segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Da minha janela 2


O meu blog é a minha janela!

Dela me deixo ver e me dispo na minha simplicidade.

Me exponho.

Umas vezes, os textos são curtos para compensar a canseira de quem se farta de ler um conto mais extenso...

Eu disse no meu perfil que adoro escrever.
"Escrever é usar as palavras que se guardaram;
Se tu falas demais , já não escreves, porque não te resta mais nada para
dizer"...

Também disse que adorava publicar os meus escritos, olhem , amigos, é o que vou fazendo.

Agradeço-lhes quando expressam a vossa opinião, porque isso dá- me alento para continuar.

Obrigada aos meus seguidores e quem me deixa comentários e ou emails e telefonemas.

domingo, 29 de novembro de 2009

Analisar e não julgar







Julgar é achar-se mais do que os outros!








É considerar que sabemos tudo e que os outros não sabem nada.








É considerar que só nós é que temos a receita dos bons acontecimentos e que as tentivas dos outros são inúteis e descabidas.








Julgar incita à separação.








Vamos ver então agora o que é analisar.








Analiso, quando sinto que algo está correcto ou incorrecto, de acordo com a minha energia.




Tento perceber e ver , se isto é bom para mim próprio.




Tento perceber o que acontece.




Isto é necessário e muito importante, sem estar com medo de que isto é julgar.








Agora quando considero que o outro tinha ou devia fazer isto ou aquilo, de forma diferente e que essa pessoa é isto ou aquilo por não ter feito, isso é julgamento.








Não interessa ir por este caminho!








De qualquer modo , quando somos capazes de afirmar com convicção:








"não concordo contigo, mas vou lutar ao teu lado para defender o direito que tens de fazer isto ou aquilo".








Assim? Sim!












sábado, 28 de novembro de 2009

O amor tem as costas largas...



O amor tem as costas largas…

”Como o sol abre a corola da flor que a noite fechou, assim o Amor dará força e alento ao coração endurecido pelas decepções da vida”.
Card. Suenems

O ser humano só evolui, quando faz um esforço para se conhecer.
Depois não é o tempo que tudo cura e tudo esclarece.
È a consciência da missão pessoal. O sentido verdadeiro do que é o amor!
Saber o que andamos a fazer neste Planeta, ao qual chegámos, não por acaso.
E isso acontece quando nos despimos de ilusões .
Ás vezes , só quando ficamos mais maduros, tiramos estas conclusões, infelizmente. (…)

Paixão. Atracção. Ciúme. Posse. Sexo não são AMOR!
O amor incondicional é de facto aquele que enche o coração do ser humano. Ele não se alimenta com o que vem de fora. Age sempre de dentro para fora. É o amor ideal. Real. Mesmo na vida conjugal.
Por isso ele ama sem porquê. Seja a quem for. Não espera nada em troca. Dá porque dá. Age, porque age. Regozija-se. Alegra-se por tudo o que recebe, num grande encantamento, por ter descoberto o sentido das relações em alegria. Certezas. Ajuda . Companheirismo. Verdade e coerência.
O amor incondicional é assim como as flores. Desabrocham . Perfumam. Dão cor à vida , porque sim.
As flores não esperam nada em troca. Talvez que não as queimem. Que não as privem de oxigénio. De terra. Que as deixem viver, para se darem.
O grande Sol, as plantas, os mares, a Natureza amam, porque sim.
Mas o ser humano diz que “ama” quando dá .
Se não tem retorno , logo desiste. Até se acha patetinha.
Dá, quando controla. Se não controla, assusta-se. Tem muitos medos. Tem medo de ser enganado. De ser trocado.
Não entende, que quando um copo está cheio, não pode conter mais água.
Quando não percebe que o amor é de dentro para fora e que ninguém pode encher o buraco do seu peito, o seu vazio, se ele próprio não trabalhar a sua interioridade. Nunca ninguém pode culpar o outro pela sua felicidade ou infelicidade.
Somos os únicos responsáveis pela nossa vida. É tudo de dentro para fora.
Os homens, mais facilmente que as mulheres, se não são satisfeitos todos os seus caprichos, começa a “pôr os ovos a outra galinha”, porque aquele mulher não o satisfaz . Não o entende.
Só quando ele tiver resolvido a sua própria interioridade, é que ele está apto a agradecer por tudo que recebe de alguém. Não esperando nada do outro , Tudo que vem até ele, toma-o como uma bênção. Mas aceitar isto, pressupõe ter consciência do seu papel no Universo, como ser único. Indispensável . Insubstituível.
Aquela coisa:
“haja o que houver , quem tem a culpa é a minha mulher,” está mais do que ultrapassada.
Aliás hoje , alguns homens mais “espertos” vão com pezinhos de lã, para usufruírem dos benefícios que lhe dá a presença de uma mulher, nas suas vidas. Podem ser benefícios materiais, vantagens diversas, ou aquela outra (…) que todos muito bem sabemos. A não ser que exista outra opção afectiva, por um parceiro do mesmo sexo.
Os seus amigos até comentam, com alguma admiração:
“Ele até fez um bom casamento!” e...respeitam-no mais por isso. Será que se inverteram as situações?
Estaremos a copiar o matriarcado das sociedades negras?
Aí a mulher trabalha. O homem é considerado pelo número de mulheres a quem dá filhos, pelos quais ela, a mãe, é responsável.
Quando o homem fica só, procura uma mulher para o cuidar. Procura uma empregada , sem ter que lhe pagar…E ainda a pode trair . Maltratar até à morte, como se tem vindo a constatar. A não ser que a mate cruelmente por ciúme, ainda na fase de namoro.
Procurar sexo. Será isso amor?
A mulher, diz-se, que dá sexo, para ter afecto. O homem dá um pingo de afecto, para ter sexo. E do bom! Senão, vai procurar um complemento fora de casa. Os homens Portugueses são muito adúlteros...Não esqueceram a herança cultural árabe.
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Também ainda há mulheres muito “bem casadas”, que aceitam todas as infidelidades, em troca de privilégios. De uma liberdade de que também usam e abusam. Vão mantendo as aparências, alimentando tudo, menos um amor conjugal, numa convivência surda lado a lado, por questões várias.
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Na realidade, só aprendemos pelo amor e pela dor.
É ele que dá sabor à vida , quando é verdadeiro.
Para isso há segredos que se aprendem. Tudo se aprende, porque não se aprende mais sobre o amor?
Ficamos hoje com algumas reflexões que a idade nos ensina.
A diferença entre julgamento e análise, para chegar ao amor.
Julgar é achar-se mais do que os outros. Achar que outro devia ou tinha de fazer de forma diferente .
De facto, ninguém tem a receita do desenrolar dos acontecimentos.
As tentativas dos outros não são inúteis, nem descabidas.
Julgar é sempre incentivar à separação!
ANALISAR é diferente.
É pensar se uma coisa está correcta ou incorrecta , de acordo com a nossa energia. Isto temos mesmo que fazer, sem medo de estarmos a julgar. Saber se isso é bom ou mau para si próprio.
De qualquer modo, podemos ser solidários no amor, embora não concordando com o que outro faz. Poder estar do lado do outro, enfrentando o mundo, apenas pelo direito que o outro tem de o fazer.
“O amor não é leviano. Tudo perdoa .
O amor é paciente. Não é invejoso. Nao se envaidece, nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos, nem é egoísta. Não se irrita, nem pensa mal.
O amor não se alegra com a injustiça causada alguém, mas alegra-se com a verdade.
O amor suporta tudo. Não pensa mal. Acredita sempre. Sofre com paciência.
O amor é eterno”.

linmare@edicomail.net
http://lucinda-umaponteparaoinfinito.blogspot.com

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Saber é poder ...Desmascarar é urgente


CLARA FERREIRA ALVES (artigo demolidor)

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.

Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.

A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.


Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um crime quase perfeito







Um crime perfeito



A natureza dá-nos cada lição!
O homem insensato e cruel lança-lhe o fogo, quer por interesses inconfessáveis, quer por desequilíbrio, quer por ignorância, quer por maldade pura.
Ela, generosa, indiferente a tanta malvadez continua a perfumar o ar empestado pelo queimar de motores roncando a toda a hora. Ficamos surdos e de pulmões entupidos. Ouvir a passarada, já nem pensar.
Hoje, quase me senti envergonhada , ao aspirar o perfume das flores amarelas e brancas que ladeiam as auto-estradas na Primavera, em Portugal.
Do mesmo modo, os amanheceres raiados ora de cores fulvas, ora duma suavidade sem igual lá estão quase todos os dias, enchendo de luz o Planeta das correrias, competição, guerras, maldades e muito muito poder furioso e cheio de orgulho.
Há felizmente ilhas de amor. Muitas ilhas!
Gente de primeiras águas que honra a Palavra e não se envergonha de ter valore – o que nos dias de hoje vai sendo excepção, porque o que está errado passou a ser regra e todo o resto, é estranho, confuso e desconhecido para a maioria……………………………………………………………………………...Esta força teimosamente generosa e perfumada duma Natureza-mãe que perdoa e faz crescer as mãos assassinas , é testemunha dos mais ignóbeis e inconfessáveis crimes .
O interessante ainda, é notar como o imensamente mínimo é regido pelas mesmas leis do imensamente incomensurável.
Tudo interligado se repetindo e continuando.
A mesma força deste verde sem fronteiras, da beleza que rompe entre penhascos e nos abismos mais profundos, é igual à que se esconde no coração dos que amam a vida, a coerência, o desejo de partilha.
Toda esta força emana da mesma Fonte!
José Maria fora parar ao Seminário ainda menino, nem ele sabe bem como.
Foi crescendo intelectual e espiritualmente.
Sentia-se bem com Deus, com os outros e com ele próprio. Era coerente. Integrou-se.
Defendia a justiça, a paz, o amor, a alegria, a solidariedade. Penetrou profundamente na Palavra! Era isso que a sua alma sem folhos, sem arrebiques, nem segundas intenções, sem interesses marginais, sem necessidade de salvar aparências, era tudo isso que bebia nessa Cristo vivo. Condoído. Inteiro. Puro e sem mácula. Cheio de compaixão por todos.
Os Evangelhos estavam impressos na sua alma de sacerdote de entrega total. Dedicação e entrega nunca foram coisas que lhe faltassem.
Cada paroquiano era irmão, irmão filho do mesmo Deus Maior em quem acreditava sem restrições. Ele acima de tudo!
E era este Deus Pai, bondoso, perfeito, presente no seu coração, que o fazia caminhar à chuva, ao frio, cansado, porque Ele fora o modelo…fiel até ao fim, no seu Filho muito amado que se dera por amor, proporcionando a mudança das trevas para a Luz.
Era a certeza desse amor que lhe enchia a alma e o corpo. Todas as células tinham a marca, o selo do Criador.
E porque ele sempre assumiu essa inteireza, essa totalidade – ele era a dádiva – por tudo isto, às vezes era mal interpretado.
O Povo adorava-o, mas … o poder, fosse de quem fosse (…) sentia-se incomodado.
O Padre José Maria nem dava por nada, tão envolvido estava no seu projecto de amor que envolvia, a maior parte das vezes, a promoção e a defesa dos marginalizados, dos mais abandonados.
Como um íman, que se atrai pelo sangue, o “Padre Zé Maria” era o Pai, o salvador dos sem voz que agora até se sentiam gente, lá naquele recanto do mundo, onde ninguém nunca aparecia, senão em épocas especiais para contagem de votos.
……………………………………………
Começou pelo Teatro aquele encontro entre o Padre Zé Maria e a povoação metida lá na serra mais escondida, a convite de alguém lá da Terra
O dia em que chegava o amigo, o irmão, o ensaiador, era a festa íntima de quem sente que tem ali o seu defensor, o professor , o amigo.
E assim se faz a festa!
Eram representadas cenas bíblicas, mas o mais importante é que no fundo de cada coração, se sentia o desejo de ser melhor, de partilhar, de se sentirem um, no todo. Cada um se sentia agora pessoa, pessoa livre. Já lá iam uns bons tempos, mas ele estava a ser observado…há já alguns tempos.
O Padre Zé Maria não dava importância. Caminhava de cabeça erguida, consciência em paz, leve e feliz. Reforçava todas as manhã com a oração matinal e no segredo do seu coração, louvava o Pai, por aquele encontro que Ele lhe permitiria, pois era isso que alimentava e gerava toda a energia amorosa que o empurrava para acção por mais exigente e difícil que fosse era esse sonho que o fazia viver.
Não possuía quase nada, senão o indispensável, porque a partilha dos bens materiais era o símbolo do que dava de si próprio: todo o seu tempo, dons e aptidões.
Naquele recanto do mundo, Zelica era uma aldeia isolada. Poucos transportes. Apenas uma vez por semana, passava uma camioneta velhota que levava os habitantes da aldeia à povoação mais próxima, sendo necessário naturalmente pagar o bilhete, o que dificultava ainda mais a vida… Há cinquenta anos, tudo era mais difícil entre nós.
O carro do Padre Zé Maria era o transporte preferido. Quase toda a gente aproveitava a boleia sempre que ele ia a Zelica. Ainda mais, porque se ia com o Amigo que todos queriam ver perto e do seu lado. Era um privilégio usufruir assim na companhia do Padre Zé Maria que durante mais de uma hora, era o tempo da viagem que os separava da civilização.
Nestas coisas sérias e verdadeiras dos afectos, seria tolice pensar em sexo ou outros instintos, fora do contexto.
Por que razão é que, seja quem for, homem ou mulher, jovem ou idoso, rico ou pobre, culto ou muito simples, não há-de apreciar, amar, sentir-se atraído por alguém que ama sem porquê, que é líder nato, que é bondoso, mesmo excepcional? As pessoas vêem os outros com aquilo que são. Até há quem ponha em dúvida o amor incondicional de Jesus Cristo forjando amores com uma mulher a quem perdoa os pecados, tal vai a mentalidade das nossas gentes.
Será que tem que se reduzir tudo o que é espírito à dimensão mais animal do ser humano sem possibi- lidade de transcendência?
..e lá se inventam as histórias. Algumas não são isentas de muito veneno…
-Olha, é homossexual…pedófilo. Traz miúdos no carro?!
-Olhem, traz velhos sempre atrás dele, porque lhes quer ficar com os bens…?!
-Aquelas boazonas no carro… raparigas novas com o sangue na guelra. O lume ao pé da estopa, até o diabo lhe “assopra”! Anda metido com elas, pudera!
-Anda com gente desqualificada, porque também pertence à ralé - comentavam os invejosos, aqueles que sentiam que o domínio lhes estava a escapar em favor de um padreco que julgava que vinha agora endireitar o mundo.
Era o que faltava, deixá-lo à solta. Ou entra nos eixos ou…limpa –se -lhe o sarampo! E não tarda muito. Já está a ir longe demais! - comentavam alguns irritados .
A história do Velho, o Rapaz e o Burro, há-de continuar a repetir-se até ao fim do mundo. Quem quer culpar o outro, recorda ainda a história do Lobo e do Cordeiro.”se não foste tu, foi o teu pai que sujou esta água”…A verdade é que o poder é cego: nunca olha a meios para conseguir os seus fins. Quem for tropeço, sujeita-se a ser liquidado, pois então.
Desta vez, era preciso estar bem atento!
Apanhar o Padre Zé Maria numa qualquer situação incriminatória, era urgente. Já estava a ir longe demais. Incomodava muito e a muitos que não estavam habituados, por aqueles lados tão pacatos, a ser contrariados por qualquer oposição. Todos a tirar o chapéu aos “salvadores”, aos senhores que sabem as leis…que sempre mandaram.
Mas aquele mesmo Povo agora amava de verdade o Padre Zé Maria. Identificava-se com ele. Compreendia tudo o que ele dizia .Sabia todo o Povo , daquele saber intuitivo que nasce no fundo do ser e que não engana, que o que ele ensi- nava era para crescimento de cada um, fosse quem fosse.
O povo de Zelica era todo a defender o Padre Zé Maria. A querê-lo a ele só. Já não acreditava no poder estabelecido e se fosse preciso, refilava e fazia ouvir a sua voz. Diziam mesmo alto e bom som e já sem os medos de outrora: “nós vamos falar com o Padre Zé Maria e depois logo se verá”.
- Mas quem pensa esse Padreco que é ?
-Deve estar à margem da hierarquia. É um herege. Os padres antigos sabiam dominar o Povo. Agora exorbitam as funções. Saem dos eixos
É preciso virar a Igreja, a Instituição contra ele, Urgentemente. Já fez muitos estragos.
Assim será mais fácil, o resto…
Sem saber bem o motivo, o padre Zé Maria viu-se envolvido em sérios problemas. Foi a sua pureza e inocência reconhecida pelos mais honestos e coerentes dentro da Igreja, que o defendeu, apoiou e acarinhou, não lhe reconhecendo qualquer culpa ao fazer do Evangelho, um programa de vida.
Por aqui, nada feito, meus Senhores!
- Há que encurralá-lo de qualquer modo. Os estragos estão a alargar-se.
-As pessoas estão a ficar escla- recidas demais. O Povo para obedecer, precisa de ter necessidades, não saber de mais e ter medos. Muitos medos!
- Basta saber ler, contar. O resto só serve para fazer confusão na sociedade. Só causa problemas.
……………………………………………
Aqueles respeitáveis senhores, intocáveis, impacientes, repetiam entre si:
-“se fosse no Brasil, isto já estava resolvido”- alvitrou um dos do grupo.
-Ah, parece que ele anda aí com uma rapariga que traz no carro muitas vezes.
-Uma namorada?!! O sacana do Padre vai ver como elas doem.
-Mas num padre …isso é inconcebível.
- Vamos tratar-lhe da saúde, não se preocupem.
-Mais depressa do que se pensa…
Temos mais do que razão para resolver a coisa…
-Foram observando e organizando as suas estratégias.
Entretanto o Padre Zé Maria continuava na sua tarefa. Na sua missão. Nada mudava, senão para pior.
O Povo cada vez seguia mais de perto o Padre Zé Maria. Dar a vida por ele, seria algo normal entre as pessoas de Zelica.
Ninguém acreditava na sua falta de honradez. Todos conheciam muito bem a categoria do amor incondicional do seu amigo.
-Espera lá , que nós já te dizemos como é.
Reuniram numa noite negra de chuvas e trovões que tudo encobre. Era dia de ensaio com o Padre Zé Maria, todos o sabiam , porque ele certinho e pontual.
Como de costume, o jeep do Padre Zé Maria fazia como sempre o mesmo percurso de regresso a casa, saindo das entranhas do abismo e penetrando na estrada estreita e si- nuosa.
Naquela noite, como em todas as outras, furava a montanha deserta, rompendo o escuro com os faróis aguçados no máximo para ver apenas um palmo à frente.
……………………………………………
- Sim. Sim .Ouvimos um estrondo terrível! - dizia aterrorizado um velhote , pondo as mãos à cabeça.
- Ai coitada da Lurditas,…tão boa rapariga , tão nova e que mal fez ela, meu Deus, para ter esta sorte ?Bocados de perna e de cabelo estavam mesmo aqui à nossa porta.
- Não é possível! – diziam cheios de desespero e de raiva contida , outros que chegavam correndo indiferentes ao tempo áspero que se fazia sentir na serra.
- Não acredito! O Padre Zé Maria não pode ter morrido! Aquele santo homem! O amigo do Povo!
- Uma bomba!!!! Mas quem é que podia fazer aquilo, se ele era bom para todos?!O jeep todo rebentado e feito em pedaços , ostentava pedaços de carne e muito sangue por todo o lado….................................................
Na sua simplicidade, o Povo interrogava - se e não conseguia perceber por que teria acontecido tal coisa uma pessoa tão boa.
- Teria explodido o motor?
Ao outro dia no jornal , lia-se .
“Ontem, cerca das 23 h, no Ladeira do Canado, ouviu-se um grande estrondo. Acorreram numerosos populares que testemunharam terem visto pelos arredores os corpos do Padre Zé Maria e de sua colega de grupo, a professora Lurdes, que minutos antes se tinham despedido , indo em direcção a Poços, onde, ambos residiam e para onde habitualmente se deslocavam no final das actividades que exerciam junto do Povo de Zelica.”
A notícia era curta sem comentários. Os caciques podem muito e era preciso ser prudente.
Comentava-se a medo, que alguém tinha posto uma bomba no carro do Padre Zé Maria.
Outros, entre soluços diziam:
-Nunca tivemos ninguém tão amigo como este bom homem!
-Mas quem pode fazer o isto!?
Alguém comentou, por entre dentes e quase a medo:
Teve o mesmo destino que Jesus Cristo que também teve coragem de enfrentar os que mandavam para defender os pobres e os oprimidos.
A sede do poder cega .
Há gente que cilindra tudo e todos para atingir os seus objectivos. Não olhando a meios para atingir os fins, Maquiavel continua a ser lido e posto em prática.
Todos os dias, por todo o mundo, se cometem barbaridades por causa da sede de poder.
…Também o Padre Zé Maria foi sacrificado em nome dos “sãos costumes”, por andar a sublevar o Povo, o mesmo é dizer, ensinar-lhe a ter dignidade, a saber fazer as suas escolhas e a viver com dignidade de ser humano, apto a fazer escolhas conscientes.
O outro também não dizia que”o Povo basta saber ler, escrever e contar”?
..Assim se comete um crime perfeito, impunemente.
Valha-nos a sagrada justiça.

