos do André…
A temperatura era morna. Quente. Muito agradável. O mar tão mansinho que se podia brincar , quase como num lago manso e suave. Os passarinhos cantavam alegres e sem medos. Vinham comer na mão dos nossos amigos cheios de alegria…
O Miguel não se cansava de repetir a toda a hora:
- Quero ir nadar! Quero ir nadar!Quero ir nadar!
O André pegou na guitarra e muito feliz a olhar para o mar imenso que parecia um lago, começou a tocar.
A certa altura, o André olhou para o mar e viu uma linda menina um pouco estranha como nunca vira antes. Esta menina era metade peixe e outra era uma formosa menina de cabelos muito loiros e olhos muito azuis.
Fez de conta que não viu nada. Ignorou aquela linda “Princesa”. Continuou a tocar, mas agora tocava tão bem, que até ele se admirava.
No dia seguinte, à mesma hora, foi para o jardim tocar na sua guitarra.
Reparou que a linda Sereia lá estava outra vez.
E foi assim durante uma semana…duas semanas…três semanas…um mês.
A certa altura, morto de curiosidade, o André resolveu ir falar com a pequena Sereia.
- Como te chamas, linda Sereia?
- Chamo-me Rita, Menina do Mar.
- Onde é que tu moras?- continua André.
- Moro no Mar.
- Quem são os teus pais?
- São a Rainha do Mar e o Rei do Mar.
- Como é que vieste ter aqui e por que razão?
- Vi os peixes todos a nadar nesta direcção e resolvi segui-los, até que vim parar aqui.
- Eu estou sempre aqui todos os dias, à mesma hora.
- Ensinas-me a tocar esse instrumento em forma de coração?- disse a Sereia.
- Este instrumento não se pode tocar no mar, porque se estraga dentro de água.- disse André.
- Então, ensinas-me a cantar?
- E tu não sabes cantar?- dizia André, enquanto o seu irmão, Miguel, espreitava e ria… ria às gargalhadas.
A Sereiazinha até se assustou.
Então, só aparecia quando o André estava concentrado. Sozinho a tocar guitarra.
Experimentaram e começaram os dois a tocar e a cantar. Era tão belo e harmonioso o que se ouvia, que até os peixinhos paravam todos, com a cabecinha no ar para escutar aquele dueto dos amigos.
Era tudo tão bom, pacífico, belo que sobretudo o André estava tão feliz, que já não queria sair mais da ilha das Flores!
Mas um dia, a família teve que regressar a casa, para continuar a sua vida de trabalho.
Lá longe, quando estava triste, o André pensava na Sereiazinha.
Rita, a menina do Mar, também sentia saudades de André, no seu coraçãozinho de Sereia.
Todos estavam sempre desejosos para voltar para a Ilha Encantada.
Um dia quente de Verão, chegaram finalmente à ilha.
André foi a correr para o jardim, para esse lugar mágico do encontro…
Tocava, tocava guitarra, esmerando-se o mais que podia.
Queria partilhar o seu progresso com a sua amiguinha, mas…a Sereiazinha, passaram um dia, dois dias, três dias…uma semana e ela nunca mais apareceu.
Embora triste, André continuava sempre a tocar na esperança de a ver voltar…
O seu amor pela Música e pela sua guitarra não podia parar.
Agora as canções eram muito mais belas, repassadas de uma doçura triste e uma saudade sem limites.
Aquela imagem da sua Sereiazinha nunca o abandonava.
O som do seu canto, enchia os seus dias de sonhos e mistérios.
- Por que será que ela se foi embora? – perguntava André para si próprio em cada momento…
E voltou para sua casa, triste sempre a pensar que ainda um dia havia de a encontrar.
Por que sem a sua Sereiazinha, para quem é que ele havia de tocar?
Porto, 21 de Dezembro de 2009
Texto: Lucinda ferreira
Ilustração: André Monteiro (8 anos)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Natal 2009


Não há outro dia como este

é Natal

Não há

Outro dia igual

Entregasmo-Te os velhinhos

Crianças

Os que estão sós

Os nossos Filhos

Os nossos Pais

Os nossos Avós

os que estão em guerra

Os que não têm que comer

Os que estão doentes

Os que não têm casa, nem pão

Os que estão a morrer

Os que vão na estrada

os que não têm família, em solidão

Os que não têm nada

Os que estão a nascer...

Os que partiram

A esses q1ue moram no céu

Recebe-os perto do Pai

Envoltos no véu

de Paz

de amor e de Alegria

Neste Natal, neste dia!

Esconde-nos a tods no teu coração

Asaa brancas

Música de Anjos

O calor da família

O amor em nós

Alegria no coração

Leva-nos a todos e a cada um

Seguros, contigo

Leva-nos a todos

Pela mão.

Porto , Natal 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Um poema para Anita

Anita , andorinha
Menina
Ligeira e airosa
Perfume
Rosa…
Anita, fada madrinha
Pura
Formosa
Anita, andorinha
Menina
Rosa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

So uma das minhas fotos


Hoje vai só uma foto com voitos de Festas natalícias muito felizes ! Lucinda

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Simetria do Amor






Simetria do Amor







O amor é simétrico
Milimétrico

Exacto

Imediato
Sem porquê
É porque é
E se assim não é
É porque não é
Milimétrico
Simétrico
Sem porquê


Exacto


Não é.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Estrela da Manhã


ESTRELA DA MANHA

Há palavras que se gastam. Rompem-se. Repetimo-las. Entram por um ouvido e saem por outro.
Inútil para todos , estarmos a perder tempo.
Ao reflectir sobre este facto, surgiu este texto, sobre o tema que adivinhais…
Ressaltou o enquadramento geral, a época, a cultura, as condições do acontecimento, o papel da Mulher na sociedade Judaica e a atitude de alguém que é abordado , com desconhecimento total por algo que se irá desenrolar , em que a própria seria a visada número um, para que o projecto pudesse avançar.
Muito lhe ia ser exigido em sofrimento e amor…
Incompreensão. Difamação e má fé. Solidão. Sacrifício. Humildade. Aceitação.
Também grandes alegrias a esperariam, no meio de tanta surpresa. Novidade.
No entanto , teria que ser muito especial .Ter qualidades para além do comum, sem dúvida.
Paciência. Entrega. Doação. Disponibilidade interior. Confiança. Determinação até ao fim. Fidelidade. Compromisso. Dedicação. Força. Amor. Coragem. Harmonia. Mas…a base contudo, teria que ser uma Fé sem limites. Uma entrega incondicional.
Uma menina honesta, formosa, comprometida, integrada numa sociedade fechada. Que estava onde devia estar. Num meio pequeno. Num tempo de limitações absolutas, recebe a vista de um ser incomum que lhe faz uma proposta ousada, anunciando que justamente ela, a cheia de graça, fora escolhida para colaborar num plano de Deus, sem precedentes.
Para ser a Mãe do Salvador.
- Mas como, se não conheço homem?! - Não te preocupes. O Espírito de Deus descerá sobre ti . Conceberás por obra e graça do Espírito Santo. A Deus nada é impossível.
Imaginamos, como foi preciso confiar e entregar-se toda…
Como a autenticidade prevaleceu sobre a calúnia e o receio de julgamentos eivados de preconceitos maldosos.
(Modelo e coragem para as nossas vidas tantas vezes enxovalhadas injustamente (...). Mal julgados. Caluniados. Injustiçados.)
Maria, a bem amada (significado deste nome, Maria), nunca hesitou.
- Faça-se em mim, segundo a vossa palavra.
E a ponte entre o humano e o divino estabeleceu-se de imediato.…………………………………………….
Nunca visto nem pensado, embora já anunciado, muitos séculos antes, pelo Profeta Isaías, o acontecimento desta noite maravilhosa, em Belém!
“O boi e o burro estarão junto do berço do Senhor.”
Hoje sabemos tudo, mas Maria nada sabia naquele momento do anúncio do Anjo Gabriel.
NADA! Só os olhos da Fé a orientavam.
Mas a menina, estrela da manhã, não vacilou.
Grande era a sua alma!
Além de irmã, tornou-se assim, mãe de toda a humanidade.
“Montanha inacessível ao pensamento humano.
Estrela que anuncia o Sol que vai nascer.
Oceano impenetrável ao próprio olhar dos Anjos.
(…) nela, todas as criaturas são recriadas.
Enxugas finalmente as lágrimas de Eva.
És tu quem levanta Adão da sua queda.
(...) em ti , o Criador se tornou Criança.”
Sem ela, nada seria possível.
Foi o seu sim sem reservas que nos trouxe, o grande Presente, que depois de 2009 anos, continua o Presente eterno da bondade de Deus Amor para com cada um de nós.
Tornou-nos Filhos de Deus . Herdeiros dos Céus!
É justa uma referência ao Homem, que estando Noivo, tem a surpresa de saber que a sua prometida está grávida, sem nunca lhe ter tocado…
Só pondo-nos no seu lugar, sentiremos a sua profunda dor. Homem bom, tudo esconde. Tenta contudo, abandonar a noiva em segredo.
- “José , não abandones Maria, porque Aquele que nela é gerado, é fruto do Altíssimo” .- segreda-lhe o Anjo em sonhos…
Também aqui, a Fé e a disponibilidade interior, se apresentam evidentes e excepcionais, em José .
E o plano de Deus avança.
O Salvador nasce numa manjedoura, despojado de tudo.
São os homens bons, simples e humildes que pastoreiam ali à volta, que são convidados por um Anjo vindo das sombras, a saudar o Menino-Deus , numa noite fria, sem quaisquer condições, num estábulo.
E lá está a Mulher, a Mãe, Maria a cheia de graça, no seu melhor, dando-se na totalidade do seu coração, sem qualquer reserva de todo o seu ser.
Mãe é o ser mais disponível do universo.
Sem ela, o plano de Deus, de humanização, não avançaria.
Deus em tudo igual a nós , menos no pecado, como seria possível ?
…………………………………………………………..
Parto numa gruta. Logo de seguida, a aflição de lhe matarem o Menino. Foge a Família por montes e vales. O burrinho colabora.
Inicia-se a perseguição ao Amor, feito carne…até ao fim!
Imagina-se a dor . Aflição. Impotência da Mãe, perante o sofrimento de seu Filho, que ela ama. Mãe não tem limites para o seu amor.
Sentimos e vemos, como para haver Natal, tudo assenta no sim de uma Mulher, amor sem limite, a tal Estrela da Manhã.
O seu brilho atraiu o coração de Deus.
Encheu-a de graça .
Fê-la mãe do Salvador. Mãe da transmutação, da alquimia da dor…
Silêncio . Amorosa cumplicidade no plano de salvação, para a eternidade.
………………………………………………………
Obrigada, Maria, mãe e mulher de excepcional grandeza, distinguida para Mãe de seu Filho muito amado, no qual Deus-Pai põe toda a sua complacência.
Ainda, Natal dos Reis Magos, vindos da Arábia e da Pérsia.
Homens de grande Ciência que conheciam os sinais dos astros, os velhos Livros dos segredos maiores. Gaspar , Melchior e Baltazar, guiados pela brilhante Estrela, até à Gruta da Judeia, perto de Jerusalém, trazem Ouro (presente para a realeza). Incenso (devido à divindade), Mirra (para inumação dos corpos, falando da humanização de Jesus).
...e no final de tudo, um coro de vozes harmoniosas, de uma doçura indizível, ecoa nos ares, naquela noite misteriosa e transformadora…
“Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade”
Tantos sinais para agradecer…
Quem não encontrou ainda em sua vida, a ESTRELA DA MANHA, aquela que enxuga as nossas lágrimas?
Ei-la!
Feliz Natal, amigos!
linmare@edicomail.net



