sábado, 5 de maio de 2012

Ara, a eleita




 ARA, a eleita (2)

"Trago em mim o germe, o início, a possibilidade para todas as capacidades e confirmações do mundo."
 Os Buddenbrooks
  Mann , Thomas

Ara , a jovem menina que nasceu entre os pássaros, embalada pela brisa fresca e morna da ramaria das árvores verdes.  Protetoras. Amigas.

Ara, que cresceu bebendo água na fonte pura que se lhe oferecia cantando...

Ara que correu, livre ao vento, brincando às escondidas, com o sol brilhante sorrindo nas clareiras, aprendeu a agradecer.

 A ser sem mácula entre os seus iguais.

A não esconder a mágoa porque nunca a sentira.

A não conhecer inveja, porque não nem sabia o que isso era.

Pensar mal? Mas o que era o mal para Ara?

Ara aprendeu a sorrir naturalmente, sem porquê.

Aprendeu a agradecer, porque sentia que tudo eram dádivas.

Aprendeu a orar. Louvar. À bendizer o Grande Espírito.
 Era o gesto que todos os dias a rodeava na paz do amanhecer. 
Do anoitecer e até em outras ocasiões ao longo do dia.

Todos agradeciam tudo ao Grande Espírito.

Carregava ao colo e aos ombros, os mais pequeninos, como também os outros já o tinham feito a ela mesma. Não sentia o peso. Amava-os.

Entoava canções inventadas que se perdiam na floresta sem fim.

Seu irmão, Zeu, era o companheiro das aventuras mais arriscadas.
Subiam as árvores altas para colher os frutos para os mais novos ou para os mais velhos.
Curavam os animais doentes que encontravam gemendo na floresta.
Imitavam os sons da Natureza. Dançavam alegremente. Aprenderam as tarefas do dia-a-dia que eram repartidas por todos.

Ara era esbelta. As suas formas de mulher arredondavam-se. Crescia graciosa. A sua pele morena. Brilhante. Cabelos soltos. Compridos. Ondulando ao vento. Saudável. Apetecível. Sem um pingo de gordura a mais no seu corpo virgem. 
Nunca comeu senão o necessário. Nunca soube o que era comer por compulsão. Por se sentir rejeitada. Infeliz. Nunca provou sequer um alimento processado.
Meu Deus, o que seria isso?

Falta de exercício, por estar anestesiada com televisões ou máquinas cheias de violência, nunca acontecera.

Um dia, a vida do grupo fora alterada por um acontecimento marcante…

A tribo vizinha viera com presentes e uma embaixada para escolher noiva para o jovem chefe da Tribo que atingira a idade de substituir o velho chefe. Cansado. Agora apenas com funções de cuidar da saúde de todos com seus sábios conselhos e largos e acumulados saberes.

Ara foi por maioria, a eleita para tal missão.

Ocorre-me algo que dissera Fernando Pessoa.
 “ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
 É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Ora com Ara foi o que aconteceu. O tempo não pára.

Ara crescera. Algo de novo a esperava.

A ela caberá na nova família, gerir tudo o que diz respeito ao mundo feminino local.

O pedido foi feito. A promessa selada com um alegre banquete que demorou uma semana. Festas. Danças. Troca de prendas. Muita alegria.

 Ara está agora ainda mais linda com grinalda de flores no cabelo. Vestida de eras. Fora a eleita.

 É a partir de agora, a prometida.

Zeu, o seu irmão entra na promessa, como o guardião. O símbolo da palavra dada.

Entretanto Ara vai ser iniciada em mil afazeres diferentes. Tarefas novas. Responsabilidades.
No dia da “entrega”, Ara irá com novos saberes. Habilidades. Possibilidade de ajuda para outras mulheres mais jovens.

Ara ao cruzar pela primeira vez o seu olhar doce. Puro. Ingénuo, com o do seu Príncipe, fica alegre. Encantada.

Lau é forte. Sorridente. Gentil. Seguro. Atento. Cortês.

Ara sabia que um dia, aquela vida despreocupada com seu irmão ZEU, na floresta em longas e ingénuas brincadeiras, ia acabar.

Mas também sabia, daquele saber intuitivo que não engana, que a fase seguinte ainda seria melhor. Sempre melhor e melhor!

Mudanças. Projectos causam espanto no coração de Ara.
Em cada coisa nova que aprende, coloca um pouco do seu coração.

Lau, o jovem que a acompanhará até um deles partir,  é elegante. Afável, prometendo dias cheios de beleza e encantos desconhecidos. Descobertas a dois que jamais esquecerão.

Lau também se orgulha da graciosidade e beleza da sua companheira eleita…

Não duvida das suas possibilidades. Confia na escolha feita pelo Perfeito e Grande Espirito que evocara e que se servirá  da escolha experiente feita pelos mais velhos.
Ara sonha agora com novas aventuras.

Ser mãe. Segurar nos braços um bocadinho de si mesma. Ensinar lhe tudo. Fazer dele um Homem ou uma Mulher capaz de grandes feitos. Capazes de continuar a espalhar alegria. Bondade no local onde estiver cada um deles.

Passar o testemunho que lhe fora passado a ela,com a delicadeza e a naturalidade de quem ama, como a Natureza que nada pede em troca.
Ama porque ama. Não sabe. Nem pode fazer outra coisa.

 Ara sabe de um saber inscrito na memória das suas células ,que o Grande Espirito habita em nós.

 Assim tudo está sempre no lugar onde deve estar. Tudo se passa como tem de acontecer.
Os frutos são a Paz . A Alegria e o Amor crescendo em nós e no mundo que nos rodeia.

Tudo em Todos!

Todos em Tudo!

Ara e Lau esperam com serenidade, mas também com uma pontinha de curiosidade anseiam esse grande dia diferente de todos os outros que já viveram.

O “grande encontro” quando será?  

O Chefe anunciará com fogueiras e sons diferentes, que Ara está pronta para o grande dia!

Entretanto no acompanhamento de Lau, tudo são preparativos. Novidades.

 Aguarda-se a decisão dos maiores da Prometida…


2 comentários:

  1. Querida
    Tanto no primeiro texto contando a história de Ara, quanto nesse 2º, vê-se a leveza e os sentimentos puros de personagens que conservam tanto em seu habitat quanto em seu interior a beleza que tanto desejamos encontrar - o amor e o respeito a tudo e todos. Sentimentos esses que não gostaria de ver maculados, embora saiba que a continuidade da história pertence à autora e aos caminhos que ela imaginar.
    Belíssimo texto! E bela iniciativa de ir dando continuidade...
    Beijos
    Estela

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  2. "A Alegria e o Amor crescendo em nós..". Que bom! A sua história é bonita. Agora é esperar pela continuação. Bom domingo!

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