À beira do Rio




À BEIRA RiO …
Enquanto a Mãe tricotava, o miúdo brincava com uma canita, na margem do rio
manso e calmo.
De repente, a cana prendeu-se!
A criança, com a curiosidade inocente de quem nada mais tem a fazer, que matar o
tempo que corre e imitar os crescidos, pescou primeiro... um sapato.
Toda a tarde a pescar e quando a cana prendeu, pensou ter pescado uma grande
truta... Um grande peixe dourado.
... Bom, era apenas um sapato velho!
... mas não desistiu e continuou a pescar. Prendeu-se a canita, outra vez.
Agora era um saco de viagem preto e vermelho.
Quis puxá-lo sozinho, mas não teve força.
Gritou então muito excitado e pediu ajuda à Mãe.
Quase tropeçava e era puxado para a corrente pelo peso enorme do “pescado”... É
que a corrente ía brava!
A Mãe, entre aflita e curiosa, correu a ajudar o pequeno.
Naquela tarde agradável de Primavera, com a terra perfumada, o céu azul e o rio
muito verde, era muito agradável aquele passeio já habitual à beira rio.
Nunca acontecera antes, nada de especial, mas hoje, um grande e bonito saco, ali
viera ter a seus pés.
Até era curioso o achado.
O saco sugeria viagens sem fim... Era tão jeitoso!
... mas, o saco estava tão pesado!
A corrente arrastava-o com alguma força e foi difícil pescá-lo.
... porém a curiosidade e o sabor de se ter um saco de ouro, que não era de ninguém,
e o sentimento de protecção para com o filhote, para lhe dar a vitória a Mãe a afzer
alguma força. Insistiu!
Por fim, lá veio o saco para a margem.
O pequenito apressado e curioso, insistia com persistência.
- Mamã, deixa-me abrir a mim!
Fui eu que o vi primeiro.
A Mãe sorriu com bonomia e deixou o menino satisfazer a curiosidade.
Mas... ó Deus! Que horror!...
Dentro do saco, estava... justamente um tronco de mulher.
... um tronco de mulher, vestido com um soutien vermelho.
“Que horror”! – repetia a Mãe, entre assustada e desconcertada com tal achado.
... o pequenito estupefacto só dizia
- Mamã, o que é isto?
- Mamã, Mamã, o que é?
Sem se conter, acaba por gritar.
- Cala-te! Cala-te! Cala-te!
Tentou depois dominar-se para acalmar a criança não menos assustada.
- Vamos embora João.
Deixa lá o saco.
A Mãe compra-te outro saco, ainda mais bonito.
O miúdo atónito, assustado, curioso e suspenso, deu a mão à Mãe e lá foram
embora... a correr.
Luisa foi pôr o filho a casa.
Pediu à Mãe que lho deixasse ficar um bocadinho com ela, que já voltava. Não deu
outras explicações.
Correu veloz para a polícia. Contou o sucedido.
Passado pouco tempo, o saco estava rodeado de muitos curiosos.
A notícia espalhava-se. Na pequena cidade alvoraçada, a notícia passava de boca em
boca.
Os mórbidos e doentios acorriam à beira rio.
Gostavam de ver com os próprios olhos.
Certificar-se daquela crueldade.
Teciam comentários. Conjecturavam.
... cada vez mais o estranho achado era motivo de comentários correndo de boca em
boca:
- ‘apareceram umas pernas de mulher dentro de uma mala, presa num salgueiro
do rio’.
Toda a gente muito assustada e indignada, esperava suspensa o deslindar da questão.
Bombeiros, polícias e militares procuravam sem descanso, o resto do corpo.
- É uma pouca vergonha.
- Estamos no fim do mundo.
- ... Já não há respeito por ninguém.
- Anda tudo fora da graça de Deus.
- Quem é que pode estar seguro?
Eram comentários que sussurravam no ar.
Por fim aparecia, numa outra mala de viagem, a cabeça de uma mulher jovem,
bonita.
Dava sinais de ter sido espetada no coração! Escoartejada.
- Crime passional?
- Ladroagem?
- Simples selvajaria?
- Ataque de loucura?
- Quem teria sido aquela infeliz rapariga?
- Qual o porquê de tão macabra sorte?
Dúvidas... hipóteses... pistas... sugestões surgiam na cabeça dos responsáveis pela
investigação.
Dois... três... quatro... cinco dias... uma semana, e a história seria deslindada.
O criminoso, um antigo militar dos comandos que servira na guerra colonial,
perdera a cabeça e...
... tinha sede de sangue!
... dava-lhe prazer afirmar o seu poder, deste modo.
... perdera a cabeça?
Ela era a sua segunda mulher.
Até “gostava” dela, à sua maneira. Dum modo sádico e egoísta, digamos.
... além do mais, não queria trabalhar. Vivia à custa da venda do corpo da sua
companheira.
- Até que a vida não ia nada mal... pensava para si mesmo.
Que raio lhe passara pela cabeça, para me chatear e dizer que me ia deixar?
A gaija vai saber o que lhe custa a proeza.
Não é para mim, mas também não será para outro cabrão – pensava o Júlio da Luisa,
conhecido no meio pelo estranho comportamento e visível agressividade .
Na noite anterior, tinham ralhado.
Insultavam-se muito com palavrões e barulhos esquisitos, confessaram mais tarde os
vizinhos.
- Aquilo eram só berros e gritos – diziam assustados.
- Era um casal enigmático. Ninguém ousava meter-se – “Entre Homem e
Mulher... ninguém meta a colher “ – diziam baixo, comentando entre si.
- Recordam de facto, que a partir de certa altura, caíra um grande silêncio, em
casa do Júlio e da Luisa...
A noite acabou por banhar todos, num sono profundo.
Luisa, essa então é que nunca mais acordaria!...
Entretanto Júlio, depois daquela operação violenta tinha que desfazer-se da
encomenda incómoda.
Depois de ter dormido calmamente o sono dos justos (?!!) acordava. Pensou então
que era melhor, viajar demanhã cedo.
Exactamente. Apanharia o primeiro combóio da manhã, quase vazio, habitualmente.
Às seis horas, as pessoas gozavam ainda o último sono da manhã...
Instalou-se sózinho, na última carruagem.
- Até calhava bem.
Quando passar na ponte sobre o rio, faria voar a encomenda... – pensava
calmamente, Júlio para si próprio.
Se bem o pensou melhor o fez.
Livrou-se depressa do mono que não mais o aborreceria. Naquele dia até
ficaria mais leve.
Ultimamente, Luisa andava adoentada. Parecia uma carraça.
... e o pior, é que trazia menos dinheiro para casa.
- Já não saboreava um bom bife e um bom vinho De marca há uma semana!
- Tenho que mudar de pega, que esta está a ficar fanada – pensava Júlio.
Naquele dia, pelo menos, tiraria a barriga de misérias.
Jantaria cabrito... bom vinho e o que surgisse no momento.
E não seria num ‘Mijacão’ qualquer. Seria num restaurante de gente fina!
... Um príncipe em festa.
Com o dinheiro no prego dos brincos, do relójio e do fio de Luisa, não faltaria
mesmo nada.
No fim, dava uma volta e toca de arranjar outro ‘cabide’.
- Aquela já lá vai e... não chateia mais – pensava para si.
- Mas a verdade, é que agora começava a incomodá-lo. A joelhada que ela lhe
dera nas ‘partes fracas’... ao tentar defender-se.
- A cabra, sabia-a toda.
... e agora esta merda está-me a doer cada vez mais – pensava Júlio.
Começou a prender-lhe a perna. Não conseguia andar com a dor cada vez mais forte.
- Agora é que estou quilhado – dizia para si.
Enquanto estive sentado, só uma dorzita, mas agora está a ficar fusco.
Parece impossível um gajo como eu, que arranquei e cortei tantas orelhas aos pretos,
com eles aos berros... etc... etc... etc...
Tanto filho da mãe que torturei até à morte e nada me aconteceu.
Um gajo mete-se com cada cabrona! Leva assim uma joelhada nos tomates... e agora
que vou fazer com esta porra tão inchada?!...
- Sentou-se no jardim. A coisa piorou. Foi aumentando.
Torcia-se com dores!
Rangia os dentes. Acabou por desmaiar de dor...
O polícia do giro, viu aquela criatura caída.
Não o conhecia. Viu no entanto, uma tatuagem de guerra colonial, na mão subindo
pelo braço já meio descoberto.
Apressou-se a chamar a ambulância que pouco demorara.
Levaram o cidadão sempre inconsciente para o hospital.
A equipa de serviço observou o paciente. Logo foi diagnosticada a pancada.
A cidade continuava desperta e... assustada!
O retracto reconstruído de Luisa, já circulava nos jornais.
Afinal o jornal diário da cidade, até primava por dar relevo a situações insólitas...
Toda a gente comentava o facto... o estranho e entranhado achado do saco intrigava
e assustava o povo pacato duma pequena e calma cidade de interior.
O Natal como o ‘diabo tem sempre uma mão com que esconde e outra que mostra’,
a vida também tem sempre uma parte oculta e outra descoberta!
No bolso do casaco do doente, chegado inconsciente, ao hospital, havia alguns
papéis engordurados e calendários com mulheres nuas e... outras preciosidades...
Entre a papelada , encontravam-se dois bilhetes de identidade. Um deles, com foto
de Mulher!!!
Então alguém, alertou imediatamente:
- Esta foto é semelhante à da mulher assassinada que vimos no jornal, não vos
parece?
- Toda a gente correra, para confirmar, negar ou satisfazer a curiosidade.
Entretanto, alguém alertara a polícia que de imediato levantada a ponta do véu
investigava até aos últimos pormenores, toda a situação.
O doente ia recuperando aos poucos...
... agora o resto, já não era só com o hospital e os cuidados médicos...
... agora o resto era com os homens do crime, habituados à pesquisa e à insistência
para apuro da verdade.
Nem terá sido preciso grande trabalho neste caso, certamente.
Não sabemos.
Só sabemos que mais tarde, ao tratarmos de assuntos de natureza social, num
determinado estabelecimento prisional, alguém nos mostrava um homem de meia
idade, que ria e fumava animadamente atrás de uma grande grade...
- ... ao menos ali, tinha quem o entendesse.
Até se aprende aqui uns truques.
Um gajo aqui não se preocupa mesmo com nada para viver. Tem comida... roupa
lavada... televisão...
... e se for preciso, faz-se greve... faz-se uma revolta... dá-se um tiro nos cornos do
polícia – comentavam certamente entre si os presidiários, conforme confessam
quando saem...
- Só falta serem tomados ao ombros, como salvadores da Pátria... uns ‘Heróis’.
Ou então como nos contaram, que dizia um advogado muito empenhado em pôr na
rua, toda a espécie de malfeitores:
- Quando vou para o julgamento, já sei que todos serão absolvidos...
O Juiz já tem com ele passagem e hotel pagos, para oito dias no Rio de
Janeiro... Êxito assegurado.
- Exagero deste diz-se, diz-se... acrescentamos nós.
- Coitados destes gajos que andaram na guerra colonial.
Ficaram todos ‘apanhados’ e marcados, pela violência...
- Ficaram é apanhados da moca – comentavam algumas pessoas que ainda se
recordavam do macabro acontecimento da mala e da rapariga assassinada e
cortada aos bocados...
- Há quem afirme que os mecanismos mentais desses ex-combatentes, ficam
muito perturbados para sempre...
Foi assim, que o João nunca mais quis ir com a Mãe brincar, à beira do rio...
... nem sequer quer ser curioso a abrir sacos... Tem medo. Muito medo!
... A Mãe, essa até se arrepia toda, quando se fala no saco vermelho e preto, que o
João pescou à beira do rio, uma tarde morna de Primavera.
Lucinda Ferreira