domingo, 6 de dezembro de 2009

Sintonia


Há pessoas que vemos uma vez,mas como um clarão iluminam o nosso caminho com tal luz, que nunca mais lhe perdemos o rasto .


Foi assim com a Mimi.

Separadas no espaço ,mas próximas por dentro.


Penso que nos conhecemos desde toda a eternidade ,porque vibramos numa onda muito semelhante .

Quando nos encontrámos, foi a alegria , pq já estávamos próximas sem o sabermos.


Nota:

Este comentário dedico-o às Mimis da minha vida, que podem ser homens ou mulheres, pobres ou ricos, crianças ou idosos ...vivos ou desencarnados...


São todos os que venho cruzando na minha vida que um dia entraram e nunca mais vão sair!

Amo-vos muito e estou grata por existirem na minha vida

Comentário da linda MIMI de Beja


Nota:


A Mimi é das pessoas mais lindas por dentro e por fora, que conheço e por isso dá-me mt alegria transcrever o seu comentário, que não conseguiu escrever no blog.


Muito obrigada, querida Mimi!


Só vê a beleza dos outros, aquele que a possui em abundância em si próprio.


Vemos o mundo com aquilo que somos...não há dúvida

A Estética da Recepção diz isso e muito mais ...



"Sublime é a beleza da tua alma...obrigada !
Beijos
Mimi
"

Sei que ele vai voltar


Primavera


Diz que vai voltar,
O Príncipe
Não sei quando será
Mas sei que virá
Tenho a certeza
Que ele
Não partiu
Apenas se escondeu
No mais secreto de mim
Jardim selado
Silencioso
Mistério
Segredos
Na sua ausência ninguém o vê
Só nós sabemos porquê
Sublime espera
Sei que voltará
Vestido de luz
Nada será como era
Agora para nós
É sempre Primavera


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mecanismos do Amor




Para variar , vai mais um flash pequeno e sonhador...



O que vale é que o "poeta" é um fingidor, mas enquanto sonha ..."o mundo pula e avança"...







Mecanismos do Amor





Entrou.
Tudo se iluminou!

A sua presença

O seu jeito
Suave
De mansinho se fez luz

Vestiu-se de beleza
A natureza
O Céu
Abriu em flor

Magia?
- Não!
A força suprema do amor
Fugiu o medo.
A tristeza.
A noite em dia se mudou.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Mecanismos da alegria"




Mecanismo da alegria”




Hoje, o Príncipe
Veio ver-me…
Vinha vestido de luz.
Todo o seu ser
Resplandecia
A sua essência emergia
Pura. Nua .
Sem porquê.
Oferecia-se-me
Em taça dourada
Simples
Perfumada.
Os olhos brilhavam
Húmidos
Profundos
Como aquele mar
Que trago escondido
No fundo do peito
Aquele amor perfeito
Que não tem princípio nem fim.
Cativo.
Anónimo. Simples.Antigo.
Assim…
3.12.09

Aceitação



"A ACEITAÇÃO

Até ao sistema de perdas eu já expliquei. Pois hoje, quero falar-te da sequência. Do que acontece a partir da perda. Para nós, cá em cima, a perda é sinónimo de fragilidade. O ser perde para se fragilizar. E fragilizar para quê? Para obrigar a ir lá dentro, ao centro do sentimento, aceitar, aceitar que as coisas acontecem, e vivenciar o que tiver de vivenciar nesse momento.
Se a pessoa não se fragiliza, se não se conecta com a sua emoção, nesse caso, as perdas vão sendo cada vez maiores, para que se dê o ponto de contacto. O ponto de contacto é o momento preciso em que a resistência baixa para zero, e o ser se conecta com ele próprio, com o que verdadeiramente sente, e é iniciado o processo de aceitação.
O processo de aceitação é quando a pessoa interioriza que não é nada perante o Universo na sua totalidade. Quando percebe que se as perdas lhe aconteceram foi porque as atraiu, nesta ou noutra encarnação. Quando interioriza que tudo se vai transformar na sua vida ao mudar de atitude, passará a agir de forma muito mais autêntica e universalista.
Ao aceitar, o ser começa a abrir-se para o infinito, para as novas dimensões. E é lá que vai buscar inspiração e luz para iniciar o próximo processo pós-perda. O processo de ascensão."
JC

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Reencontro - conto




Conto: O REENCONTRO





Zélia acabara de ler o seu nome na lista dos professores escolhidos para estagiar um ano na Alemanha.
O sonho disparou dentro de si.
Viajar e conhecer novos horizontes era algo que alimentava a sua alegria de viver!
Antes era o entusiasmo da preparação.
Durante, a emoção da descoberta. O usufruir do mundo circundante, diferente e sempre novo, acolhido como o “presente” do momento que logo se esvai.
Após, quando se descodifica. Interpreta. Se vive de tudo o que o coração arquivou por o ter tocado. A língua francesa lá o expressa: “savoir par coeur”.
………………………………………………………………………………..
Vencidas as dificuldades da viagem e de toda a adaptação, chegava-se a Dusseldorf.
A Universidade era ponto de encontro de gentes variadas, vindas de todos os recantos.
Zélia, como sempre, mantinha-se atenta aos sabores, às cores, às mensagens emitidas à sua volta, à cidade, aos costumes, aos sons, enriquecendo assim o propósito primeiro da discussão das matérias a aprofundar.
Nos encontros e desencontros humanos, observa com todo o interesse, as culturas em todas as suas expressões, gestos e comportamentos diversos. Inesperados.
Zélia era simpática. Sorridente e calorosa sem ter que fingir nada. Era naturalmente assim. Sem ser aquela beleza clássica, era contudo vistosa, interessante e não passava despercebida.
………………………………………………………………………………..
Nesta cidade alemã de muitas misturas, tudo podia acontecer.
O quarto ao lado do seu, de um senegalês alto, de pele bem negra e brilhante, recebia no mínimo, cinco a seis loiras por noite, com algumas variações que ninguém escondia.
Os sons…os barulhos…o reboliço até altas horas, eram demais para quem tivesse hábitos pacatos. Mas tudo fazia parte de tudo.
No corredor, ao cruzar com outro africano não menos confiante do que o vizinho de quarto, fora abordada sempre com a mesma naturalidade de quem vive em família, para responder a uma pergunta disparada à queima-roupa:
- Gostas mais da sombra ou da luz?

Zélia não se apercebeu logo do alcance daquela questão. Respondeu contudo, em língua alemã, fio condutor e elo de ligação de todos os estagiários, como uma mulher assumida do sul, do País da claridade.

-Gosto de luz. Vivo em Portugal, no país do Sol.

O jovem negro interpretou o simbolismo da resposta, tal como formulara a questão, cheio de segundas intenções.
Sempre que se cruzavam, não deixava de a olhar de soslaio, sem contudo forçar a situação.
No grande campo universitário de extensas e amplas relvas bem cuidadas, se estendiam os jovens lendo, ouvindo música, conversando ou…amando.
Naquele mar de raças diversas, gentes vindas de todos os cantos, um dia, Zélia deu de frente com uns olhos azuis, azuis da cor das hortênsias que deixara no seu jardim.

- Será que estou a ver bem? Um pedaço de céu azul do meu Portugal, em dias limpos e serenos, que teima em não me sair do pensamento…Que coisa estranha. Nunca me tinha acontecido isto. Parece até que o coração bate mais forte quando tenho a sorte de os cruzar. Estranhamente, sinto-me enfeitiçada. Coisas do coração...e ”o coração tem razões que a razão desconhece”-

Recordava, tentando controlar-se, ser objectiva e sempre retomando o fio do pensamento, que lhe fugia como um cavalo à solta, necessitando como quem respira, de correr e de viver!