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Medicos do mundo


Hoje vi uma pequena reportagem que falava do trabalho de amor que esta equipa,faz nos bairros com mais dificuldades e com os sem abrigo!


Das coisa boas , fala-se pouco, mas de facto o amor é uma força sem barreiras, que está vivo no coração de muitos humanos!


Comoveu-me.

Chorei.

E ...telefonei para 1 fone de valor acrescentado para poder contribuir, embora fosse algo insignificante.

Eles pediam 1 carrinha para adaptarem a um consultório.

Quem sabe alguém pode mesmo ajudar?

Maravilhoso aquele trabalho.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mais um gesto simples


Hoje ao gravar o meu programa, no Rádio Clube Português, em 98, 4, às 3f, entre as 13h e as 15h, dei uma pequena sugestão para quem quiser fazer algo muito simples ,mas que pode tornar alguém feliz, começando por quem pratica esse gesto...

A coisa é simples: escrever uma carta a um prisioneiro.

Quem sabe isso pode tocar a pessoa e...fazê-la pensar e até mudar?


A Cruz Vermelha desde 2002 , que apoia os prisioneiros de Guantámano!

Quem quiser , pode dirigir-se à Cruz Vermelha e pedir informações para prosseguir nesta acção.

E agora que começa a pairar no ar a magia de Natal , também se pode escrever um carta para alguém de uma prisão do nosso País.

O Natal pode ser todos os dias da nossa vida!


Conheço situações de agentes que cumprem o dever de apanhar malfeitores,mas que os tratam com respeito e até algum carinho.

A sua missão foi cumprida, mas eles não esqueceram que apesar de tudo, por mais que nos custe, todos somos irmãos.

Difícil?

Mas vale a pena ...tentar. Eu vou escrever.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A casa abandonada


A Casa abandonada

- História de uma casa –


Na encosta do pinhal, com um peso imenso de eucaliptos e tojos a caírem-lhe nas costas, a casa abandonada geme e sofre.
Parte das suas paredes já ruíram.
As heras invasoras cobriram a vergonha do abandono.
Primeiro, a medo, infiltraram-se nas fendas.
Depois foram-se assenhoreando de todo o espaço.
Hoje, uma manta de verdes, como retalhinhos de diferentes tonalidades da cor dos prados, enchem todos os espaços do que antes albergara alfaias e animais.
Parte da estrutura da velha casa de estreitos janelitos, ainda resiste ao tempo e à solidão.
- Vamos construir uma casita ali na encosta – dizia Tomás à namorada, nos dias de sonho, ainda solteiros.
- Ó Tomás, gostava mais perto da minha mãe. Ali, parece-me um pouco isolado.
- Tá calada Teresa.
Estamos à vontade .
Ali ninguém nos incomoda. A criação anda à solta. Temos a ribeira em baixo. Bate-nos o sol todo o dia. Estamos e temos tudo, à nossa maneira . Como Deus com os anjos.
- Vamos vendo por outros lados também, se não te importas.
- Está bem. Podemos ver, mas aquela leira que o meu pai nos dá, para começo de vida, valia a pena.