- Parece que nunca mais tive sossego. Preciso concentrar-me. Foge-me o pensamento.

Depois, como por milagre e como diz o Povo, “quem bem se quer sempre se encontra”, o inevitável aconteceu. Cruzou-se o castanho quente e louro de uns olhos cheios de sol e o azul, azul de mar das terras nórdicas.

-Talvez seja hoje, na fila do restaurante - pensava Zélia para si mesma.

Assim foi. Mesmo em cheio, os olhares consentidos, curiosos ambos, atraídos pela complementaridade da cor, da serenidade ou da inquietação que carregam, cruzaram-se bem fundo!
- Faz favor – disse o colega.

Zélia passou à frente e sentou-se numa mesa vazia. O colega seguindo-a, pediu licença. Ficaram sentados lado a lado. Encetou-se então uma larga e agradável conversa. Biorn, era assim o nome do eleito, também era professor de inglês e alemão. Temas para analisar e discutir não faltavam. Falou-se das impressões do lugar e das circunstâncias, de metodologias…culturas…história e política dos países de cada um. Este foi só o início. Depois todos os outros dias lá estavam os nossos dois amigos juntos. Sempre com assunto e encantamento mútuo. Crescente.
Ambos livres de qualquer compromisso e com tantas afinidades, o amor aconteceu! Diz-se que a maior parte das amizades entre um homem e uma mulher redundam em amor. Foi o caso: únicos um para o outro.
Caminhando na mesma direcção, eram tecidas de luz as descobertas que ambos partilhavam com uma alegria cada vez mais intensa e renovada.
Era profundo e verdadeiro o ser que se gerava entre ambos.
Lentamente, como as grande árvores que crescem devagar, um amor cheio de delicadeza, respeito, dedicação e fidelidade aumentava todos os dias um bocadinho mais.
A certa altura o enlevo era tal, que para Zélia bastava fixar Biorn: o sangue fervia nas veias; o coração saltava no peito…

-Meu Deus! Que choque me percorre todas as fibras do meu corpo, sempre que de mansinho, Biorn engalfinha os seus nos meus dedos…ou até apenas quando o seu doce olhar de veludo me envolve.
Como vou controlar este sentimento que me escapa tão veloz e escorregadio? A alma fugindo sorrateira, morando toda no seu mar. Nada já me resta?!

De facto, uma paixão intensa queimava-lhe a alma e até o corpo…
Já com alguma intimidade, Biorn sorria satisfeito, saboreando todo o néctar daquele amor do sul dedicado e cigano, roçando ao de leve...os lábios frios …no ouvido da sua querida, segredando-lhe, sussurando baixinho :
-Com esta mulher que é lume, quem é que se pode aguentar?...
Tudo o que restava da minha natureza céltica me fugiu sem dar por ela.
Arrebatas-me para regiões desconhecidas.
Zélia és uma feiticeira que me conduzes a viagens mágicas.
Caminhos nunca antes andados… e não sou de todo um adolescente.
Tenho exactamente como tu, trinta anos bem vividos.

Quando serenos conversavam, após o banho relaxante depois do encontro fogoso de corpos, almas e tudo o que dois amantes trocam no momento de suprema ascensão, riam e brincavam. Ele contava histórias fantásticas de barcos, veleiros, vickings com sabor a mar em que ambos eram protagonistas.
Príncipes e Princesas sonhando mundos e conquistas em que eram as personagens centrais.
Depois era de novo a realidade vivida com a coragem e o entusiasmo de quem se sente compreendido e bem amado.
Era o trabalho e o convívio alegre entre todos e os seus olhares enlaçados como um íman na multidão.
O amor e o fogo quem os pode deter?
Onde e como escondê-los?
Aquele romance inesquecível para ambos, que parecia para a vida inteira durou um ano. O tempo do estágio.
Depois regressaram aos seus países: Biorn voltou para a Suécia.
Zélia regressou a Portugal.
O compromisso inequívoco ficou no ar. Mas se longe dos olhos, perto do coração para alguns, para outros nem sempre assim é. A vida complicara-se .
De comum acordo e salvaguardando uma boa amizade, rompeu-se todo o resto. Dilui-se. Diluíram-se os sonhos mais lindos de Zélia não sem mágoa…Uma certa nostalgia envolveu-a durante bastante tempo.
Biorn também não esqueceu a sua amada do Sul. Não pôde ir tão longe quanto o seu coração. Ficou-se pela Suécia. Constituiu família com uma burguesa fria, prática e de modos pouco femininos que lhe saltou à frente, teceu uma teia, acabou por o comprometer e envolver em definitivo.
Biorn dizia para si mesmo:
-Isto não tem nada a ver com a doçura e a delicada sensibilidade da minha Zélia que não me sai do pensamento… mesmo quando estou com minha mulher..A verdade é que não consigo controlar.
Esta marca ficou gravada no mais íntimo do meu ser. Como libertar-me? Não sei. A raça, a entrega, a certeza e a verdade sem porquê daquele amor que Zélia me ofereceu, nunca mais o viverei…
Como me arrependo. Só culpa minha, bem o sei. Tenho momentos que me indigno da minha frouxidão.
Talvez por osmose ou por contágio, ficou-me a saudade, o sentimento comum que mora habitualmente no coração português, sei agora quanto pesa.
Esta nostalgia, este tédio e alheamento, como hei-de resolvê-lo? – perguntava--se algumas vezes.
Após a leitura de algumas páginas de um livro que fala de Portugal, fico absorto. Fixo o olhar perdido no além longínquo e sem fim…
Recordo Zélia, a mulher que me deu momentos jamais repetidos em minha vida. Como apagá-la da minha vida? Não sei.

Por sua vez, Zélia vivia ancorada àquele sabor, àquele perfume e aquele amor , sem nunca mais encontrar quem o suplantasse. Repetia, quando a interpelavam acerca da sua solidão:
- Mais vale estar só do que mal acompanhada.
-Mas por que não arranjas um companheiro? Tens tudo o que um homem deseja encontrar numa mulher - repetiam aqueles que a estimavam e a viam mal, sozinha.
- Porque ainda não o encontrei. Ninguém mexe comigo…Florbela Espanca dizia: “Um homem, quando eu busco o amor de um Deus”! Por vezes debato-me com tanta dúvida…
Na verdade, gosto de estar acompanhada, mas…com quem?
Será que busco um ser possível ou isso será uma desculpa para continuar fiel a Biorn, meu amor primeiro e único, que ninguém ainda conseguiu suplantar?
É que mal me aparece alguém, um pretendente, inconscientemente comparo logo, pela fasquia mais alta no que de melhor descobri em Biorn. Fico desanimada. Não consigo avançar, embora reconheça qualidades na pessoa.
Acho que integrei tudo dele. Aceitei tudo! Até o que não era o melhor, valorizei como positivo. Distanciando-me um pouco, tenho disso consciência.
Será sempre assim no amor? Para a vida inteira?!
Nem o tempo nem a distância conseguem apagar esta estranha força tão forte, sempre presente. Parece que cada vez estou pior.
O tempo não perdoa, eu sei. A alma sente mais intensamente. O corpo está menos flexível. Quando me vejo ao espelho, espreito...e descubro rugas e cabelos brancos que me vão pesando...
Bem afirmava o nosso querido João de Deus : A vida é sonho que voa.
Quando nos distraímos um pouco e nos descuidamos, a vida já passou.

Zélia nos seus longos monólogos e reflexão, continuava repetindo para si mesma:
- Às vezes esquecemo-nos de viver. Paramos no tempo amarrados a um passado que teimamos em não deixar ir. Só quando se apanha um susto, um desaire ou uma doença grave de que se escapa, uma tempestade que nos acorda, abana todo o ser, tomamos consciência de que ainda estamos ali. Só nessa altura queremos aproveitar o dia a dia. Vivos! É preciso viver. Agradecer à vida! Aproveitar as mil coisas lindas e simples à nossa volta, tais como uma flor abrindo.
O cheiro à terra molhada depois de um sol que queima a alma.
A imensidão do mar sereno ou revolto desfazendo-se num rendilhado
mesmo ali a nossos pés.
Sentir o frio e o calor…
Um pôr de sol ou uma flor entrando pela janela do quarto…
Tanta coisa bela afinal que tenho perdido nos meus dias plenos de obsessão. De um passado que não pode voltar!
Tenho que sair disto!

A partir desta tomada de consciência, Zélia começou a inventar estratégias para se manter alegre. Ocupada.
Descobriu que o melhor remédio para quem estar triste é dedicar-se aos outros. A quem precisa. A alegria só é grande quando partilhada.
Ela bem sabia que todo o estado de espírito da mente se reflecte em saúde ou doença conforme a qualidade desses pensamentos. Não podia continuar só no meio da multidão. Virada para dentro no seu egoísmo.
- Saber e não fazer, é como não saber. – repetia agora algumas vezes para si própria, Zélia que tentava mudar de atitude.
- Vou vencer este meu perfeccionismo que me dá cabo da vida.
Exímia em tudo que faço, para quê se isso não me faz feliz?
Inteligente, objectivou a sua dificuldade e tal como a ostra que do seu sofrimento faz nascer a mais bela pérola, Zélia aproveitou para crescer.
Entre muitos dos seus passatempos, havia um que ela adorava: viajar!
Sempre que estava livre da suas tarefas, viajar todos os anos, era obrigatório.
- Vou é até Londres. Lá, sinto-me no meu lugar por excelência. Tenho paz. Sinto-me bem. O geométrico, o arrumado, o contido e o aprumo dos saxões agradavam-me. Percebo agora que as impressões do meu colégio inglês me marcaram para sempre.
Vendo bem, o que me atrai em Agosto, em Londres, também é o clima ameno bem diferente das temperaturas extremas nesta nossa ponta da Europa, que segundo consta, estão aumentando um grau e meio em média, anualmente.
Neste sul do país que adoro, como vou suportar 40, 43 graus, na canícula, por mais que me meta na minha “toca” preferida? Custa-me mesmo aguentar este calor…
Grã- Bretanha está mesmo a calhar. Aproveito e revejo os amigos que ainda são o melhor da vida. Já tenho saudades …

Telma, Lúcia, Jacob adoravam a companhia de Zélia, feita de charme e simplicidade.
- Assim que chegar, é só dizer que vou, haverá um interessante roteiro organizado com festas, espectáculos de qualidade, passeios... surpresas. Sei bem o que me espera. Depois ainda tenho as minhas descobertas para fazer sozinha…Meto-me num transporte e lá vou sem rumo, com sabor a aventura. Aventura simples, emocionante e diferente de tudo que é organizado na minha vida rotineira a que me sinto obrigada. É tudo o que preciso, neste momento, um pouco cansada. Nada de rígidos horários. Aí vou eu toda contente.