O namoro foi avançando, Teresa ficou grávida. Casaram um pouco à pressa. Era uma vergonha, se alguém percebia que a Teresa não ia virgem para o casamento. O falatório não perdoava.
- “Em vez da flor da laranjeira, aquela já leva as laranjas para a igreja”.- pairava no ar, à boca fechada…
E a coisa apressou-se.
Teresa perdeu todos os privilégios. Agora, só queria era salvar a sua honra. Não arranjar problemas para os seus pais que eram pobres, mas gente muito honesta.
Teresa não queria ser a vergonha da família.
O pai punha-a logo fora de casa.
No melhor pano cai a nódoa, mas o povaréu não tem contemplações.
E… um homem que se presa tem vergonha na cara.
A escolha de Tomás foi avante.
Já não havia calma, nem ambiente, nem tempo a perder.
A casa foi feita na encosta, à entrada do Porto da Vila.
Um homem quando casa, já tem que ter a sua casa.
Quem casa, quer casa, dizia Tomás para Teresa.
Entre os dez irmãos de uma família pobre e muito trabalhadora, a casa começou a avançar. Os carros de bois chiavam logo às cinco da manhã, acarretando pedras, cal, barrotes, telhas para a nova casa do filho do ti Bernardo.
- Ó Tomás, vocês ficam ali com um palácio!
E ninguém vos incomoda, naquele sítio. Livras-te de chatices. Ficas ali com a Teresa, sem ninguém se meter na vossa vida.
Depois , tens água para os mimos, lá na ribeira. Tens lenha para o lume, logo atrás da casa. Roças uma carrada de mato e estrumas a terra. -- Boa escolha - dizia-lhe o Nando, o irmão mais velho. E pronto.
Um quarto para os noivos, uma sala, outro quarto de costura e mais um quarto para o cachopo, quando nascer.
Por baixo, ficava a cozinha, a loja e a despensa. Ao lado, o pátio com os animais e um canto para o cão e para as ferramentas.
- A nossa casa é linda. O meu enxoval aqui até brilha, ó Tomás.
O casal lá se acomodou com os seus poucos haveres. Foi preciso comprar tudo aos poucos; os cântaros de barro, os candeeiros a petróleo, as louças, os bancos, uma mesa…
A casa sentia-se feliz:
_ Que bem me sinto. Que feliz sou com este casal amigo abençoando as minhas paredes. Se me caiassem ainda ficava melhor… Mas tenho de esperar.
O menino está quase a chegar… talvez depois.
- Uaá…uaá…uaá…
Cheguei. Sou o primeiro filho do Tomás e da Teresa. Venho enriquecer esta casa - dizia o bébé na sua linguagem, que a casa bem percebia.
É que as casas também têm uma alma. A alma desta modesta casinha era pura e lavada pela encosta da serra. Desinfectada pelo odor dos eucaliptos que a rodeavam. Embalada pelo som da água do ribeiro, cantando dia e noite, nos penedos que penetrava teimosamente sem parar, sempre correndo.
No inverno a casinha lamentava-se:
- Com esta ventania tão agreste, quase ficava despenteada e sem telhas. Ia tudo pelo ar. Que susto.
No verão, aqui virada para o sol na encosta, até estalo por todos os lados.
Se o fogo pega na floresta, que será de mim?
Que será da família que abrigo e protejo?
- Na primavera, consolo-me no meio dos fetos e dum solzinho doce que me aquece sem me magoar.
No Outono, também não é mau. Cá do meu canto, admiro as árvores carregadinhas de frutos.
No Natal e nas festas, até me assusto. Estou habituada ao silêncio.Com a matança do porco, que grande alvoroço! O animalzinho a chiar aflito, logo pela manhã, é que me faz estremecer de pena pela sua dor…Os homens, num grande alvoroço, fazendo festa à volta daquela morte. Que estranhos são os humanos! Até comem os seus amigos. Durante não sei quantos meses, conviveram com o seu porco. Agora espetam uma faca certeira no coração do pobre animal! E estão todos contentes!
Até deitam foguetes!
Mas o que eu mais gosto, é sentir-me útil.
Quando a minha dona esfrega o chão com sabão amarelo e aquela grossa escova, fico toda a cheirar a lavado.
Uma vez por ano, quando se muda a palha do colchão, o cheiro e a frescura dos cereais, inebriam-me a alma.
A casa da encosta aquando da sua construção, sentia-se jovem e muito amada.
Foi passando o tempo e continuava em pleno vigor, abrigando o casal, e os filhos que foram nascendo: quatro rapazes e três raparigas.
Já não havia onde meter tanta gente, mas todos se acoitavam nela, quando a noite caía de mansinho.
Durante o dia, pouca companhia faziam à casa da encosta. Os rapazes e as raparigas foram crescendo.
Cedo os rapazes começaram a namorar. Pensavam construir o seu ninho. Ali à volta, ou na terra da rapariga, ergueriam a sua casita.
As raparigas também partiram cedo, quase todas.
Umas casaram. Outras foram servir.
O Tomás e a Teresa, cansados, velhotes, foram ficando sempre fieis ao seu amor, à sua rotina, aos seus animais, à sua casa da encosta.
O velho Tomás era muito trabalhador. Pachorrento e de boas falas. Teresa era muito “trabalhadeira”, nervosa. Amiga dos animais e das flores.
A casa perfumada de flores, era um ninho de amor.
A casa da encosta gostava de se ver enfeitada, mas já se inquietava por ouvir gemer os velhotes sozinhos. Isolados.
A chuva entrava no telhado. Não havia quem compusesse nada. Subir para o telhado, o velho Tomás já não podia. Os filhos todos tinham partido.
Teresa punha uns alguidares a apanhar as beiras, porque chovia em casa como na rua.
O tempo implacável ameaçava. Não perdoava.
Um dia triste e sem sol, veio a senhora da morte e roubou Tomás à sua Teresa .
Ela chorou muito alto, quando lhe levaram o seu Tomás para sempre, para o meterem num buraco cheio de água e bichos.
Ela que tanto amara o seu homem e o ajudara, sempre sofrendo ou rindo a seu lado, agora tinha que o deixar partir.
Ficou para lá sozinha. Sem força. Sem vontade para nada.
- Olha, filha, a tua mãe não tem ‘tramengo’ para nada.
- Ó mãe venha daí, para minha casa.
-Não quero, filha. Não quero abandonar esta casa que vos viu nascer a todos e nos abrigou sempre. Construímo-la com tanto sacrifício e amor. Há-de ser Deus, quem me leva daqui.
E lá fazia a sopita com a couve que crescia no quintal, mesmo sem ser plantada. Comia o caldo com o pãozito que lhe traziam os filhos e guardava numa taleiga, dentro do moinho. Comia umas sopitas de café e marmelada. Com pouco se alimentava. Rezava alto na sua casinha. Falava alto para uma imagem que tinha pregada na parede, por cima da cama , para afugentar a solidão e até algum receio de estar só.
Rezava ao seu Santo António. Pedia pelos filhos, pelos netos…serenamente.
Rezava o terço e adormecia em paz, na sua casinha da encosta.
Numa noite igual a tantas outras, deitou-se e nunca mais acordou. Lá foram dar com ela, com um ar sereno e calmo.
A casa da encosta ficou agora sozinha. Silenciou-se tudo. Até o bater da bengala da Teresa no sobrado, se calou.
Vieram os filhos e levaram tudo o que era melhor lá na casa. Lá repartiram em harmonia o pouco que havia.
Agora também a velha casa da encosta previa a sorte que lhe estava destinada: ficar ali ao abandono…
E assim foi…
As silvas, as heras, as aranhas, o pó os bocados de madeira que se ia desfazendo aos poucos, o barulho do caruncho roendo o resto das madeiras erectas, eram a sua única companhia
- Já nem sei quem sou. Será que ainda sou uma casa?
E o tempo ia correndo.
Até que um dia, alguém cansado da multidão, da vida agitada da cidade, do estrangeiro, se enamorou da velha casa da encosta.
- Aqui é que eu e a minha família, estávamos bem, tranquilos…
E noites a fio começou a sonhar com o seu “ palácio”, reconstruindo a casa da encosta, apenas mentalmente…
Criando os seus animais, falando com eles vendo-os crescer, plantando uma horta verde, colhendo os frutos sem pesticidas, respirando o ar puro dos eucaliptos ali à volta. Descansar à sombra na ribeira, nos dias cálidos de verão.
Aconchegar-se ao borralho, nas noites frias de inverno.
Viver o silêncio.
Sentir a calma.
Escutar a chuva a bater na vidraça.
Aconchegar-se sob as cobertas e sonhar com mundos de paz, de justiça e harmonia.
A sintonia com a velha casa da encosta, fê-lo sonhar e reviver tempos passados…
Contudo, a vida tem altos e baixos, agitação e calmaria.
O nosso amigo que se enamorou da casa da encosta, mudou o rumo da sua vida
Instalou-se a discórdia na família. Morreram todos os sonhos, mesmo antes de nascerem.
Aquele seu projecto não cabia nos novos planos.
Então num gesto de fidelidade e carinho saudoso, de vez em quando, vai visitar a velha casa da encosta.
Faz-lhe promessas:
Conta-lhe segredos que só os dois conhecem.
-Será que ainda vou ser feliz? Reconstruída?
Quem espera desespera… - pensa a casa da encosta, que fielmente vai resistindo a muito custo, com ainda duas paredes meio erguidas.
Continua esperando.
Ela sabe bem que o amor faz milagres.
- Quem sabe mais tarde ou mais cedo, alguém se enamora de novo de mim?
Diz baixinho, suspirando a velha casa da encosta, enquanto aguarda coberta de verde e de saudade, que alguém dela se agrade… e a ressuscite em beleza e esplendor Algo que encha a alma de um poeta ou artista sensível, ou simplesmente um eremita.
Aquela casa abandonada, faz me sempre pensar no ciclo das nossas vidas.
Quando viajo no meu país, ou mesmo no estrangeiro, fico muito atenta às casas abandonadas. Elas imploram baixinho, mas com tristeza abafada, a nossa atenção, o nosso tempo e o nosso amor.
Afinal, tal como as cidades e mesmo todos os países, as nossas casas, todas elas têm uma alma!
Escute-a nas noites de Inverno ou na alegria da Primavera e fale com ela. Ela, tal como tudo o que existe, gosta e precisa que a tratem bem!
Adora que lhe digam, sentindo:
-Minha linda casinha, gosto muito de ti, sabias?
E quem é que não gosta de ser bem amado?
Seja muito feliz na sua casinha.
Faça dela o seu ninho de amor em qualquer circunstância da sua vida.
Assim casa e dono, serão bem mais felizes.

domingo, 22 de novembro de 2009

Da minha janela


O que hoje mais me impressionou no meu dia , foram 2 coisas muito simples:

as palavras de Luz de um sacerdote, que resumia tudo o que tenho buscado por todos os caminhos esotéricos, sabendo eu muito bem onde está a minha bússula...mas gosto de seguir o conselho : examinai Tudo e guardai o que é o Bem!

Dei graças a Deus por aquele Homem tão sábio e iluminado, nas suas Palavras.


Também me impressionou a alegria, a beleza e o sorriso do Padre Victor, cuja entrevista escutei na Antena Um.

Um jovem sacerdote, professor que canta e canta bem... Um jovem que ama a Deus e espalha a Sua Palavra como a maior paixão da sua vida!

Alegrou-me mt o meu coração cansado de crimes e tanto roubo e maldades.

Graças a Deus que há quem ofereça a sua vida para levar a luz aos outros e os ajudar no caminho do amoe da mudança interior.

sábado, 21 de novembro de 2009

Leveza e esforço







Tudo aquilo que nos exige um grande esforço, está fora do nosso caminho.



O Céu é leveza. É mágico.



A ternura do Universo sobre cada uma das nós, nas nossas vidas



É real.



Mas a liberdade das pessoas não entende isto e embirra , preferindo as escolhas do ego.



Quer controlar tudo e não percebe que luta com forças desiguais...






Depois é infeliz, porque não quer entender, nem entrar nos eixos.






Um dia , uma minha antiga aluna, licenciada em filosofia ,que encontrei já adulta, perguntei-lhe olhando-a nos olhos:



- Então és feliz?



- Não. Fujo de Deus ,porque tenho medo d"Ele. Das suas exigências.



Perguntei-lhe.



-Tens namorado?



- Tenho.



- Gostas dele? E sentes que ele gosta de Ti? -



-Sim.



-Então e foges dele? Tens medo das suas exigências?






Sorriu ,mas não respondeu.






Como podemos ter medo da vida que nos oferece tudo?!!!!!!!!!






Então a vida é como uma queda de água, livre e simples como a água que corre límpida. Transparente. Alegre. Cantante.



A nossa vida , também.



Quando deixamos fluir.



Quando percebemos que o que exige esforço , não é para nós. está fora do nosso caminho, podemos ter a bússula do labirinto da nossa vida.






A vida é para ser vivida com alegria. Prazer e bem estar, quando estamos nos eixos!



Quando encontrámos a nossa essência.



Escutar. Desapegar. Acreditar.


Actuar de acordo com aquela vozinha que gosta de nós e nos encamina para o nosso fim último. Para o que nos faz feliz.






Passar neste plano , servindo-nos de tudo com gratidão, sem esperar nada e agradecendo tudo!



E estaremos na abundância...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Hoje fiquei estupefacta!


Acreditam que sou cliente da Securitas Direct e que esta empresa, à qual pago pontualmente , mensalmente quase 30 euros , me onerou a minha factura com 139 chamadas de valor acrescentado?????????!!!!!!!


Fiquei sem palavras...


Dei conta do sucedido e aguardo que reponham esta situação no devido lugar.


Claro que dei por ela, porque tenho uma factura com as chamadas discriminadas .


Qual não foi o meu espanto quando vi num único dia, creditadas para eu pagar, 52 chamadas na minha conta!!!!


Nao há direito . Estou indignada


Esta faz me lembrar uma empresa que chamei para ver uma fechadura.

Estava tudo bem ,mas era melhor limpar a fechadura.


Tiveram que arrancar para a limpar...Não percebi por que não limpavam ali...e alevaram. Para pagar mais e terem que creditar duas deslocações (...)?


Quando pedi orçamento ,responderam que não sabiam .


De seguida pediram me uma quantia incrivel...


Disse que achava exagero e por motivo que não vou apontar, lá reduziram um pouco.


E como dizia há dias ,alguém:

andam todos a ... é só metermo-nos com eles.
Uns fazem issso na estrada..outros...


Ha coisas que até assustam mesmo!


Onde é que vamos parar...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O achado- O presente - O Segredo










O Achado – O Presente – A Surpresa

(NOTA: Esta é uma história diferente de que a maioria dos homens não gosta . Também podem pensar na razão desse desconforto…
Desculpem. Parabéns aos que gostam. Qualquer realidade semelhante nas situações, é pura coincidência. Haverá factos descritos que se repetem, mas na vida, ninguém descobre nada. A vida constrói-se em cada momento diferente e inédita)


Em Portugal, ela tocava as vacas. Roçava silvas. Cavava a par com os homens. Era corada, alegre, sorridente, pura como a água que jorrava da fonte, no fundo da comprida leira.
Nos dias de festa, vibrava com o vestido novo a fazer inveja às outras cachopas.
Comia e bebia bem.
Vestia-se garrida. Punha os cordões da avó, as “arcadas” da mãe e dançava toda a noite no arraial.
O João, que lavrava e sachava milho, nos dias quentes de Maio, já lhe tinha visto mais que os tornozelos (…), os peitos a arfar, quando Rosa se vergava.
Já lhe nascera várias vezes água na boca para a desfrutar…Pensou para si, começou a imaginar, noites e noites, como se ela estivesse mesmo ali do seu lado… toda inteirinha. Era tudo tão real que o seu corpo reagia como se tudo acontecesse de verdade!
Vigiava de longe, para que nenhum rapaz da aldeia a colhesse.
Com a vinda de algum outro de fora, seria mais perigoso, porque não podia controlar.
Ás vezes, as moças encantavam-se com quem não era da terra. Era preciso estar bem atento a isso. Espantar a caça…
Um dia de calor extremo, nas mondas, foram beber água ao palheiro e… João atirou-se à Rosa.
Ela deu-lhe uma valente bofetada que lhe soube a doce…
Era segura. Até gostou. Depois, como o lado oposto do ódio era o amor e como dizem os espanhóis, os maus começos acabam sempre bem, pensou para si que a coisa podia crespar, mas havia de conquistar Rosa. Nem que fosse só por teimosia.
Após as tarefas do milho, vieram as malhas do trigo, nos dias em que as praganas se metem até na alma e queimam o pescoço. Toda a carne!
Rosa levou-lhe água fresca e uma toalha para se limpar. Estava a correr de feição a vida, para os sonhos de João…
O pai, já meio tocado pelos copos que metia para dentro para dar mais força no trabalho, estava contente com a corte que o João fazia à sua Rosa. Assim, o rapaz até trabalhava com mais gosto.
Nas festas dos três Santos populares, na noite de S. Pedro, em 28 de Junho, João acabou por pedir namoro a Rosa.
A cachopa disse que ia pensar, mas perante tanta insistência, cedeu.
O namoro de três anos, acabou na festa de casamento que durou quase uma semana, com comes e bebes para toda a aldeia.
Os pais dos noivos colaboraram o mais que as forças e as posses lhes permitiram. Aquele casamento até era a gosto dos compadres e comadres. Todos ajudaram, dando-lhes uma casita velha, antes do casamento, para terem tempo de se dedicarem ao seu arranjo.
João ajeitava-se no trabalho do campo e fazia as suas carocas de pedreiro.
Então os dois, aos fins-de-semana, carregando baldes de cimento, cal e mesmo pesadas barras de ferro, lá arranjaram o seu ninho.
Foram viver para a casa nova, num natal frio e chuvoso, aquando do seu casamento.
Aquela primeira noite foi de prazeres gozados e repetidos, pela fúria de um macho sem contemplações e sôfrego das carnes perfumadas e frescas de Rosa, há tanto tempo desejada e… cobiçada.
Ela coitada, lá se amanhou como pôde.
Suportou. Gemeu e calou tudo. Conforme mandava a descrição das mulheres da aldeia.
Prazer? Nem pingo! Apenas dor da desfloração. Carinho? Nada!
E a vida continuou.
Agora Rosa, além do trabalho do campo e da responsabilidade dos animais lá em casa – a vaca, as ovelhas, os coelhos, as galinhas, o porco ainda tinha que suportar, um amor rude, bruto e demorado, do marido potente e fisicamente bem mais forte e resistente, que o cansaço e a falta de prazer de Rosa lhe permitiam usufruir também.
Mas quem ousava abrir a boca numa situação destas?
Ela era uma mulher casada e de boas famílias. Não era nenhuma galdéria ou mulher de prazeres fáceis.
E pronto. No meio da brutalidade de João, sem qualquer prazer, saíra uma sementinha de vida que tomava forma dentro de Rosa.
Pouco tempo depois de estarem casados, ela ficou grávida.
Nove meses depois, um dia bem quente de Verão, Rosa sentiu as dores de parto. João foi a correr chamar a sogra.
Aqueceu-se água e lá entre gemidos e gritos, a avó Nazaré, aparou um rapazito corado e gordalhufo.
Mais umas tantas canseiras e esforço para Rosa, compensada agora pelos bracitos gordinhos de Manel que só queria a mãe. O seu instinto maternal ia alimentando toda a sua necessidade de amar e de se sentir amada. Não havia mais nada…
Dava de mamar ao seu menino, não sei quantas vezes. Sempre que ele chorava. Sem disciplina, mas com amor.
E a vida ia decorrendo.
Um dia, quando Rosa foi à loja da aldeia, comprar sabão para lavar as fraldas de Manelito, reparou que mal entrava, tudo se calava.
Rosa era viva e esperta. Apercebeu-se que se passava alguma coisa. Não disse nada, mas quis certificar-se.
O falatório aumentava. Naquele passar de palavra, um dia a Ti Palmira, mais linguareira, bateu forte com a língua nos dentes e disse:
- Olha, cachopa, o corno é sempre o último a sabê-lo…
O teu João fez um filho na Maria Carraça. Não é só teu, como vês. Será que tu sabes isso, mulher?
Rosa quase desmaiou. Com o filhinho apertado nos braços, ficou sem força e sem saber o que dizer.
O choque foi tão grande que o leite lhe secou.
Já não fez as compras na “baiuca” da aldeia. Foi para casa chorar.
Quando o homem veio, meio bruto e a falar aos berros:
- Estão aquelas ovelhas a berrar, ninguém lhes vai pôr comida?
- Então hoje não há ceia? Andas doida ou que é que andas a fazer, o dia todo? Anda aqui um gajo cansado e chega a casa e é isto? Devia ser cortada a língua às mulheres. Rais as partam, tanto falam!

Ao mesmo tempo, mostrava-se zangado, atirava com tudo pelo ar. Batia nos cães para amedrontar tudo e todos.

Quando o marido engana a mulher, normalmente ou a trata bem demais, presenteando-a, querendo disfarçar, ou porque precisa abafar sentimentos de culpa, sendo amável. Este nem isso sabia, acerca dos mecanismos da traição. Era bruto até ao fim. Quanto mais castigador, mais macho se sentia!
Quando a relação adúltera é mais atrevida, grosseira, machista, às vezes, o marido até maltrata a mulher. Zanga-se por tudo e por nada, sem porquê. Revê-se no seu conceito de macho com todos os privilégios, mas não tem qualquer sentimento de culpa. Tenta ainda colocar mal a mulher. Assim vai abafando e justificando a sua fraqueza e falta de lealdade. Sente-se forte e valentão perante o seu conceito de autoridade e perante os outros, iguais a ele.

É duro o dia a dia, sobretudo para a enganada, que assim se vê atraiçoada, tudo engolindo. Sem saber o que fazer.
Mal tratada, e se for preciso, ainda leva umas bofetadas de vez em quando, para ser mais humilde e para o homem na sua roda de amigos, se gabar que a sua mulher pia baixinho... “Quanto mais me bates, mais gosto de ti” – havia mesmo quem acrescentasse, no calor dos desabafos.
Dominador e senhor da situação, o homem sente-se confortável. Forte. Jamais alguém o “montaria” ou ousaria mandar em si! Um orgulho desmedido de que não tinha qualquer consciência. Tinha-se como o melhor e o mais tudo.
Qualquer coisa, quase cultural que andava no ar, fizera da maioria dos homens do mundo inteiro, sádicos. Temidos e mal amados, naturalmente. Os filhos cresciam com estes modelos, nesta violência entre portas. Mesmo sem perceberem nada das doutrinas do senhor Sade…estes machos eram exímios praticantes da sua doutrina.
Se algum era mais “macio”era logo alcunhado do “conas”, o “coninhas”…Às vezes, a cepa dava mulheres destemidas e então, com um certo desdém, o homem era logo alcunhado e conhecido, pelo Zé da Rosa, o Ti Joaquim da Ana malguinhas…
Habituados à subserviência das mães, elas próprias castradoras das outras mulheres, - por vingança, já que nada podiam fazer para aliviar os seus maus tratos, - não deixavam as mais jovens levantar a cabeça ou faltar ao respeito, porque também as mães eram tratadas um pouco à bruta. Aquilo passava de geração para geração. As cachopas se queriam casar, tinham que ter fama de “trabalhadeiras” e nada de rebeldias ou inovações. Sem isso, não arranjavam homem.