Numa das suas deambulações sem saber onde iria parar, Zélia foi parar a Oxford.
- Fico sempre contente quando chego aqui. Nem eu sei bem porquê…
Gosto deste ambiente pacato dos grandes colégios, dos verdes e da cidade em si mesma. Sempre que revejo o filme “O clube dos poetas mortos,” revivo Oxford.
Depois, constatou:
- Desde que me separei de Biorn, num dia triste e chuvoso que nunca poderei esquecer, que me acontece algo estranho: inconscientemente procuro o meu amor por onde passo. Que tolice a minha!
Parece que o vejo de repente, com aquela expressão única que um dia me prendeu para sempre. Logo de seguida naturalmente, noto que me enganei.
Quando reparo num cavalheiro de olhos azuis, embora discretamente, tenho que confirmar que não é mesmo Biorn. Este meu coração é um eterno sonhador. Sem eu querer, até bate mais depressa.

Aflorava-lhe aos lábios um sorriso triste de desilusão, saudade e desencanto, desenhado no rosto expressivo e meigo.
Repetia para si própria:
- Zélia, és uma eterna criança. Ainda assim, nada de desânimos. Força. Um dia a vida ainda vai sorrir-te. O diabo não há-de estar sempre atrás da porta, como se diz por lá.

Tentava assim reconfortar-se para levar a bom termo o seu projecto de ressurreição interior. Desta vez, chegou a Oxford bem cedo.
- Vou dar uma volta pela cidade, em ar de saudação. Há sempre algo de novo a descobrir, mesmo quando se passa todos os dias no mesmo local, quanto mais aqui em que tudo muda constantemente. É engraçado que há sempre novidades. É como se fosse a primeira vez que visito esta cidade mágica!

Ao fim da manhã, sentiu-se cansada. Sentou-se um pouco e tomou uma bebida fresca e gostosa. Tranquila, pensamento vadio, absorta , fixava o vazio, recordando o seu Portugal, a sua vida. O olhar passeando perdido sem limites nem pretensões. Na mesa ao lado, escapara-lhe alguém de ar distinto, seguindo atentamente todos os seus gestos e distracção. Quando Zélia deu por isso, ficou embaraçada. Mais ainda, quando de repente, escutou:
- Desculpe, mas diga-me por favor, qual é a sua nacionalidade. - disparou quase nervosamente aquela voz ali ao lado, falando em língua alemã.
-Sou Portuguesa.
-É professora de inglês e alemão, aposto pelo seu sotaque?
- Sim. - respondeu Zélia intrigada.
- Quase arriscaria que esteve em Dusseldorf, no ano de 1967…
- Sim. – disse , já um pouco intrigada com este diálogo.
- Afinal, por que razão me faz essas perguntas? Quem é o Senhor?
- Não me conhece? – uma grande tristeza invadiu o seu coração.
Ela já esquecera tudo - repetia para dentro de si, como um eco de sabor a traição.
- Vive em Inglaterra? – insistia o desconhecido.
- Impossível responder a mais questões, sem saber com quem falo. – retorquiu Zélia intrigada .Sem poder acreditar. Sem querer admitir uma realidade tão fantástica.
- Por favor, Zélia! Como pudeste esquecer o timbre da minha voz.?! -disse, agora em língua inglesa, impaciente, quase desesperado.
-Todas as noites, me afastava de tudo e de todos, para escutar no mais fundo de mim mesmo, a música da tua voz. Recordar mais intensamente, o teu sorriso lindo que me têm acompanhado sempre …

Um calafrio percorreu Zélia. Quase desmaiou. Sem conseguir articular palavra, levantou-se. As lágrimas inundaram-lhe completamente os olhos. Correu para aquele homem ali à sua frente, tentando adivinhar o rosto de que se separara, 35 anos antes. Abraçou-o intensamente sem cerimónia, à boa maneira latina. Não eram necessárias palavras, fonte de tantos equívocos.
- És mesmo tu, Biorn? Meu amor! Não estaremos a sonhar? Que estás a fazer aqui? Estás só?
- Sim. Sou eu, querida Zélia. Minha mulher faleceu de doença prolongada. Meus filhos têm a sua vida. Ninguém precisa de mim. Como me sinto infeliz na minha solidão, sabe-o o meu diário fiel onde descarrego o que não posso dizer a ninguém, resolvi viajar. Sofremos todos muito com a doença de Melanie. Resolvi para espairecer um pouco, vir até Inglaterra onde um dia viemos nós dois. Era uma espécie de retorno confortável a alguém que eu nunca consegui esquecer. Mesmo que fosse só em pensamento ao rever os locais onde fomos felizes. Longe de mim, pensar que te poderia encontrar. Lembras-te quando viemos os dois, aqui?. Tentava virar mais uma página da minha vida. Recordar e encher o meu coração daquelas antigas imagens que foram os momentos mais lindos e verdadeiros dos meus dias.
E tu, que fazes aqui também, querida Zélia? Nunca me disseste nada de Ti por mais que te procurasse e insistisse. Não podias fazer isso comigo. Eu sempre fui sincero contigo. Tu recusaste ir viver para o meu país, sabes bem. Eu não podia sair de lá por motivos que te expliquei na altura.

Já num local discreto, longe da esplanada do grande encontro, Zélia tapou-lhe a boca. Beijou-lhe os olhos, onde ainda reluzia um pedaço do mesmo azul que guardara dentro de si.
- Não digas nada, Biorn. Ainda sinto um nó na garganta. Agora, não consigo articular palavra. A alegria também mata. Eu quero viver só para te olhar. Para te amar! Pega na minha mão, como sempre fazias há tantos anos. Ainda sentes como ela vibra? Diz-me que é verdade que não estamos enganados…Belisca-me! Vamos sair daqui, por favor.
- Sim. Vamos, mas podes estar tranquila que agora nunca mais te vou perder! Zélia. Quero morrer perto de Ti, querida!
- Tão depressa passou a vida, meu Amor. E ao mesmo tempo, senti que foi uma eternidade. Agora, estamos…velhotes, querido…
-Velhos???!! Nada disso! Querida, vamos viver o momento intensamente. Enquanto estamos vivos temos capacidade de amar. O amor não está só no físico. Tem que nascer antes de tudo, na alma. No mais secreto de nós mesmos.
O mais misterioso é que por vezes, nem sabemos a razão do clic.
Só somos velhos quando paramos de amar. A vida recomeça sempre que temos um sonho. Tu és única na minha vida. Sabe-lo muito bem.
Sinto hoje que nunca deixei de te amar. De pensar em TI.
Quantas vezes, na intimidade com minha mulher, eras tu a quem eu segurava nos meus braços…
- Não me digas essas coisas, Biorm… Quanto sofri pela nossa separação, nem te digo para não estragar a magia e o milagre deste encontro. Agradeço ao Céu que sempre me acompanhou. Nunca deixei extinguir a luzinha da fé e da certeza que ainda um dia, antes de partir, nos encontraríamos neste plano.
- Zélia, meu amor, que vamos fazer agora da nossa vida?
- Temos tanto que dizer...fazer…construir … que não consigo transmitir tudo o que me vai na alma. Para já, convido-te a vires comigo para Londres. Meus amigos vão ficar surpreendidos. Quase todos te conhecem por já lhes ter falado de ti. Vai ser muito bom.
Biorn não sabia bem o que dizer, mas poder reorganizar a sua vida afectiva com planos a dois, com um amor delicioso como este, fazia-o viver quase num mundo irreal. Sentia-se forte. Jovem, como há muitos anos atrás. O amor tem destas coisas.
- Se é isso que queres, querida, está bem. Nunca mais vou deixar de confiar na tua intuição. A inteligência do amor é para considerar sempre.
O resto, depois veremos. O mais importante é estarmos juntos novamente. Parece que no mais profundo do meu ser, sabia que este encontro seria inevitável por causa deste sentimento mútuo demasiado forte e verdadeiro, Zélia, tinha que produzir um efeito!