Caberá ainda aqui uma reflexão ligeira sobre a problemática feminino-masculino, na nossa Terra?

Não há dúvida que nas descobertas e na emigração, com a partida dos homens, as mulheres ficavam com um rebanho de filhos. Sózinhas, tinham que se desembaraçar.
O Brasil foi um dos destinos que nos roubou pais, maridos e homens que nunca mais comunicaram com os seus familiares. Perdiam a cabeça, o sentido das responsabilidades. Enfeitiçavam-se com as “vergonhas” das mulheres quentes e bronzeadas desses países que lhe prometiam riqueza, liberdades… poder. Tudo! Alguns até comendadores se tornavam, comprando os títulos… sem que lhes passasse sequer pela cabeça, que nisto dos títulos e dos prémios, vale mais merecê-los do que tê-los…

Mas de facto, a mulher teve que ser mãe, pai, cultivar a terra, defender e criar, educar os filhos, sozinha. Mais tarde, quando o homem percebeu essa força da mulher do seu lado, descobriu que o trabalho da mulheres no estrangeiro, lhe trazia vantagens, proventos por vezes superiores aos que ele usufruía. Então levou-a consigo para trabalhar no duro…
Em contacto com povos mais evoluídos, na emancipação da mulher, foi obrigado a ceder, aos poucos. Hoje, entre nós, a violência entre as classes mais cultas, continua sob outros rostos disfarçados de protecção, mas sempre com o mesmo conceito impresso no sangue, de superioridade, sem respeito pelas diferenças e valências das suas companheiras. Não conseguem caminhar lado a lado, ‘iguais’ inter pars’. Isto sobretudo nos mais velhos, incapazes de se adaptarem a um mundo novo, com outros modelos de convivência. Só aprendem o que lhes convém. Por exemplo, partilhar despesas e servir-se da mulher. A relação tem ser de cima para baixo. Se assim não é, cansam-se. Desistem. Sentem-se infelizes. Antes, ainda apelidam as mulheres de arrogantes e caprichosas…Outros mudam as estratégias, continuando no fundo com a mesma postura de comando. Quando lhes falha o mando, fragilizam. Encostam-se. Exploram as potencialidades da mulher, que reconhecem imprescindível para o seu êxito. Há valências que só elas controlam. Eles também sabem isso muito bem. Os políticos são exímios nesta técnica de exploração da mulher, que fica sempre na sombra. Incapazes de as amar, dizem-se muito amigos, porque no fundo têm medo da delas e nunca se dissolvem na relação de entrega, que o é apenas para a mulher. Precisam delas! Não são capazes de se completarem, de terem com elas uma relação de amor e respeito pelo que elas valem, porque tinham que descer do pedestal e “a eles ninguém põe o pé em cima”. São sempre os maiores… Os machos de serviço. Como se pudessem existir machos sem fêmeas e ... o contrário.
As mulheres por seu lado, ou têm que ser mesmo boas no que fazem ou então ninguém as deixa levantar cabeça.
Cheia de razão, se ousa enfrentar um macho com “poder”, é perseguida para sempre.
A meu ver, enquanto Homens e Mulheres não perceberem e aceitarem que só completando-se, numa relação de respeito mútuo, é que se constrói, não há harmonia nem construção possível neste mundo de ferozes guerras várias. Os medos são tanto dos homens como das mulheres. Uns serão melhores e mais fortes num aspecto; os outros serão bons noutros campos. Há que reconhecer a necessidade de partilha mútua, em paz! Acolher. Amar. Completar. Partilhar com alegria…eis o segredo do equilíbrio e bem - estar mútuo entre os sexos.
Só as almas verdadeiramente fortes, são capazes de albergar a ternura sem medo, numa relação.
Muita gente já perdeu a capacidade de amar. Agora, são só interesses que comandam. Mas…não se compram moças de amar…
Mais ainda: não somos nós que elegemos os que amamos. São eles que se nos impõem pelo que são.

Retomando a nossa história, verificamos que a Rosa não fugia à norma, naquele contexto cultural, naquele tempo e lugar de opressão.
Era recatada. Discreta. Conservadora e bem conceituada.
Tinha dado, investido tudo que era e agora, na ratoeira, sentia-se cada mais amordaçada.
Agora de mãos vazias, atadas, com um filho, que futuro a esperará? Sem saída, que iria agora fazer de sua vida?
A Rosa que nunca pensara que tal coisa lhe pudesse acontecer. Ela que sonhara com um uma vida a dois, sempre com amor e entendimento, apesar do trabalho ser muito, mas não lhe ter metido medo.
Parece que isso nunca lhe bateria à sua porta. Aconteceria aos outros, mas o seu João podia ser bruto, mas não ia trocá-la por nenhuma outra. Muito menos pela Maria Carraça que era de todos os homens.
Mas aconteceu.
Rosa começou a ficar doente. O médico receitava-lhe remédios para os nervos. Já não tinha acção para nada. Só lhe apetecia dormir. Mesmo o seu Manelito, sabe Deus o que passou.
À Maria Carraça nasceu-lhe uma menina deficiente.
Agora João debatia-se com várias frentes: a família de Rosa, que o hostilizava, a mulher doente e a
Maria Carraça sempre a atasaná-lo. A querer que fosse viver com ela.
Havia bens em comum com a sua mulher, Rosa. João não pensou que uma brincadeira duns momentos de sesta em que trabalhava com Maria Carraça, na ausência de Rosa, fosse dar naquilo que deu.
Rosa depois de recuperar um pouco do golpe e ao ter consciência de ter sido enganada, tornou-se dura. Má e vingativa.
Era um inferno. Aquele triângulo amoroso dera cabo da vida de toda a gente envolvida.
O ciúme, a vingança pairavam no ar.
Rosa prometia até matar.
A família envolvia-se na batalha do casal. A guerra estava declarada.
Alguém um dia sugeriu:
- Por que é que vocês não emigram? Ao menos, saem daqui. Longe da vista, longe do coração.
O pai de Rosa até emprestava dinheiro para pagar as viagens.
Uma tia que estava no Canadá, havia de dar uma ajuda.
Assim foi.
Um dia de muito gelo, cobrindo as estradas lavradas por tractores e muita gente varrendo a neve, acolheu João, Rosa e Manelito de três anos.
A tia Zita abriu-lhes as portas. Acolheu-os nos fundos da casa, que apesar de para eles ser a parte menos nobre da habitação, era quentinha e confortável como a casa mais rica da aldeia de onde partira João e Rosa.
Logo nessa semana, Rosa e João conseguiram arranjar trabalho.

O Canadá para as mulheres portuguesas, oferece trabalho nas limpezas, com alguma facilidade.
As mulheres italianas trabalham de costura. As portuguesas são bem acolhidas, nos serviços de limpezas.
Aos homens portugueses, na construção também não lhes falta trabalho. Os emigrantes italianos, por exemplo, ocupam-se na mecânica.

Rapidamente, Rosa se sentiu maravilhada pela abundância de dólares que trazia para casa. O menino ficava numa ama, enquanto ela, solícita, cheia de força e habituada à dureza do campo, arrumava casas amplas e limpava os vidros, escadas e alcatifas com desembaraço e perfeição.
De repente viu-se com muitas casas para limpar. Pessoas ilustres que pagavam bem, ali no momento, ainda a tratando com delicadeza. Já ia longe a rudeza das pessoas do campo da sua terra.
Inteligente e observadora, começou a ver como as pessoas se apresentavam. Roupas também já não lhes faltavam, porque os seus patrões a cobriam de fatos e vestimentas lindíssimas, como nunca imaginara possuir. Tudo um pouco usado, mas ainda novas e muito bonitas.
Ali só havia abundância.
Entretanto, João, longe de Maria Carraça, era agora e continuaria a ser tratado com desprezo, raiva e à bruta. Semeara ventos. Colhia tempestades, sobretudo à medida que Rosa se emancipava, a dureza crescia dentro do seu coração para com aquele estupor, que tanto a humilhara e tanto a fizera sofrer. Isso tudo ia ficando longe, mas ela não o esquecia facilmente. Costumava dizer: eu perdoo, mas não esqueço! Para trás, à medida que Rosa se tornava uma mulher emancipada, levando por vezes, mais dinheiro para casa do que o marido, ficaram muitas coisas que estavam a mudar, em cada momento, a seu favor. O Canadá defende animais, crianças, e sobretudo a Mulher, com unhas e dentes. A lei é toda a seu favor. Não gostava de Portugal. Não queria lá voltar sequer.
João, agora isolado, sem o coro dos amigos da aldeia, um pouco dependente de Rosa, achava que esta até tivera razão.
Embora humilhado, calava e tentava recuperar terreno, na família.
Rosa, apercebera-se de que a língua a separava da realidade a que precisava aceder. A sua cunhada cobrava-lhe caro pela sua ignorância linguística.
Depressa Rosa percebeu que necessitava conhecer a língua inglesa.
Assim fez. Logo de seguida, passou a ir regularmente à esteticista, à cabeleireira, à manicura e à massagista. Uma senhora perfeita…
Esbatida ao de leve, a raiva mais funda, num descuido, nasceu-lhe um segundo rapaz.
Alugam uma casa só para a família.
Mais tarde, compram uma casinha.
Começa a perceber que a fidelidade é uma lenda tanto para homens como para mulheres.
Conhece alguém muito mais velho. Alguém que a faz sonhar em longos e longos telefonemas. Apaixona-se primeiro pela voz… Mais tarde pelo homem.
A vida lá vai correndo.
Mantém hábitos alimentares familiares e outros, mas fora é ousada. Atrevida e ambiciosa. Se for preciso, até aprende a ser adúltera.
Compra quilos e quilos de coiratos. Põe em vinho. Depois coloca na arca. Quem chega primeiro assa, coze, come.
O marido fica no canto afastado da mesa. É sempre o último a ser servido. Não tem direito a expressar opiniões. A mãe berra e quando chega nervosa, dá ordens e põe tudo a trabalhar.
A cadelita guincha de medo com os gritos da dona. Faz xixi aflita e depois leva tanta pancada, como o bombo lá da aldeia, em dia de festa.
… Mas como cãozinho fiel, embora infeliz, lambe sempre as mãos da dona e salta de contente, sempre que ela chega, barulhenta e apressada.
- Despachem-se tenho que ir para a minha massagem.
- João, tira a roupa da máquina.
-Manel vai despejar o lixo.
-Bob vai fazer as camas…
Sempre a comandar, berrando. Depois pega no carro, que o marido paga em prestações e sai toda produzida. Pintada. De saia curta, porque os homens lhe gabam as pernas gordas e… mal feitas.
Mas isso faz-lhe bem ao ego. O amigo envia-lhe emails – sim porque teve que aprender, para puder receber todas as baboseiras do velho, que a deliciavam.
Um dia um dos irmãos diz:
- João, temos que trazer a mãe para o Canadá. Ela deu-nos todas as terras, dinheiro, tudo o que tinha. Não pode andar. Está a ficar demente. Se a deixarmos lá ficar, toda a aldeia nos cai em cima e não a podemos deixar morrer como um cão.
Num dia de Primavera, em que as macieiras selvagens enchem de flores o parque amplo e verde, à beira da ponte, lá chega a velhota.
Não sabe, a pobre, o que a espera.
Não sei se também não levou uma tareia…
Os cabelos “enrissados”, arrepelados , penteados à pressa, à bruta, isso era o pão nosso de cada dia.
Depois, quando fazia as necessidades que não devia, era insultada e tratada aos repelões.
Comida, era se queria. Se não queria cheirasse e deixasse. Ficava sozinha como cão, todo o dia.
João saía às cinco horas da manhã. Regressava tarde e cansado. Não riscava nada na família. Os filhos eram brutos, grosseiros e indiferentes a tudo o que era mais cansativo ou difícil.
O mais novo, Bob, com quinze anos, grande como um jogador de box, muito corado, chegava a casa e assava seis bifanas que “mamava” de uma vez, como se comentava entre eles. Se não houvesse para mais ninguém, também não fazia mal. ‘Limpava’ compulsivamente, tudo o que encontrasse.
Quem chegava primeiro, fazia e comia.
Nos dias das compras comia-se à maluca, depois se havia dias sem nada …paciência.
- Desenrasquem-se – dizia a mãe berros, quando chegava.
E andava tudo direitinho.
A velhinha, a Ti Jaquina, era tratada com o mesmo carinho do animal, a meiga cadelinha preta de olho malhado.
O pai ralhava muito, quando Rosa o picava.
O Manel ia para casa da namorada.
Tinha um carrão metalizado, comprado com tudo o que ganhava e ninguém podia sequer pôr um dedo sobre o carro.
O mais novo, Bob, gordo, bruto, indiferente a tudo, sentava-se no computador de barriga cheia, indiferente a tudo que o rodeava.
De noite urinava na cama. De dia fazia todas as suas necessidades nas calças.
A mãe, coquete, maluca, apaixonada, agressiva e… cansada, chegava sempre a correr.
A primeira coisa, ia à net ver o correio do seu amigo.
A seguir ralhava. Depois ralhava… tornava a ralhar e quase comia a velha.
… Até que um dia… quando todos chegaram a casa, a Ti Jaquina já não estava mais entre os vivos.
Chegado o filho, Rosa berra e diz:
- Agora, como é que nos livramos da velha?
Até morta causa problemas!
Alguém sugeriu:
- Temos que ir aos USA, porque não a embrulhamos muito bem e a metemos no atrelado? Põem-se as coisas por cima.
- Lá fala-se com o Padre, e enterra-se lá. Qual é o problema?
- Tinham um irmão no estado de Nova York, relativamente perto dali onde estavam, que certamente iria compreender tudo muito bem. Senão que resolvesse ele como entendesse. Eles fizeram o melhor que puderam. E já tinham aguentado muito…sozinhos com a velha…
E lá se fizeram ao caminho.
Afinal, na desgraça, até os inimigos se entendem….
Pararam todos. Acharam até que era uma solução possível. Apressou-se a partida. Dois dias depois, estavam em marcha com o atrelado cheio das sobras e… também o cadeirão da velha.
E lá foram rolando, estrada fora, contentes e satisfeitos, pensando que bem depressa se livrariam daquele peso.
Chegados à fronteira, passaram sem problema. Já do outro lado, saíram todos descontraidamente para almoçar.
O movimento era grande. Demoram-se mais um pouco.
Chegando junto do carro… a surpresa foi grande, porque o atrelado já lá não estava.
Tinha sido roubado…Um grupo de gente jovem, meio a sério, meio a brincar levara o atrelado, tendo o cuidado de arrancar matrícula. Alguém sugeriu que era melhor trocá-la. Assim fizeram. Já longe, estariam à vontade e despistariam quem quer que desse pela falta do atrelado.
Começaram sofregamente a tirar tudo. Lá no fundo, havia um embrulho estranho.
Alguém foi mais fundo e…!!! soltou uns palavrões jeitosos. Os outros riam, nervosos e confundidos com a surpresa…
- Eh, pá e agora como é que vamos fazer?
-Tás doido! Vamos já pular daqui o mais depressa possível. Quem vier depois, que se desenrasque.
-Atiramos isto para um barranco.
.- O quê, ainda ter que suportar este fedor mais tempo?!
- Eu quero é já ir embora daqui.
-Let’s go!- berraram em coro.
E lá foram os três rapazes ligeiros e apressados, para ninguém se aperceber que estavam ligados a tal estranho achado.
Durante mais de uma semana, o corpo da Vóvó tantas vezes batido pelo vento nas leiras do Norte de Portugal, jazia em decomposição rápida, exalando um cheiro pestilento e fétido, a uma distância considerável.

Os brincalhões atrevidos que roubaram o atrelado, também já estavam noutra, esquecendo rápidamente o macabro achado.
Mas o maldito cheiro levado pela brisa, empestava cada vez mais longe a berma da estrada, no resguardo rodoviário onde ninguém ousava parar. Mal encostavam, arrancavam logo…
Até que um dia, a polícia encostou também.
Eis senão quando, um dos agentes vai mais longe e…
- Um cadáver de uma idosa…
Posto todo o sistema em movimento, durante meses, a nenhuma conclusão se chegou.
………………………………………………………..........
E agora?
- Comunica-se às autoridades que nos roubaram o atrelado? – perguntava Manelito.
- Como?
Queres ir preso tu e toda a família ?– diz Rosa.
O pai, calado, coça a cabeça. Fica um pouco a pensar e diz:
- Vamos embora, o que é que havemos de fazer?
O mundo dá cada volta…
Nem falo nos electrodomésticos que nos roubaram. Olha, compramos outros.
O resto logo se há-de ver…
- Como ela já estava doida, dizemos que desapareceu de casa. Os teus irmãos que a procurem.
Nós já fizemos a nossa parte.
Entretanto os seus familiares tentaram de todos os modos, esquecer o episódio, que deixaram para tràs com alívio. Feliz coincidência de roubarem a matrícula, resolvera em parte, a situação que até podia ser bem mais embaraçosa …
E descontraídos aparentemente, lá seguiram viagem, tomando agora um rumo um pouco diferente.
Criou-se, contudo uma cumplicidade ameaçadora e poderosa entre todos. Quem abrisse o bico, comia e fazia a desgraça de toda a família. Pairava no ar, algo que os ligava terrivelmente e assustava um pouco. Já que o amor não os ligava, unia-os agora o medo da justiça. Um segredo pesado, escuro, pouco lisonjeiro para cada um deles, num país onde a justiça é cega e severa. Até podia passar pela expulsão de toda a família, ao descobrirem tal comportamento…
_- Vamos passar uns dias, em casa daqueles amigos, junto do lago Muskoka?
Primeiro ninguém ouviu, mas depois pensando bem, até acharam que era um boa solução.
...E assim se passaram umas belas férias, sem ninguém a incomodar …para além da consciência pesada e suja que nunca mais os abandonou dia e noite, mesmo em sonhos e pesadelos. Mal acontecia algo menos bom, alguém alvitrava:
- Isto é o castigo do que se fez…
Ninguém esperava bom fim nas suas vidas.
Mais uma vez: ”Quem semeia ventos, colhe tempestades”…
Redobrou de ansiedade, o pesadão filho mais novo, Bob.
A mãe Rosa, de vez em quando, bebia uns copos valentes para ficar mais eufórica e esquecer…
João debatia-se em diferentes pensamentos, chegando a desejar que tudo voltasse atrás, para se redimir de tanta “borrada” na sua vida, mas o caminho faz-se ao passar e o que fizemos, fica escrito e impresso no livro da vida para sempre!
Muitas vezes, se quedava a olhar o vazio, com remorsos do que fizera à mãe.
Enfim, mas agora ali junto ao lago, naquela maravilha, que havia de fazer?
Olhem, era preciso ter cuidado com os ursos que durante a noite se divertiam no jardim!
- É melhor não sairmos para apanhar o fresco da noite. Que se lixe - diz o Manelito.
-Jogamos as cartas …respondeu o outro.
-Esta até foi boa. – acrescentou alguém.
Parece o último filme policial que vimos ontem : os pais que comeram o filho assado num espeto e que deram a comer aos convidados, que vieram confraternizar com eles, também junto de um lago!
- HI!Hi! Hi! Hi ! HI! – riu o filho gordalhufo, habituado só a ver violência e sexo, fazendo uma mijada mais forte nas calças para a mãe lavar…


Lindamar