Naquele dia, o mais longo e o mais curto da vida de Zélia e de Biorn, um encantamento e uma alegria sem medida enchiam o coração daqueles dois seres em deslumbramento. Nada nem ninguém mais existia no universo. A emoção ocupava-lhes todos os espaços! Nada mais, para além deles, contava. Era um presente mesclado de saudades e de projectos. O silêncio entrecortava as palavras de quando em onde. Os olhos húmidos entrelaçavam-se, em beijos de luz e de um amor intenso.
É cruel devassar a intimidade dos amantes que se querem de verdade. Não acha, querido leitor? Agora só podemos adivinhar um pouco do futuro destes dois enamorados. Imaginar alguns dos seus dias.
Ainda assim, escutemos de longe o que pensa Biorn:
- Portugal é o melhor país do mundo para se viver. E pergunto-me: qual a razão por que tantos estrangeiros decidem viver a ponta final das suas vidas neste canto de paz banhado de sol e simpatia? Escondem-se nos mais recônditos cantos da terra portuguesa. Semeadas nas serras, as casas emergem tranquilas e solitárias. Se for no sul, é certo que albergam um casal holandês, alemão ou inglês. Eles lá sabem bem a razão e eu, como nórdico sem sol, também já o experimentei.
A Biorn, neste momento da sua vida, não lhe interessa questionar politiquices, economia, organização social, saúde ou educação...
Também não seremos nós a falar dos piores defeitos do Povo Luso: bisbilhotices e invejas próprias de um meio estreito e exíguo.
Jorge Dias, no seu estudo interessante sobre o carácter do Povo Português, apresenta matéria fidedigna para quem se quiser deleitar e aprofundar esta temática. No entanto, estamos certos que muitas dificuldades são esbatidas por este clima do sul, pela abertura simples e o acolhimento generoso tão português. Só espero, é nunca mais poder ouvir comentários como o de um cidadão vindo da Holanda que dizia:
“Coitados dos Portugueses. São básicos e palermas, pois que sendo tão pobres, oferecem tudo o que têm e ainda ficam felizes”
Para Biorn de facto, Portugal era uma espécie de paraíso onde estava decidido viver o resto da sua vida.
- Quero morrer em Portugal.Uma mulher, como nunca encontrei outra, roubou o meu coração, há muito tempo.– dizia agora muitas vezes.
Acho mesmo, que apesar de ter passado parte da minha vida num outro espaço, o meu pensamento e sentimentos, sempre me fugiram para esta terra Portuguesa onde o eu espírito sempre morou.

Zélia calma e doce, revia-se nas palavras de Biorn. Não sabia ela como inventar maneiras diferentes e únicas para o amar, para o fazer o homem mais feliz do mundo. Às vezes, conversava com o seu marido:
- Amores trocados, vidas truncadas é o que há mais. A vida é curta neste plano. As pessoas encontram-se para crescer com alegria, não te parece querido? Ora como só se aprende com quem se ama, é difícil evoluir na maioria dos casos em que se vive de uma lembrança. Certamente valerá a pena lutar para ser feliz, não achas Biorn?
- Sim. Sim. Nada compensa esta paz do encontro certo. Não andará por aí aos pontapés a realização pessoal de cada um. Facilitar resolverá o essencial?
Os frutos mais docinhos são os do cimo da árvore. Apanham mais sol. São os mais difíceis de colher. Aos outros toda a gente chega.

Para Zélia e Biorn terá sido bom nunca terem perdido a esperança. Acreditarem firmes no reencontro, acreditem. A sintonia compensa.
Passei há tempos, com um grupo de colegas professoras, pelo Alentejo numa jornada de lazer, para ver as amendoeiras em flor e recordar a lenda da Princesa nórdica que tinha saudades da neve. Eis senão quando... nos deu nas vistas, uma casa muito especial, lá num monte...Exposta ao sol e à luz , uma casinha comprida colada ao chão, rodeada de flores, animais, deixando no ar, uma música de Mozart, exactamente árias da Flauta Mágica. Um lago artificial dava a sensação de um oásis.
Um fontanário público, ali mesmo pertinho à beira do caminho, com gente enchendo garrafões de água fresca, num Alentejo seco e árido por vezes mesmo neste começo de Primavera, fez-nos parar também a nós que íamos sem pressas e precisávamos fazer uma pausa. Foi então que uma das colegas deixou sair um comentário acerca da casa ali mesmo próxima.
-Olhem que casa tão simpática, aquela ali rodeada de flores?

Uma das senhoras que enchia o garrafão, como as gentes portuguesas comunicam facilmente, ao ouvir falar da vizinha, disse com sotaque alentejano:
- As senhoras gostam esta casinha? É da Dr.ª Zélia, uma professora de inglês aqui muito conhecida e estimada.Casou há ainda poucos anos com um senhor lá da estranja. Parece que é da Suiça ou da Suécia. Ouvi estar a dizer há dias, que eles recolhem animais abandonados e os tratam com todos os cuidados.
Têm lá para trás um grande terreno onde cuidam dos burrinhos que o pessoal abandonava na serra, atados a uma árvore para assim morrerem. Então eles vão lá buscar os bichinhos que aqui são tratados com todos os cuidados até ao fim dos seus dias. E ainda empregam lá na “Quinta da Esperança” algumas pessoas aqui da terra.
- Maria, mas a minha filha também foi aluna da Professora Zélia. Um dia destes falou nela lá em casa e disse que o marido escrevia lindos livros!
É gente muito boa para toda a vizinhança.
…………………………………………………………………………………

Quem é feliz não tem dificuldade em amar toda a gente e ser boa para todos.
Zélia e Biorn são o exemplo de que ainda existe uma réstia de luz, uma esperança de encontro para quem procura o seu amor.
Vale a pena insistir e ter e a certeza de que mesmo quando difícil, é sempre motivo para crescer, quando cruzamos com alguém. Ninguém se encontra por acaso.
Já encontrou o seu verdadeiro amor? De que é que está à espera?
Ele também anda à sua procura.
Celebre o encontro!

Lucinda Ferreira
7 feverero 2007

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Da minha janela 2


O meu blog é a minha janela!

Dela me deixo ver e me dispo na minha simplicidade.

Me exponho.

Umas vezes, os textos são curtos para compensar a canseira de quem se farta de ler um conto mais extenso...

Eu disse no meu perfil que adoro escrever.
"Escrever é usar as palavras que se guardaram;
Se tu falas demais , já não escreves, porque não te resta mais nada para
dizer"...

Também disse que adorava publicar os meus escritos, olhem , amigos, é o que vou fazendo.

Agradeço-lhes quando expressam a vossa opinião, porque isso dá- me alento para continuar.

Obrigada aos meus seguidores e quem me deixa comentários e ou emails e telefonemas.

domingo, 29 de novembro de 2009

Analisar e não julgar







Julgar é achar-se mais do que os outros!








É considerar que sabemos tudo e que os outros não sabem nada.








É considerar que só nós é que temos a receita dos bons acontecimentos e que as tentivas dos outros são inúteis e descabidas.








Julgar incita à separação.








Vamos ver então agora o que é analisar.








Analiso, quando sinto que algo está correcto ou incorrecto, de acordo com a minha energia.




Tento perceber e ver , se isto é bom para mim próprio.




Tento perceber o que acontece.




Isto é necessário e muito importante, sem estar com medo de que isto é julgar.








Agora quando considero que o outro tinha ou devia fazer isto ou aquilo, de forma diferente e que essa pessoa é isto ou aquilo por não ter feito, isso é julgamento.








Não interessa ir por este caminho!








De qualquer modo , quando somos capazes de afirmar com convicção:








"não concordo contigo, mas vou lutar ao teu lado para defender o direito que tens de fazer isto ou aquilo".








Assim? Sim!












sábado, 28 de novembro de 2009

O amor tem as costas largas...



O amor tem as costas largas…

”Como o sol abre a corola da flor que a noite fechou, assim o Amor dará força e alento ao coração endurecido pelas decepções da vida”.
Card. Suenems

O ser humano só evolui, quando faz um esforço para se conhecer.
Depois não é o tempo que tudo cura e tudo esclarece.
È a consciência da missão pessoal. O sentido verdadeiro do que é o amor!
Saber o que andamos a fazer neste Planeta, ao qual chegámos, não por acaso.
E isso acontece quando nos despimos de ilusões .
Ás vezes , só quando ficamos mais maduros, tiramos estas conclusões, infelizmente. (…)

Paixão. Atracção. Ciúme. Posse. Sexo não são AMOR!
O amor incondicional é de facto aquele que enche o coração do ser humano. Ele não se alimenta com o que vem de fora. Age sempre de dentro para fora. É o amor ideal. Real. Mesmo na vida conjugal.
Por isso ele ama sem porquê. Seja a quem for. Não espera nada em troca. Dá porque dá. Age, porque age. Regozija-se. Alegra-se por tudo o que recebe, num grande encantamento, por ter descoberto o sentido das relações em alegria. Certezas. Ajuda . Companheirismo. Verdade e coerência.
O amor incondicional é assim como as flores. Desabrocham . Perfumam. Dão cor à vida , porque sim.
As flores não esperam nada em troca. Talvez que não as queimem. Que não as privem de oxigénio. De terra. Que as deixem viver, para se darem.
O grande Sol, as plantas, os mares, a Natureza amam, porque sim.
Mas o ser humano diz que “ama” quando dá .
Se não tem retorno , logo desiste. Até se acha patetinha.
Dá, quando controla. Se não controla, assusta-se. Tem muitos medos. Tem medo de ser enganado. De ser trocado.
Não entende, que quando um copo está cheio, não pode conter mais água.
Quando não percebe que o amor é de dentro para fora e que ninguém pode encher o buraco do seu peito, o seu vazio, se ele próprio não trabalhar a sua interioridade. Nunca ninguém pode culpar o outro pela sua felicidade ou infelicidade.
Somos os únicos responsáveis pela nossa vida. É tudo de dentro para fora.
Os homens, mais facilmente que as mulheres, se não são satisfeitos todos os seus caprichos, começa a “pôr os ovos a outra galinha”, porque aquele mulher não o satisfaz . Não o entende.
Só quando ele tiver resolvido a sua própria interioridade, é que ele está apto a agradecer por tudo que recebe de alguém. Não esperando nada do outro , Tudo que vem até ele, toma-o como uma bênção. Mas aceitar isto, pressupõe ter consciência do seu papel no Universo, como ser único. Indispensável . Insubstituível.
Aquela coisa:
“haja o que houver , quem tem a culpa é a minha mulher,” está mais do que ultrapassada.
Aliás hoje , alguns homens mais “espertos” vão com pezinhos de lã, para usufruírem dos benefícios que lhe dá a presença de uma mulher, nas suas vidas. Podem ser benefícios materiais, vantagens diversas, ou aquela outra (…) que todos muito bem sabemos. A não ser que exista outra opção afectiva, por um parceiro do mesmo sexo.
Os seus amigos até comentam, com alguma admiração:
“Ele até fez um bom casamento!” e...respeitam-no mais por isso. Será que se inverteram as situações?
Estaremos a copiar o matriarcado das sociedades negras?
Aí a mulher trabalha. O homem é considerado pelo número de mulheres a quem dá filhos, pelos quais ela, a mãe, é responsável.
Quando o homem fica só, procura uma mulher para o cuidar. Procura uma empregada , sem ter que lhe pagar…E ainda a pode trair . Maltratar até à morte, como se tem vindo a constatar. A não ser que a mate cruelmente por ciúme, ainda na fase de namoro.
Procurar sexo. Será isso amor?
A mulher, diz-se, que dá sexo, para ter afecto. O homem dá um pingo de afecto, para ter sexo. E do bom! Senão, vai procurar um complemento fora de casa. Os homens Portugueses são muito adúlteros...Não esqueceram a herança cultural árabe.
……………………………………………………………………………………………………………
Também ainda há mulheres muito “bem casadas”, que aceitam todas as infidelidades, em troca de privilégios. De uma liberdade de que também usam e abusam. Vão mantendo as aparências, alimentando tudo, menos um amor conjugal, numa convivência surda lado a lado, por questões várias.
…………………………………………………………………………………………………………
Na realidade, só aprendemos pelo amor e pela dor.
É ele que dá sabor à vida , quando é verdadeiro.
Para isso há segredos que se aprendem. Tudo se aprende, porque não se aprende mais sobre o amor?
Ficamos hoje com algumas reflexões que a idade nos ensina.
A diferença entre julgamento e análise, para chegar ao amor.
Julgar é achar-se mais do que os outros. Achar que outro devia ou tinha de fazer de forma diferente .
De facto, ninguém tem a receita do desenrolar dos acontecimentos.
As tentativas dos outros não são inúteis, nem descabidas.
Julgar é sempre incentivar à separação!
ANALISAR é diferente.
É pensar se uma coisa está correcta ou incorrecta , de acordo com a nossa energia. Isto temos mesmo que fazer, sem medo de estarmos a julgar. Saber se isso é bom ou mau para si próprio.
De qualquer modo, podemos ser solidários no amor, embora não concordando com o que outro faz. Poder estar do lado do outro, enfrentando o mundo, apenas pelo direito que o outro tem de o fazer.
“O amor não é leviano. Tudo perdoa .
O amor é paciente. Não é invejoso. Nao se envaidece, nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos, nem é egoísta. Não se irrita, nem pensa mal.
O amor não se alegra com a injustiça causada alguém, mas alegra-se com a verdade.
O amor suporta tudo. Não pensa mal. Acredita sempre. Sofre com paciência.
O amor é eterno”.

linmare@edicomail.net
http://lucinda-umaponteparaoinfinito.blogspot.com

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Saber é poder ...Desmascarar é urgente


CLARA FERREIRA ALVES (artigo demolidor)

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.

Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.

A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.


Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um crime quase perfeito







Um crime perfeito



A natureza dá-nos cada lição!
O homem insensato e cruel lança-lhe o fogo, quer por interesses inconfessáveis, quer por desequilíbrio, quer por ignorância, quer por maldade pura.
Ela, generosa, indiferente a tanta malvadez continua a perfumar o ar empestado pelo queimar de motores roncando a toda a hora. Ficamos surdos e de pulmões entupidos. Ouvir a passarada, já nem pensar.
Hoje, quase me senti envergonhada , ao aspirar o perfume das flores amarelas e brancas que ladeiam as auto-estradas na Primavera, em Portugal.
Do mesmo modo, os amanheceres raiados ora de cores fulvas, ora duma suavidade sem igual lá estão quase todos os dias, enchendo de luz o Planeta das correrias, competição, guerras, maldades e muito muito poder furioso e cheio de orgulho.
Há felizmente ilhas de amor. Muitas ilhas!
Gente de primeiras águas que honra a Palavra e não se envergonha de ter valore – o que nos dias de hoje vai sendo excepção, porque o que está errado passou a ser regra e todo o resto, é estranho, confuso e desconhecido para a maioria……………………………………………………………………………...Esta força teimosamente generosa e perfumada duma Natureza-mãe que perdoa e faz crescer as mãos assassinas , é testemunha dos mais ignóbeis e inconfessáveis crimes .
O interessante ainda, é notar como o imensamente mínimo é regido pelas mesmas leis do imensamente incomensurável.
Tudo interligado se repetindo e continuando.
A mesma força deste verde sem fronteiras, da beleza que rompe entre penhascos e nos abismos mais profundos, é igual à que se esconde no coração dos que amam a vida, a coerência, o desejo de partilha.
Toda esta força emana da mesma Fonte!
José Maria fora parar ao Seminário ainda menino, nem ele sabe bem como.
Foi crescendo intelectual e espiritualmente.
Sentia-se bem com Deus, com os outros e com ele próprio. Era coerente. Integrou-se.
Defendia a justiça, a paz, o amor, a alegria, a solidariedade. Penetrou profundamente na Palavra! Era isso que a sua alma sem folhos, sem arrebiques, nem segundas intenções, sem interesses marginais, sem necessidade de salvar aparências, era tudo isso que bebia nessa Cristo vivo. Condoído. Inteiro. Puro e sem mácula. Cheio de compaixão por todos.
Os Evangelhos estavam impressos na sua alma de sacerdote de entrega total. Dedicação e entrega nunca foram coisas que lhe faltassem.
Cada paroquiano era irmão, irmão filho do mesmo Deus Maior em quem acreditava sem restrições. Ele acima de tudo!
E era este Deus Pai, bondoso, perfeito, presente no seu coração, que o fazia caminhar à chuva, ao frio, cansado, porque Ele fora o modelo…fiel até ao fim, no seu Filho muito amado que se dera por amor, proporcionando a mudança das trevas para a Luz.
Era a certeza desse amor que lhe enchia a alma e o corpo. Todas as células tinham a marca, o selo do Criador.
E porque ele sempre assumiu essa inteireza, essa totalidade – ele era a dádiva – por tudo isto, às vezes era mal interpretado.
O Povo adorava-o, mas … o poder, fosse de quem fosse (…) sentia-se incomodado.
O Padre José Maria nem dava por nada, tão envolvido estava no seu projecto de amor que envolvia, a maior parte das vezes, a promoção e a defesa dos marginalizados, dos mais abandonados.
Como um íman, que se atrai pelo sangue, o “Padre Zé Maria” era o Pai, o salvador dos sem voz que agora até se sentiam gente, lá naquele recanto do mundo, onde ninguém nunca aparecia, senão em épocas especiais para contagem de votos.
……………………………………………
Começou pelo Teatro aquele encontro entre o Padre Zé Maria e a povoação metida lá na serra mais escondida, a convite de alguém lá da Terra
O dia em que chegava o amigo, o irmão, o ensaiador, era a festa íntima de quem sente que tem ali o seu defensor, o professor , o amigo.
E assim se faz a festa!
Eram representadas cenas bíblicas, mas o mais importante é que no fundo de cada coração, se sentia o desejo de ser melhor, de partilhar, de se sentirem um, no todo. Cada um se sentia agora pessoa, pessoa livre. Já lá iam uns bons tempos, mas ele estava a ser observado…há já alguns tempos.
O Padre Zé Maria não dava importância. Caminhava de cabeça erguida, consciência em paz, leve e feliz. Reforçava todas as manhã com a oração matinal e no segredo do seu coração, louvava o Pai, por aquele encontro que Ele lhe permitiria, pois era isso que alimentava e gerava toda a energia amorosa que o empurrava para acção por mais exigente e difícil que fosse era esse sonho que o fazia viver.
Não possuía quase nada, senão o indispensável, porque a partilha dos bens materiais era o símbolo do que dava de si próprio: todo o seu tempo, dons e aptidões.
Naquele recanto do mundo, Zelica era uma aldeia isolada. Poucos transportes. Apenas uma vez por semana, passava uma camioneta velhota que levava os habitantes da aldeia à povoação mais próxima, sendo necessário naturalmente pagar o bilhete, o que dificultava ainda mais a vida… Há cinquenta anos, tudo era mais difícil entre nós.
O carro do Padre Zé Maria era o transporte preferido. Quase toda a gente aproveitava a boleia sempre que ele ia a Zelica. Ainda mais, porque se ia com o Amigo que todos queriam ver perto e do seu lado. Era um privilégio usufruir assim na companhia do Padre Zé Maria que durante mais de uma hora, era o tempo da viagem que os separava da civilização.
Nestas coisas sérias e verdadeiras dos afectos, seria tolice pensar em sexo ou outros instintos, fora do contexto.
Por que razão é que, seja quem for, homem ou mulher, jovem ou idoso, rico ou pobre, culto ou muito simples, não há-de apreciar, amar, sentir-se atraído por alguém que ama sem porquê, que é líder nato, que é bondoso, mesmo excepcional? As pessoas vêem os outros com aquilo que são. Até há quem ponha em dúvida o amor incondicional de Jesus Cristo forjando amores com uma mulher a quem perdoa os pecados, tal vai a mentalidade das nossas gentes.
Será que tem que se reduzir tudo o que é espírito à dimensão mais animal do ser humano sem possibi- lidade de transcendência?
..e lá se inventam as histórias. Algumas não são isentas de muito veneno…
-Olha, é homossexual…pedófilo. Traz miúdos no carro?!
-Olhem, traz velhos sempre atrás dele, porque lhes quer ficar com os bens…?!
-Aquelas boazonas no carro… raparigas novas com o sangue na guelra. O lume ao pé da estopa, até o diabo lhe “assopra”! Anda metido com elas, pudera!
-Anda com gente desqualificada, porque também pertence à ralé - comentavam os invejosos, aqueles que sentiam que o domínio lhes estava a escapar em favor de um padreco que julgava que vinha agora endireitar o mundo.
Era o que faltava, deixá-lo à solta. Ou entra nos eixos ou…limpa –se -lhe o sarampo! E não tarda muito. Já está a ir longe demais! - comentavam alguns irritados .
A história do Velho, o Rapaz e o Burro, há-de continuar a repetir-se até ao fim do mundo. Quem quer culpar o outro, recorda ainda a história do Lobo e do Cordeiro.”se não foste tu, foi o teu pai que sujou esta água”…A verdade é que o poder é cego: nunca olha a meios para conseguir os seus fins. Quem for tropeço, sujeita-se a ser liquidado, pois então.
Desta vez, era preciso estar bem atento!
Apanhar o Padre Zé Maria numa qualquer situação incriminatória, era urgente. Já estava a ir longe demais. Incomodava muito e a muitos que não estavam habituados, por aqueles lados tão pacatos, a ser contrariados por qualquer oposição. Todos a tirar o chapéu aos “salvadores”, aos senhores que sabem as leis…que sempre mandaram.
Mas aquele mesmo Povo agora amava de verdade o Padre Zé Maria. Identificava-se com ele. Compreendia tudo o que ele dizia .Sabia todo o Povo , daquele saber intuitivo que nasce no fundo do ser e que não engana, que o que ele ensi- nava era para crescimento de cada um, fosse quem fosse.
O povo de Zelica era todo a defender o Padre Zé Maria. A querê-lo a ele só. Já não acreditava no poder estabelecido e se fosse preciso, refilava e fazia ouvir a sua voz. Diziam mesmo alto e bom som e já sem os medos de outrora: “nós vamos falar com o Padre Zé Maria e depois logo se verá”.
- Mas quem pensa esse Padreco que é ?
-Deve estar à margem da hierarquia. É um herege. Os padres antigos sabiam dominar o Povo. Agora exorbitam as funções. Saem dos eixos
É preciso virar a Igreja, a Instituição contra ele, Urgentemente. Já fez muitos estragos.
Assim será mais fácil, o resto…
Sem saber bem o motivo, o padre Zé Maria viu-se envolvido em sérios problemas. Foi a sua pureza e inocência reconhecida pelos mais honestos e coerentes dentro da Igreja, que o defendeu, apoiou e acarinhou, não lhe reconhecendo qualquer culpa ao fazer do Evangelho, um programa de vida.
Por aqui, nada feito, meus Senhores!
- Há que encurralá-lo de qualquer modo. Os estragos estão a alargar-se.
-As pessoas estão a ficar escla- recidas demais. O Povo para obedecer, precisa de ter necessidades, não saber de mais e ter medos. Muitos medos!
- Basta saber ler, contar. O resto só serve para fazer confusão na sociedade. Só causa problemas.
……………………………………………
Aqueles respeitáveis senhores, intocáveis, impacientes, repetiam entre si:
-“se fosse no Brasil, isto já estava resolvido”- alvitrou um dos do grupo.
-Ah, parece que ele anda aí com uma rapariga que traz no carro muitas vezes.
-Uma namorada?!! O sacana do Padre vai ver como elas doem.
-Mas num padre …isso é inconcebível.
- Vamos tratar-lhe da saúde, não se preocupem.
-Mais depressa do que se pensa…
Temos mais do que razão para resolver a coisa…
-Foram observando e organizando as suas estratégias.
Entretanto o Padre Zé Maria continuava na sua tarefa. Na sua missão. Nada mudava, senão para pior.
O Povo cada vez seguia mais de perto o Padre Zé Maria. Dar a vida por ele, seria algo normal entre as pessoas de Zelica.
Ninguém acreditava na sua falta de honradez. Todos conheciam muito bem a categoria do amor incondicional do seu amigo.
-Espera lá , que nós já te dizemos como é.
Reuniram numa noite negra de chuvas e trovões que tudo encobre. Era dia de ensaio com o Padre Zé Maria, todos o sabiam , porque ele certinho e pontual.
Como de costume, o jeep do Padre Zé Maria fazia como sempre o mesmo percurso de regresso a casa, saindo das entranhas do abismo e penetrando na estrada estreita e si- nuosa.
Naquela noite, como em todas as outras, furava a montanha deserta, rompendo o escuro com os faróis aguçados no máximo para ver apenas um palmo à frente.
……………………………………………
- Sim. Sim .Ouvimos um estrondo terrível! - dizia aterrorizado um velhote , pondo as mãos à cabeça.
- Ai coitada da Lurditas,…tão boa rapariga , tão nova e que mal fez ela, meu Deus, para ter esta sorte ?Bocados de perna e de cabelo estavam mesmo aqui à nossa porta.
- Não é possível! – diziam cheios de desespero e de raiva contida , outros que chegavam correndo indiferentes ao tempo áspero que se fazia sentir na serra.
- Não acredito! O Padre Zé Maria não pode ter morrido! Aquele santo homem! O amigo do Povo!
- Uma bomba!!!! Mas quem é que podia fazer aquilo, se ele era bom para todos?!O jeep todo rebentado e feito em pedaços , ostentava pedaços de carne e muito sangue por todo o lado….................................................
Na sua simplicidade, o Povo interrogava - se e não conseguia perceber por que teria acontecido tal coisa uma pessoa tão boa.
- Teria explodido o motor?
Ao outro dia no jornal , lia-se .
“Ontem, cerca das 23 h, no Ladeira do Canado, ouviu-se um grande estrondo. Acorreram numerosos populares que testemunharam terem visto pelos arredores os corpos do Padre Zé Maria e de sua colega de grupo, a professora Lurdes, que minutos antes se tinham despedido , indo em direcção a Poços, onde, ambos residiam e para onde habitualmente se deslocavam no final das actividades que exerciam junto do Povo de Zelica.”
A notícia era curta sem comentários. Os caciques podem muito e era preciso ser prudente.
Comentava-se a medo, que alguém tinha posto uma bomba no carro do Padre Zé Maria.
Outros, entre soluços diziam:
-Nunca tivemos ninguém tão amigo como este bom homem!
-Mas quem pode fazer o isto!?
Alguém comentou, por entre dentes e quase a medo:
Teve o mesmo destino que Jesus Cristo que também teve coragem de enfrentar os que mandavam para defender os pobres e os oprimidos.
A sede do poder cega .
Há gente que cilindra tudo e todos para atingir os seus objectivos. Não olhando a meios para atingir os fins, Maquiavel continua a ser lido e posto em prática.
Todos os dias, por todo o mundo, se cometem barbaridades por causa da sede de poder.
…Também o Padre Zé Maria foi sacrificado em nome dos “sãos costumes”, por andar a sublevar o Povo, o mesmo é dizer, ensinar-lhe a ter dignidade, a saber fazer as suas escolhas e a viver com dignidade de ser humano, apto a fazer escolhas conscientes.
O outro também não dizia que”o Povo basta saber ler, escrever e contar”?
..Assim se comete um crime perfeito, impunemente.
Valha-nos a sagrada justiça.

À beira do Rio




À BEIRA RiO …
Enquanto a Mãe tricotava, o miúdo brincava com uma canita, na margem do rio
manso e calmo.
De repente, a cana prendeu-se!
A criança, com a curiosidade inocente de quem nada mais tem a fazer, que matar o
tempo que corre e imitar os crescidos, pescou primeiro... um sapato.
Toda a tarde a pescar e quando a cana prendeu, pensou ter pescado uma grande
truta... Um grande peixe dourado.
... Bom, era apenas um sapato velho!
... mas não desistiu e continuou a pescar. Prendeu-se a canita, outra vez.
Agora era um saco de viagem preto e vermelho.
Quis puxá-lo sozinho, mas não teve força.
Gritou então muito excitado e pediu ajuda à Mãe.
Quase tropeçava e era puxado para a corrente pelo peso enorme do “pescado”... É
que a corrente ía brava!
A Mãe, entre aflita e curiosa, correu a ajudar o pequeno.
Naquela tarde agradável de Primavera, com a terra perfumada, o céu azul e o rio
muito verde, era muito agradável aquele passeio já habitual à beira rio.
Nunca acontecera antes, nada de especial, mas hoje, um grande e bonito saco, ali
viera ter a seus pés.
Até era curioso o achado.
O saco sugeria viagens sem fim... Era tão jeitoso!
... mas, o saco estava tão pesado!
A corrente arrastava-o com alguma força e foi difícil pescá-lo.
... porém a curiosidade e o sabor de se ter um saco de ouro, que não era de ninguém,
e o sentimento de protecção para com o filhote, para lhe dar a vitória a Mãe a afzer
alguma força. Insistiu!
Por fim, lá veio o saco para a margem.
O pequenito apressado e curioso, insistia com persistência.
- Mamã, deixa-me abrir a mim!
Fui eu que o vi primeiro.
A Mãe sorriu com bonomia e deixou o menino satisfazer a curiosidade.
Mas... ó Deus! Que horror!...
Dentro do saco, estava... justamente um tronco de mulher.
... um tronco de mulher, vestido com um soutien vermelho.
“Que horror”! – repetia a Mãe, entre assustada e desconcertada com tal achado.
... o pequenito estupefacto só dizia
- Mamã, o que é isto?
- Mamã, Mamã, o que é?
Sem se conter, acaba por gritar.
- Cala-te! Cala-te! Cala-te!
Tentou depois dominar-se para acalmar a criança não menos assustada.
- Vamos embora João.
Deixa lá o saco.
A Mãe compra-te outro saco, ainda mais bonito.
O miúdo atónito, assustado, curioso e suspenso, deu a mão à Mãe e lá foram
embora... a correr.
Luisa foi pôr o filho a casa.
Pediu à Mãe que lho deixasse ficar um bocadinho com ela, que já voltava. Não deu
outras explicações.
Correu veloz para a polícia. Contou o sucedido.
Passado pouco tempo, o saco estava rodeado de muitos curiosos.
A notícia espalhava-se. Na pequena cidade alvoraçada, a notícia passava de boca em
boca.
Os mórbidos e doentios acorriam à beira rio.
Gostavam de ver com os próprios olhos.
Certificar-se daquela crueldade.
Teciam comentários. Conjecturavam.
... cada vez mais o estranho achado era motivo de comentários correndo de boca em
boca:
- ‘apareceram umas pernas de mulher dentro de uma mala, presa num salgueiro
do rio’.
Toda a gente muito assustada e indignada, esperava suspensa o deslindar da questão.
Bombeiros, polícias e militares procuravam sem descanso, o resto do corpo.
- É uma pouca vergonha.
- Estamos no fim do mundo.
- ... Já não há respeito por ninguém.
- Anda tudo fora da graça de Deus.
- Quem é que pode estar seguro?
Eram comentários que sussurravam no ar.
Por fim aparecia, numa outra mala de viagem, a cabeça de uma mulher jovem,
bonita.
Dava sinais de ter sido espetada no coração! Escoartejada.
- Crime passional?
- Ladroagem?
- Simples selvajaria?
- Ataque de loucura?
- Quem teria sido aquela infeliz rapariga?
- Qual o porquê de tão macabra sorte?
Dúvidas... hipóteses... pistas... sugestões surgiam na cabeça dos responsáveis pela
investigação.
Dois... três... quatro... cinco dias... uma semana, e a história seria deslindada.
O criminoso, um antigo militar dos comandos que servira na guerra colonial,
perdera a cabeça e...
... tinha sede de sangue!
... dava-lhe prazer afirmar o seu poder, deste modo.
... perdera a cabeça?
Ela era a sua segunda mulher.
Até “gostava” dela, à sua maneira. Dum modo sádico e egoísta, digamos.
... além do mais, não queria trabalhar. Vivia à custa da venda do corpo da sua
companheira.
- Até que a vida não ia nada mal... pensava para si mesmo.
Que raio lhe passara pela cabeça, para me chatear e dizer que me ia deixar?
A gaija vai saber o que lhe custa a proeza.
Não é para mim, mas também não será para outro cabrão – pensava o Júlio da Luisa,
conhecido no meio pelo estranho comportamento e visível agressividade .
Na noite anterior, tinham ralhado.
Insultavam-se muito com palavrões e barulhos esquisitos, confessaram mais tarde os
vizinhos.
- Aquilo eram só berros e gritos – diziam assustados.
- Era um casal enigmático. Ninguém ousava meter-se – “Entre Homem e
Mulher... ninguém meta a colher “ – diziam baixo, comentando entre si.
- Recordam de facto, que a partir de certa altura, caíra um grande silêncio, em
casa do Júlio e da Luisa...
A noite acabou por banhar todos, num sono profundo.
Luisa, essa então é que nunca mais acordaria!...
Entretanto Júlio, depois daquela operação violenta tinha que desfazer-se da
encomenda incómoda.
Depois de ter dormido calmamente o sono dos justos (?!!) acordava. Pensou então
que era melhor, viajar demanhã cedo.
Exactamente. Apanharia o primeiro combóio da manhã, quase vazio, habitualmente.
Às seis horas, as pessoas gozavam ainda o último sono da manhã...
Instalou-se sózinho, na última carruagem.
- Até calhava bem.
Quando passar na ponte sobre o rio, faria voar a encomenda... – pensava
calmamente, Júlio para si próprio.
Se bem o pensou melhor o fez.
Livrou-se depressa do mono que não mais o aborreceria. Naquele dia até
ficaria mais leve.
Ultimamente, Luisa andava adoentada. Parecia uma carraça.
... e o pior, é que trazia menos dinheiro para casa.
- Já não saboreava um bom bife e um bom vinho De marca há uma semana!
- Tenho que mudar de pega, que esta está a ficar fanada – pensava Júlio.
Naquele dia, pelo menos, tiraria a barriga de misérias.
Jantaria cabrito... bom vinho e o que surgisse no momento.
E não seria num ‘Mijacão’ qualquer. Seria num restaurante de gente fina!
... Um príncipe em festa.
Com o dinheiro no prego dos brincos, do relójio e do fio de Luisa, não faltaria
mesmo nada.
No fim, dava uma volta e toca de arranjar outro ‘cabide’.
- Aquela já lá vai e... não chateia mais – pensava para si.
- Mas a verdade, é que agora começava a incomodá-lo. A joelhada que ela lhe
dera nas ‘partes fracas’... ao tentar defender-se.
- A cabra, sabia-a toda.
... e agora esta merda está-me a doer cada vez mais – pensava Júlio.
Começou a prender-lhe a perna. Não conseguia andar com a dor cada vez mais forte.
- Agora é que estou quilhado – dizia para si.
Enquanto estive sentado, só uma dorzita, mas agora está a ficar fusco.
Parece impossível um gajo como eu, que arranquei e cortei tantas orelhas aos pretos,
com eles aos berros... etc... etc... etc...
Tanto filho da mãe que torturei até à morte e nada me aconteceu.
Um gajo mete-se com cada cabrona! Leva assim uma joelhada nos tomates... e agora
que vou fazer com esta porra tão inchada?!...
- Sentou-se no jardim. A coisa piorou. Foi aumentando.
Torcia-se com dores!
Rangia os dentes. Acabou por desmaiar de dor...
O polícia do giro, viu aquela criatura caída.
Não o conhecia. Viu no entanto, uma tatuagem de guerra colonial, na mão subindo
pelo braço já meio descoberto.
Apressou-se a chamar a ambulância que pouco demorara.
Levaram o cidadão sempre inconsciente para o hospital.
A equipa de serviço observou o paciente. Logo foi diagnosticada a pancada.
A cidade continuava desperta e... assustada!
O retracto reconstruído de Luisa, já circulava nos jornais.
Afinal o jornal diário da cidade, até primava por dar relevo a situações insólitas...
Toda a gente comentava o facto... o estranho e entranhado achado do saco intrigava
e assustava o povo pacato duma pequena e calma cidade de interior.
O Natal como o ‘diabo tem sempre uma mão com que esconde e outra que mostra’,
a vida também tem sempre uma parte oculta e outra descoberta!
No bolso do casaco do doente, chegado inconsciente, ao hospital, havia alguns
papéis engordurados e calendários com mulheres nuas e... outras preciosidades...
Entre a papelada , encontravam-se dois bilhetes de identidade. Um deles, com foto
de Mulher!!!
Então alguém, alertou imediatamente:
- Esta foto é semelhante à da mulher assassinada que vimos no jornal, não vos
parece?
- Toda a gente correra, para confirmar, negar ou satisfazer a curiosidade.
Entretanto, alguém alertara a polícia que de imediato levantada a ponta do véu
investigava até aos últimos pormenores, toda a situação.
O doente ia recuperando aos poucos...
... agora o resto, já não era só com o hospital e os cuidados médicos...
... agora o resto era com os homens do crime, habituados à pesquisa e à insistência
para apuro da verdade.
Nem terá sido preciso grande trabalho neste caso, certamente.
Não sabemos.
Só sabemos que mais tarde, ao tratarmos de assuntos de natureza social, num
determinado estabelecimento prisional, alguém nos mostrava um homem de meia
idade, que ria e fumava animadamente atrás de uma grande grade...
- ... ao menos ali, tinha quem o entendesse.
Até se aprende aqui uns truques.
Um gajo aqui não se preocupa mesmo com nada para viver. Tem comida... roupa
lavada... televisão...
... e se for preciso, faz-se greve... faz-se uma revolta... dá-se um tiro nos cornos do
polícia – comentavam certamente entre si os presidiários, conforme confessam
quando saem...
- Só falta serem tomados ao ombros, como salvadores da Pátria... uns ‘Heróis’.
Ou então como nos contaram, que dizia um advogado muito empenhado em pôr na
rua, toda a espécie de malfeitores:
- Quando vou para o julgamento, já sei que todos serão absolvidos...
O Juiz já tem com ele passagem e hotel pagos, para oito dias no Rio de
Janeiro... Êxito assegurado.
- Exagero deste diz-se, diz-se... acrescentamos nós.
- Coitados destes gajos que andaram na guerra colonial.
Ficaram todos ‘apanhados’ e marcados, pela violência...
- Ficaram é apanhados da moca – comentavam algumas pessoas que ainda se
recordavam do macabro acontecimento da mala e da rapariga assassinada e
cortada aos bocados...
- Há quem afirme que os mecanismos mentais desses ex-combatentes, ficam
muito perturbados para sempre...
Foi assim, que o João nunca mais quis ir com a Mãe brincar, à beira do rio...
... nem sequer quer ser curioso a abrir sacos... Tem medo. Muito medo!
... A Mãe, essa até se arrepia toda, quando se fala no saco vermelho e preto, que o
João pescou à beira do rio, uma tarde morna de Primavera.
Lucinda Ferreira